Análise

Museu, de Alonso Ruizpalacios

Os jovens ladrões não conseguem explicar o motivo do crime que praticaram. Em noite de Natal, resolvem invadir o Museu Nacional de Antropologia, no México, para furtar algumas peças raras do acervo. Não se trata apenas de dinheiro. A certa altura do filme, eles descobrem que não podem vender o que não tem preço.

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Esses objetos raros, marcados por suas origens, tornam-se um problema e também um salto à imaginação, o sólido que talvez não dê conta de resumir o passado, símbolo que não permite ver a trajetória completa de um povo, entender quem é seu verdadeiro dono, ou sua real serventia em um mundo imediatista.

Em Museu, de Alonso Ruizpalacios, um provável comprador do material roubado precisa lamber uma das peças. Explica muito: é como se o passado tivesse – mais que imagem ou história, mais que forma – um sabor. Sua “degustação” é a prova, também, de que pode ser tocado, de que o paladar dos mais informados não falha na escolha do melhor prato.

Os rapazes que roubam estão interessados em fazer algo, mudar de vida, talvez vender os objetos para continuar suas aventuras – e talvez aí, não mais às beiradas, descobrir algo, fixar-se. Museu – que indica o templo dos objetos, história feita à coisa física – tem como protagonista alguém que não para, que reconhece a própria transitoriedade.

Juan (Gael García Bernal) é um rapaz de classe média assombrado pela ideia de se prender um objeto em redoma de vidro, espécie de aquário à contemplação. Chegou a trabalhar no museu que mais tarde roubará; é repreendido quando ousa tocar uma dessas peças raras, momento em que seus superiores fazem a limpeza do acervo.

Um desses artigos – o mesmo que, depois, será lambido pelo possível comprador – é a máscara que pertenceu ao rei Pakal, artigo pré-hispânico arrancado da terra, ou de alguma tumba, para ser parte do museu. Para Juan, remonta às velhas explorações, a dos poderosos que levam ouro e artefatos de outro povo.

O rapaz guarda algum idealismo, também rebeldia. Seu companheiro, o narrador, é feito de outro material. Juan tem família grande, pai exigente (Alfredo Castro), com todas as situações típicas a quem vive nesse seio; Benjamin (Leonardo Ortizgris) é “lento”, contraponto à energia do outro, alguém que quer fugir, ou apenas tem medo.

Como criador da história, é inconfiável. Toma a ideia de que a criação vale mais que os fatos, e que em histórias do tipo – a de jovens transformados em improváveis criminosos, meninos de classe média que fingem ser contrabandistas ou figurões importantes – não há problema algum em jogar com a falsidade, ou com a imaginação.

Museu é sobre renunciar ao sólido, ao toque, para escapar à ficção. Seu narrador, ao fim, pergunta ao público se vale estragar uma boa história utilizando a verdade.

Aferra-se à criação. E talvez isso não importe: é a história de uma aventura de dois rapazes em busca de algo que não podem explicar, geração que precisa tocar itens “sagrados” como provocação, no museu que misteriosamente passa a receber mais visitantes após o furto. Pessoas atentas ao vazio cercado pelos vidros em que antes estavam as peças roubadas. Imaginam, de olhos pregados, como eram as preciosidades.

(Museo, Alonso Ruizpalacios, 2018)

Nota: ★★★☆☆

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Neruda, de Pablo Larraín

Infiltrado na Klan, de Spike Lee

Estar do outro lado não é fácil. Causa estranheza, dor de consciência, como mostra o franzino entregador de pizza de Faça a Coisa Certa, do fim dos anos 1980: seu empregador, um ítalo-americano, prefere louvar brancos famosos em seu comércio, em um bairro negro. Fotos de negros não têm espaço na sua pizzaria. O conflito está dado.

O entregador de pizza é justamente Spike Lee, também na função de ator. Até o dia em que corre a história, ele e outras personagens dão de ombros aos famosos e ilustres da parede, do quilate de um Frank Sinatra. Na maior parte, o clima cômico oculta o pior, o conflito.

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Dor semelhante pode ser vista no protagonista de Infiltrado na Klan, policial negro entre maioria branca, ao mesmo tempo parte do todo, ao mesmo tempo de fora. Policial que chega ao emprego como o primeiro negro do local, de cabelo black power à moda da época, duelando com os cortes rentes ao couro, à maneira militar.

Atravessa a linha e, pouco a pouco, constata o esperado: vive em país de divisões, obrigado, por exemplo, a investigar os Panteras Negras. É o homem certo para o serviço: a mando dos brancos, terá de se infiltrar entre seus pares para transmitir o discurso de seu líder, para muitos um palavreado subversivo, cheio de ideias perigosas.

Curiosamente, o mesmo policial vê-se de olhos cheios – entre seus pares, aqueles que pode ter como amigos, ou aquelas que pode ter como companheiras, pessoas às quais se sente abraçado – enquanto ouve o discurso do líder negro. Spike Lee utiliza rostos de deslumbramento – à contramão das faces brancas de ódio e deboche, figuras feitas à comédia e moldadas ao repúdio – para conquistar o público.

Dá certo. Infiltrado na Klan tem lado, claro. Spike Lee é politizado e seu filme vem na rabeira da saída dos supremacistas brancos de suas casas, ou cavernas, fruto da ascensão de Donald Trump nos Estados Unidos. É sobre estar do outro lado – entre policiais, entre membros da Ku Klux Klan -, como no anterior Faça a Coisa Certa.

Depois de passar um tempo no arquivo da polícia, encostado, e investigar os Panteras Negras, seu protagonista, Ron Stallworth (John David Washington), tem um momento de iluminação: se a KKK divulga-se em jornal da cidade, não valeria ligar e tentar descobrir algo? No telefone, finge ser branco e abre caminho à investigação.

O tom cômico é importante para Spike Lee, ainda que o desfecho seja inevitavelmente trágico. A história segue à realidade, imagens verdadeiras dos conflitos recentes em sua nação. Talvez precise ser contada parcialmente engraçada para se compreender o cerne da questão: para a farsa, nada mais que a farsa.

Pois os brancos armados são sempre idiotas. Boçais que acreditam na separação, na “América grande outra vez”, na limpeza étnica. Um deles, David Duke (Topher Grace), diz que consegue identificar a voz de um negro, mas conversa com um o tempo todo acreditando ser um branco. Aos heróis fica o trote, brincadeira como forma de vencer o ódio.

A linguagem cinematográfica é usada de maneira esquemática: enquanto um líder conta histórias de injustiça e como os negros são tratados nos Estados Unidos, os membros da KKK assistem O Nascimento de uma Nação, de Griffith, obra abertamente racista sobre o avanço dos cavaleiros brancos aos vilões negros, nos tempos da Guerra Civil.

Vibram como crianças em matinê e, a cada volta ao lado certo, ao encontro dos negros, Spike Lee transita abertamente entre drama e comédia trágica. A ironia não poderia ser maior. A equivalência é apenas cinematográfica. O resultado é outro: a história contada pelos vencedores de ontem é agora desmascarada pelo cineasta negro.

Seu protagonista policial dá vez a uma nova cruzada em um país que, à época, nos anos 1970, e ainda hoje, não fez as pazes com o passado. O rapaz cruza a linha para ver como funciona a engrenagem do outro lado e descobre que, policial ou não, é preciso estar pronto para a guerra. O mal permanece à porta, o ódio continua por ali.

(BlacKkKlansman, Spike Lee, 2018)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Detroit em Rebelião, de Kathryn Bigelow

As bruxas de Dreyer

Entre o bem e o mal, Dreyer coloca seus personagens numa zona intermediária. O ser maligno de Vampiro (1931-32) é ambíguo. Vive o martírio da realização de suas aspirações individuais, seu fatídico itinerário demonista. Da mesma forma, a mulher traidora de Dias de Ira (1943) é confundida com uma bruxa, que instala a desordem na casa do marido ao se apaixonar pelo enteado. Punida a adúltera, a ordem volta a reinar.

O esquematismo atribuído a Dreyer é um mito. Todos os seus personagens se movem em ambientes suprematistas, onde a indiferenciação predomina. A “bruxa” queimada por contestar a ocupação da França, em 1341, se transforma em “santa” pela mesma Igreja Católica Romana que a torturou. A trágica heroína de A Paixão de Joana d’Arc (1928) é uma variante de todas as mulheres que passam pelos filmes de Dreyer a caminho do sacrifício. Sacrifício, aliás, imposto por Dreyer à própria intérprete, Marie Falconetti, mandando raspar sua cabeça, trancando a atriz em quartos escuros e obrigando-a a usar correntes que cortavam sua pele.

Antonio Gonçalves Filho, jornalista e crítico, na Folha de S. Paulo (1º de novembro de 1991; o artigo está no livro A Palavra Náufraga; Cosac & Naify; pgs. 233 e 234). Abaixo, Falconetti em A Paixão de Joana d’Arc.

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Veja também:
A Fonte da Donzela, de Ingmar Bergman

A Floresta Petrificada, de Archie L. Mayo

Durante uma pequena parte de A Floresta Petrificada, o protagonista de Leslie Howard age como se estivesse em outro lugar, com outras pessoas: fala em se imortalizar, em buscar um significado para a vida após a morte.

É um escritor e, como todos, está em um pequeno restaurante no meio do deserto americano. Andarilho, não tem destino, tampouco parece ter raízes ou algum futuro a agarrar. À altura em que fala sobre se imortalizar, está na mira da arma de um bandido e, como outros que circundam, é mantido refém naquela local esquecido.

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O espectador atento não demora a questionar o que realmente aborda o filme de Archie L. Mayo. Certamente não é uma fita de gângster, ainda que pareça. E também não é um drama sobre vítimas em horas de desespero.

A começar pelo título, é sobre o desejo de se tornar lenda, ou apenas deixar uma marca para além do estado de isolamento, do sentimento de nada, no meio do nada: algo que corrói alguns homens e os faz pensar na posteridade. Desejam, em algum ponto, tornarem-se pedras, contra o ambiente inóspito, no fim do mundo.

Isso explica por que o herói toca no assunto, enquanto parece não ter medo da morte; é assim que confronta o vilão, e o faz entender que pode, com seu sacrifício, tornar-se uma lenda maior que o outro. Do lado oposto está o bandido Duke Mantee, implacável, de olhos flamejantes, imortalizado por um certo Humphrey Bogart.

A começar pelo tipo dos atores, brota o abismo. Howard é calculado até na forma como levanta o copo para brindar à morte: maneira que encontra – pelas palavras, pela consciência – para confrontar Mantee. O vilão de cabelos espetados é estranhamente real, pertence àquela prisão ou gaiola cercada por areia, alguém que não dá a mínima às questões que moldam o desafiante com cérebro.

Essa diferença é apenas o pico do iceberg: um filme sobre pessoas encurraladas por si próprias, em local infernal. No deserto, Mantee surge para corroborar o estado das coisas: esses seres estão à beira da morte, ou às portas do novo começo.

Entre tantas personagens interessantes, há a Gabrielle de Bette Davis, moça de fala livre, juvenil, a abraçar o que pode ser um amor passageiro. Beija outro homem por diversão, ou simplesmente porque suas opções esgotaram-se. E quando vê o viajante e pensador, alguém a falar sobre a natureza humana – sobre tudo o que parece se mover em um local petrificado, de vento e areia –, deixa-se levar.

A direção aposta no pequeno ambiente, aprisiona cada vez mais. Quando Alan Squier (Howard) encara Gabrielle e revela seu amor, a câmera aproxima-se de ambos. Eles continuam sob a mira dos bandidos, ainda assim com tempo para declarações.

As vidas presas àquelas horas não têm começo ou fim, mas tem profundidade. Eis a grandeza do texto, da peça de Robert E. Sherwood: deixar saber muito a partir de representações. Estão por ali o casal burguês, o velho beberrão, a menina sonhadora, o americano infantil, soldados, bandidos e o intelectual.

A mistura de tudo leva ao impensável: todos têm algo em comum quando se veem em risco. A natureza humana – o medo, a ansiedade, a percepção de estar tão perto da morte quanto do esquecimento, no meio do deserto – expressa-se em cada um.

(The Petrified Forest, Archie Mayo, 1936)

Nota: ★★★★☆

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