filme

Bastidores: Os Renegados

Nós víamos moradores de rua nas estradas. Jovens, velhos. E nos dez anos antes de eu fazer o filme, nos anos 70, começaram a aparecer garotas nas ruas. Eu fiquei impressionada. Fiz muita pesquisa dirigindo sozinha em ruelas e pegando garotas com mochilas na rua. Conversei com elas e elas me disseram que queriam liberdade, não queriam trabalhar, não tinham medo de homens, não chamavam atenção. Pensei que esse seria um bom tema atual. Eu tive a sorte de ter Sandrine Bonnaire para fazer o papel da Mona. Sandrine não tinha nem 18 anos, ela fez aniversário nas filmagens. E ela tinha tanta rebeldia e tanta raiva, que ela podia ser ela mesma e ser a personagem.

(…)

Eu queria… não ensaiar as ações, mas ensaiar, tipo, como colocar a mochila, como tirar os sapatos, como dormir na rua. E eu a mandei [a atriz Bonnaire] com outra garota, elas acamparam por três dias antes das filmagens. Mas ela é muito talentosa porque era muito intuitiva, entendia de primeira. E acho que ela realmente construiu o filme comigo. Ela fez muito sucesso, assim como o filme. Preciso dizer que foi o único filme que realmente fez dinheiro dentre todos os meus filmes.

Agnès Varda, cineasta, em declaração em junho de 2017 (a entrevista faz parte do material extra do digipak Agnès Varda, lançado pela distribuidora Obras-Primas do Cinema). Os Renegados ganhou o Leão de Ouro no Festival de Veneza e é conhecido no Brasil também como Sem Teto, Nem Lei. Abaixo, a atriz Bonnaire ao lado da câmera e a cineasta ao fundo.

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O Amante Duplo, de François Ozon

Sabe-se que do olhar da protagonista vem algo incerto, labiríntico, obscuro, e que do ventre que dói poderá nascer alguma coisa que não pareça humana em O Amante Duplo. Uma vida, é certo, será expelida, como a de um alienígena ou um monstro.

Em um filme sobre um irmão rejeitado, também sobre o conflito de irmãos, essa vida estranha que brota do ventre, que perfura a carne, será a representação perfeita do outro que renasce para ocupar seu lugar de direito. Da delicada Chloé vem o outro que não nasceu porque foi devorado por ela quando ambos dividiam o ventre da mãe.

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As camadas são representadas por reflexos. Espelhos surgem a todo momento. A moça multiplica-se, à medida que seu escolhido amante – depois namorado, depois futuro marido – ganha um irmão gêmeo. Dois homens diferentes sob a forma de um só: um deles é psiquiatra, o outro psicanalista, cada um em seu espaço, com suas manias, enquanto a protagonista – em visita a eles – busca a resposta para sua dor no ventre.

O primeiro é Paul, o segundo é Louis. Ambos são interpretados por Jérémie Renier. O primeiro usa óculos, tem o cabelo lançado à testa, apaixona-se pela menina que deveria tratar. Quebra a conduta ética que sua profissão exige, mas antes diz à mesma que não pode continuar com as sessões de terapia frente a frente, olho no olho.

De Paul ela retira um caso de amor, o sexo sem emoção tingido às sombras, nas noites em que encara seu gato ao mesmo tempo em que o amante deita-se sobre seu corpo. O olhar da protagonista diz muito sobre sua situação, seu íntimo: ao que parece, não sente prazer; ao que parece, aguarda o outro, o gêmeo que possa levá-la ao gozo, romper sua frigidez.

O outro, claro, é Louis, o gêmeo sedutor sem óculos, de cabelo ao alto, moderninho, que agarra a moça por trás e desliza uma das mãos – sem sensibilidade – à sua vagina, à cata de algo um pouco animal. Desenha-se o outro lado do homem que pode – e deve ser – o outro lado da menina: o duplo do amante, Louis, nada mais é que o seu duplo, irmã ou irmão que perdeu e que agora aflora em seu corpo, que no ventre bate à porta.

Talvez seja um irmão, o que explica a opção pelo cabelo curto (em uma sociedade que explora sinais para diferenciar seus gêneros). E, na contramão do sexo comportado que antes praticava com Paul, ela resolve assumir, na relação, papel ativo, usando um vibrador para satisfazer o mesmo amante, que por sinal se deixa levar.

Para matar o outro que tenta tomar seu lugar, irmão que carrega no ventre, Chloé precisa matar um de seus amantes. Um fornece-lhe a relação esperada, o outro o sexo selvagem, o inesperado. Sem surpresas, boa parte do filme de François Ozon, a partir do livro de Joyce Carol Oates, é a representação do que ocorre na mente da protagonista, seus delírios e desejos. Suas passagens pelas exposições de arte, no museu em que trabalha, resumem seus estados, como os pilares brancos que se metamorfoseiam em troncos de árvore.

O filme de Ozon, já se disse, tem algo de Gêmeos – Mórbida Semelhança, de Cronenberg, no qual as personagens entram em processo de fusão. Em O Amante Duplo, a protagonista interpretada pela bela Marine Vacth procura uma médica para tentar se curar das dores no ventre. Em sequência curiosa, a imagem de sua vagina funde-se à de seu olho, movimento entre a invasão e a expulsão, entre o interno e o externo.

Vacth é misteriosa, um pouco frágil, nunca dominadora em excesso. Dá mais pistas do que no filme que fez antes com Ozon, Jovem e Bela, no qual interpretava uma prostituta. Ela encara seu gato ou a projeção do gêmeo do companheiro enquanto faz sexo. Seu olhar penetrante reproduz medo, incerteza, espera: é a causadora e a vítima dessa intriga, menina atacada pela gêmea(o) que ainda carrega, que a segue, que não se reduz ao feto.

(L’amant double, François Ozon, 2017)

Nota: ★★★★☆

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Jovem e Bela, de François Ozon

Popeye, de Robert Altman

A personagem forte, de antebraços cheios, perde-se no universo frágil. É como um filme clássico, talvez pela necessidade do diretor, Robert Altman, de retornar à forma que fez a glória de gigantes do cinema mudo. À forma que, em Popeye, funciona em partes, mais pela graça do que pelo andamento da trama, sempre a escapar.

É o que torna o filme difícil para o grande público: Altman, um autor, fica entre a indústria e suas necessidades e a forma de seu cinema, à qual ele, outra vez, é fiel. Não estranha a constatação, por consequência: Popeye é seu fracasso repartido, parte algo, parte outra coisa, e, no fim, talvez nada mais que diversão sem muita graça.

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Outra vez, é um filme sobre o grupo, mais do que sobre o indivíduo. O louro marinheiro Popeye é apenas um guia ao espectador, passagem àquela pequena vila perdida, presa às rochas, à beira do mar de Malta que pretende reproduzir os Estados Unidos dos negócios, de certa gente bondosa, de cobradores de impostos.

Às pedras prende-se o capitalismo que nem sempre dá as caras, vencido, é certo, pelo heroísmo do marinheiro que por ali aporta: será ele o responsável por lançar o cobrador ao oceano, para a alegria do povo que não aguenta mais pagar impostos. É ao povo, àquela gente vibrante, que o filme volta-se, e é nesse ponto que soa interessante.

A acidez comum a Altman não escapa nem mesmo a essa produção robusta, nascida para ser mais um arrasa-quarteirão do cinema americano. Dessa estranha fusão nasce um erro, mas um erro com assinatura, com autor. Não se nega: Altman não era o realizador ideal a tal empreitada. Com ela, faz o que pode, tenta ser fiel a si mesmo.

Vale notar como ele foge dos closes, dos planos fechados, sempre recuando, sempre em movimento, de um lado para o outro. Soa bagunçado. Os cenários caros, em toneladas de madeira, aparecem com dificuldade. Altman faz toda essa “riqueza” parecer um velho filme de estúdio em que as estruturas tombavam sobre Keaton ou Chaplin como folhas de papel.

Por mais curioso que pareça, é esse cinema que Altman desejava fazer. Não se pode culpar um autor por permanecer – aqui parcialmente, ressalva-se – fiel à sua forma. Os estúdios envolvidos na empreitada – da personagem famosa vinda das tiras em quadrinhos de E.C. Segar – desejavam o “filme certo” para o “público certo”. Naufragou.

Questões externas à parte, a obra salva-se pela alegria, pelo descomprometimento típico do cineasta, pela ideia de que tudo aquilo não pode fazer sentido – e de que tudo só atinge alguma graça porque não faz. É Altman lutando para ser o mesmo, sem o mesmo brilho, mas em avanço constante para retirar algo engraçado de seu Robin Williams como Popeye, em busca do pai, com o filho que acaba de encontrar.

Em um barco, à frente da cidade, está o gigante barbudo Brutus (Paul L. Smith), que grita para que seja cumprido o toque de recolher. É quando todos apagam as luzes. Esse homem malvado comanda a cidade e talvez seja, ao lado do pai de Popeye, o resquício do universo adulto que se impõe sobre as crianças que ocupam os cenários.

Não por acaso, a personagem-título procura pelo pai que perdeu nesse reino feito à infância. Termina nessa comunidade em que tudo ocorre, em que tudo se resolve, como em um desenho animado, e por ali se depara com a pouco agradável – como tantas personagens de Altman – Olivia Palito (Shelley Duvall). Nem romance nasce desse encontro.

O público – entre os desvios do realizador, entre um “filme de entretenimento” que não cumpre seu papel (ainda que produtos feitos apenas para tal finalidade invariavelmente não prestem) – tem razão em reclamar. Popeye é algo estranho cujos pontos altos vivem nos detalhes, não no todo. O cinema do grande diretor, nesse caso, mora nos detalhes.

(Idem, Robert Altman, 1980)

Nota: ★★★☆☆

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Robert Altman segundo Paul Thomas Anderson

Parece caseiro e feito à mão. Centenas já tentaram ser Robert Altman – ou Altmanescos – mas lhes falta um certo ingrediente: não são ele. Não existe ninguém como ele. Ele pode ser imitado e pode influenciar, mas é impossível de ser alcançado ou capturado – é imprevisível e o rio que segue é só dele. É obstinado e generoso, petulante e reconfortante, e tem o melhor sorriso que um diretor de cinema pode ter. Um homem de Kansas City que lutou em guerras, tatuou cachorros, escreveu músicas e socou produtores.

Não se pode chamar muitos diretores de artista. Mas Bob é. Diretores podem ser um grupo malévolo e intragável, mas quando surge o nome de Bob – todos param e mudam o tom. Todos respeitam o Bob. Todos se curvam em reverência.

Paul Thomas Anderson, cineasta, no prefácio do livro Altman on Altman (o prefácio está traduzido e incluso no catálogo da mostra As Muitas Vidas de Robert Altman, do qual o trecho acima foi retirado; pg. 30).

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