Maus Hábitos, de Pedro Almodóvar

As freiras de Pedro Almodóvar sempre levam algo das “pecadoras” abrigadas no convento – viciadas, assassinas, prostitutas, filhas de fascistas. Misturam-se, permitem-se pecar, sem aderir por completo ao isolamento proposto pelo claustro. Em dada altura de Maus Hábitos, percebemos que a diferença entre quem está fora e quem está dentro resume-se ao figurino.

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Este, não por acaso, é chamado de hábito. O que cobre, o que se renega, também o hábito do qual, em papéis dados há séculos, em suas necessidades, as religiosas não podem abrir mão. Nessa crítica certeira à Espanha ainda à sombra do franquismo, são justamente esses hábitos que persistem – nos figurinos ou em determinadas ações humanas.

No início, a madre superiora (Julieta Serrano) conversa com a viúva de um homem que contribuía financeiramente com o convento. Um fascista que construiu um quarto rosa, como uma casa de bonecas, especialmente para trancar a filha. A herdeira diz que não doará mais dinheiro à instituição, pois se considera livre – do franquismo, da Igreja Católica. Pode ser agora apenas uma burguesa fútil e coberta por maquiagem.

Ao mesmo quarto rosa será levada a mais nova “pecadora” a buscar refúgio no convento, Yolanda (Cristina Sánchez Pascual), que foge da polícia após o companheiro sofrer uma overdose. Almodóvar dá a ela uma entrada celestial, quando, na Igreja, as portas abrem-se para a passagem de luz forte, à medida que as freiras encaram a mulher liberta.

Yolanda é cantora de cabaré. A madre superiora é sua admiradora. Em um diálogo entre ambas, a madre explica sua atração pelas “pecadoras”, pelas mulheres do mundo, pelas damas de boate que, à noite, encantam frequentadores com músicas do passado, inegável sedução, em vestidos brilhantes incapazes de ocultar sinais de decadência.

“Existe muita beleza na deterioração física”, observa a madre. Ao fundo dela está um mural de atrizes famosas, como Brigitte Bardot e Ava Gardner. “Algumas das maiores pecadoras deste século”, aponta. “É nas criaturas imperfeitas que Deus encontra Sua grandeza. Jesus não morreu na cruz para salvar os santos, mas para redimir os pecadores.”

As freiras aceitam a imperfeição, vivem como e com redimidas. Almodóvar sintetiza sua Espanha nesse confronto moldado à comédia, universo de mulheres que se drogam – inclusive as freiras – e criam um tigre no jardim, onde o convento se abre ao selvagem, ou à natureza. “O felino, mimado como um filho, é a representação dos desejos animalescos ainda não satisfeitos das freiras”, escreve o crítico Carlos Eduardo Pereira, no catálogo da mostra El Deseo – O Apaixonante Cinema de Pedro Almodóvar.

São freiras “humilhadas”, cada uma com um pseudônimo que ajuda a compreender a busca pela redimissão: Rata, Esterco, Víbora, Perdida. Não há clausura total, tampouco abertura total: esta é a originalidade de Almodóvar ao expor a hipocrisia da religião, à medida que o convento – em suas trocas, em seus conflitos – é um retrato da própria sociedade.

A madre superiora deseja Yolanda, que dança e canta para ela, para outras freiras também, durante uma festa. Toda a vibração de Serrano detém-se aos seus olhos. Antes, em um cômodo, a artista já havia cantado para a religiosa: “O amor como o nosso é um castigo, que levamos na alma até a morte”, diz, sugestiva, a letra da canção.

No início dos anos 1960, Luis Buñuel fez de seu Viridiana o retrato da Espanha da época, com Franco vivo e a perseguição aos artistas considerados subversivos – ele incluso. Viridiana, interpretada por Silvia Pinal, é a freira que deixa o convento para visitar o tio viúvo e é corrompida não apenas por ele, mas também pela sociedade que tenta salvar. Buñuel volta-se para fora, não viola o espaço sagrado dos velhos muros.

Maus Hábitos, do início dos anos 1980, apresenta outra Espanha, dessa vez atrás dos muros do convento, na qual as “pecadoras” e “humilhadas” expõem uma só sociedade, com suas trocas e conflitos. Com Almodóvar, a sátira escancara o fracasso do casamento com Deus e as dependências que causa, ao passo que as religiosas não conseguem escapar. Nos dois filmes, deparamo-nos com a inegável beleza da deterioração física.

(Entre tinieblas, Pedro Almodóvar, 1983)

Nota: ★★★★☆

SOBRE O AUTOR:
Rafael Amaral é crítico de cinema e jornalista (conheça seu trabalho)

Veja também:
Uma Cruz à Beira do Abismo, de Fred Zinnemann

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