filme

O Primeiro Homem, de Damien Chazelle

As mulheres com frequência servem ao mesmo papel em filmes sobre astronautas: são damas que esperam em casa, que cuidam dos filhos, enquanto os maridos viajam entre a escuridão, por espaços inabitáveis. A mulher de Neil Armstrong em O Primeiro Homem, Janet, tem algo a mais: ao longo da empreitada, ganha voz e força fora do comum.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Isso se dá à medida que o homem fecha-se em sua obsessão, cada vez mais distante do “mundo real”: ele liga-se às máquinas, aos números, aos testes, à possibilidade de voar ao local em que nenhum outro chegou, a lua. À bola escura que enxerga da Terra, da grama verde de seu quintal, para ratificar o desejo de estar lá.

Louis, o primeiro, precisa de alguém que o faça olhar para trás, ver as partes humanas. O espectador também. Nesse sentido, a Janet de Claire Foy é essencial à história que, por algum milagre, escapa à pura exibição técnica, à parafernália, à mais outra investida no reino do som e da fúria a alguns milhares de quilômetros rumo ao infinito.

É preciso, de novo, sob o risco de parecer excessivo, retornar a 2001: Uma Odisseia no Espaço: se em 1968 Stanley Kubrick escapou ao vazio das máquinas com doses de filosofia, sem precisar recorrer às emoções dos homens (petrificados, à exceção do computador Hall 9000), Damien Chazelle precisa agora da mulher, para assim olhar para trás.

Para olhar para a família, para o lar que construiu com o homem de poucas palavras, para os filhos que pedem tudo e às vezes – crianças como são, por isso compreensíveis – produzem o indesejado, barulho, confusão. Coisas de família, do dia a dia, com a mulher ao centro.

Como indica o título, o homem tem sua importância, mas não é suficiente para fazer decolar esse produto cinematográfico classe A. O plano de voo de Chazelle depende tanto da personagem feminina quanto do drama que antecede a missão. Para Armstrong, chegar à Lua é a forma encontrada para enterrar a filha, sua vitória contra a morte.

É reconhecer, para além da grandeza expressa em imagens, a pequenez do homem no universo. Perto de uma cratera lunar ou de olho na Terra que, distante, surge pequena, o astronauta torna-se pouca coisa na imensidão escura. No entanto, é preciso voltar a uma colocação de Armstrong quando entrevistado pelos homens da Nasa: o verdadeiro tamanho do mundo, ou do espaço à frente, está sempre ligado ao ponto de vista.

O patrocínio americano à corrida lunar tinha fundo político. Era preciso derrotar a afronta soviética que levou o primeiro homem ao espaço. Para Armstrong, vivido por Ryan Gosling, tais questões pouco importam. O que está em jogo é sua luta – não sem o empurrão das máquinas – contra o que há de mais previsível em situações como essa: a morte.

(First Man, Damien Chazelle, 2018)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Gravidade, de Alfonso Cuarón

Morte em Veneza, de Luchino Visconti

A voz do amigo, voz interna que pode ser não mais que a consciência do próprio artista, diz-lhe que “não há impureza mais impura que a velhice”. Em Veneza, o artista em questão, Gustav von Aschenbach (Dirk Bogarde), vê-se cara a cara com a velhice, com o fim que parece ter chegado há poucos dias, os últimos grãos da ampulheta.

A metáfora encontrada em Morte em Veneza, de Luchino Visconti, é do próprio Aschenbach: as pessoas só enxergam o fim quando este está próximo demais, como o último fio da areia que escorre de um lado para outro do objeto feito justamente para medir o tempo. Em Veneza, o artista Aschenbach vê-se preso a esse estado, à espera da morte.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Provável que tenha ido a Veneza para morrer, que saiba desse inevitável desenlace – o que, em sua consciência, talvez signifique estar impedido de tentar o contrário. O destino está dado, a força divina, como seu sorriso, ao retornar para o hotel após saber que suas malas foram despachadas para a cidade errada, parece indicar. Aceita seu desfecho: deverá permanecer nessa cidade doente.

O filme existe nos domínios da personagem. O espectador vê tudo pelo seu olhar. Aschenbach está em praticamente todos os momentos. Ao mesmo tempo, esse homem recluso, pouco afeito à fala, não se entrega por completo. O espectador está preso a uma figura que acredita na arte como algo puro, elevado, emanação do espírito; a última viagem leva-lhe ao encontro da podridão, da cólera, enquanto se degrada.

A exemplo de outros filmes de Visconti, a beleza não sobrevive ao mundo verdadeiro, às experiências do sentido, como diz o amigo do artista. Suas personagens assistem à degradação da beleza ou da ordem, à transformação inevitável do tempo: em Sedução da Carne, o amante perfeito é fuzilado após se revelar corrupto; em O Leopardo, o príncipe assiste à transformação do sistema político e ao casamento de dois jovens sem muito a fazer, impotente, fechado em tristeza – como Aschenbach.

O compositor em passagem por Veneza encontra seu oposto, o belo jovem chamado Tadzio (Björn Andrésen). Na linha da adolescência, de seu início, cujas roupas de banho apertadas limitam-se a mostrar poucas curvas, ou nenhuma. Homem longe da formação, ainda assim distante das crianças que o acompanham, em brincadeiras pela praia.

Como o amigo de conversas e teorias sobre a arte (Mark Burns), talvez Tadzio exista apenas no interior do artista. Persiste como imagem do belo, intocada, busca da personagem central e que se personifica, anjo que convida o homem aos flertes, que lhe responde apenas com o olhar, a quem o mesmo se vê impedido de encostar.

Nem poderia. A relação carnal está descartada. A relação entre personagens funciona à base da observação constante, do entendimento entre seres que se encontram pela primeira vez, mas que parecem se conhecer há muito tempo. A vida toda espera por esse encontro, o olhar do morto – ou quase – à beleza, como se dela não pudesse escapar.

Os problemas de Aschenbach retornam. Lembranças cortam o presente. Ele teve uma vida em família, perdeu a filha, terminou vaiado durante um espetáculo. Chega ao momento em que, como diz o amigo, “homem e artista tornaram-se um só”, como se o homem fosse retrato de sua arte, e “chegaram juntos ao fundo do poço”.

Eis o drama do filme, e da personagem: a criação artística é inerente ao mundo externo, à “contaminação” desse espaço, como afirma o amigo de conversas. Em luta para negar essa contaminação, Aschenbach maquia-se, pinta o cabelo, persegue a beleza de Tadzio, termina consumido pela cólera e pelo tempo que corre.

A arte deve ser ambígua. Visconti reconhece, ainda que se deixe levar pela beleza em excesso, necessidade de “pintar quadros” em que nada está fora do lugar. Morte em Veneza começa na escuridão, com a chegada da personagem à cidade-título, e termina ao sol que reflete na água do mar, luz que atinge em cheio o homem combalido. De seu ponto, o corpo do menino insinua, longe, entre a imensidão de brilho, a imagem final.

(Morte a Venezia, Luchino Visconti, 1971)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Dez filmes com personagens autodestrutivas

O Sacrifício do Cervo Sagrado, de Yorgos Lanthimos

O invasor mostra tranquilidade. Aos poucos, está no centro da família. Incômodo, fala sobre morte como algo natural. Enfurece o público ao dar certezas sobre o que vem pela frente, contra os adultos que mostram alguma surpresa. Tem uma aura ao mesmo tempo angelical, ao mesmo tempo demoníaca. Como alguém de outro mundo.

Suas certezas colidem com as dúvidas dessa mesma família em O Sacrifício do Cervo Sagrado: com as do médico, o pai que fala pouco, o cardiologista; com as da mãe loura de cabelos cacheados, que mais tarde resolve investigar a relação do marido com o menino que aparece; com as dos filhos, que perdem os movimentos das pernas.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

O recém-chegado chama-se Martin (Barry Keoghan). É o que há de mais misterioso e forte no filme de Yorgos Lanthimos. Está nos lugares inesperados, parece sincero demais, aos poucos começa a incomodar. Logo o público descobre uma ligação entre ele e o cardiologista, Steven (Colin Farrell), envolvendo a morte do pai do garoto.

Palavras soam estranhas, automáticas, na boca dessas personagens: comportam-se não raro como seres sem vida. O universo de Lanthimos é feito de estranheza, de seres aparentemente ingênuos tragados a situações obscuras, violência, espaços fechados – como se pode conferir em seus filmes anteriores, a começar pelo denso Dente Canino.

Pois em O Sacrifício ele retorna à família e sua possível desintegração. É Martin quem traz as más notícias, ou a capacidade de levar àquele círculo aparentemente perfeito uma maldição: segundo ele, o pai terá de matar um dos membros da própria família para que o restante sobreviva. O contrário pode representar o fim de todos.

Os humanos e adultos, de problemas e pecados revelados, tentam resistir. A saída, chegam a aventar, seria matar o garoto. Por outro lado, não é simples como parece: o anjo do mal feito à aparência pura traz apenas uma solução, na possível contato entre real e religioso, palpável e inexplicável, no terreno da intromissão.

É sobre isso que Lanthimos debruça-se, com roteiro coescrito por Efthymis Filippou: a invasão que explode na tela logo na primeira imagem, quando se vê um coração batendo durante a cirurgia. A vida pulsa, automática, sem que se veja o humano, seu portador. O guardião dos sentimentos, que tanto os representa, em estado bruto.

A obra prefere os órgãos, a pele, o desejo carnal, os caminhos que indicam a civilização apodrecida sob o manto da bela família em sua grande casa, reino de espaços brancos e limpos, cômodos espaçosos. A câmera, mais de uma vez, coloca-se à determinada altura em que vigia ou registra, sem se intrometer por completo.

O pai perde a cabeça quando os filhos não conseguem mais andar, quando a medicina não tem respostas – nem cura – àquela suposta maldição. A mãe, interpretada por Nicole Kidman, tenta descobrir mais sobre os erros do marido, sobre o novo e estranho garoto que se infiltra em sua casa. Como antes, enxerga apenas o indecifrável, restando pouco mais que dor, que relações carnais, ainda que não se duvide de seu amor pelos filhos.

(The Killing of a Sacred Deer, Yorgos Lanthimos, 2017)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
O Lagosta, de Yorgos Lanthimos

Um Domingo Maravilhoso, de Akira Kurosawa

Em um domingo qualquer, detalhes pouco a pouco ganham espaço: primeiro a bituca de cigarro, depois as estruturas da cidade, as folhas, os objetos sob a chuva. Ajudam a sentir e a entender o mundo ao redor.

A trilha do casal protagonista depende tanto desses detalhes quanto de seus sentimentos e emoções. As partes do espaço tornam o meio mais vivo, real, ao mesmo tempo tentam quebrar a estrutura do romance, da vida a dois, como parte inseparável do problema. A mecânica e a parte sólida da cidade, suas formas, objetos, contra as personagens.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Um Domingo Maravilhoso, por sinal, é sobre um casal contra a cidade, contra a miséria, contra tudo o que insiste em apartá-los. Os pequenos sinais desse mesmo mundo são lembranças inescapáveis, às vezes pequenas, em rota de colisão. Os amantes seguem em frente, sobrevivem à tormenta entre idas e vindas, corridas sob a chuva.

Da bituca à bituca, do início ao fim, o detalhe retorna, incomoda, para tomar do chão (e fumar) ou esmagar (e ser esquecido). Akira Kurosawa sacode o espectador com cortes rápidos, ao mesmo tempo que as personagens tentam sobreviver à pressão dos outros, à do mundo. São obrigadas a viver por ali com o pouco que têm.

A história corre em um dia, um domingo que deveria ser como qualquer outro. O rapaz, Yuzo (Isao Numasaki), aguarda a chegada de sua esposa, Masako (Chieko Nakakita). Em tempos de crise financeira, eles são levados a viver em casas diferentes e afastadas. O domingo é o dia do reencontro, para passear pela cidade grande.

Dia perfeito para, à cata de algo, o problema aparecer. Neste caso, a pobreza, a miséria, como indica, de cara, o rapaz de olho na bituca de cigarro. O olhar de Yuzo ao chão deixa clara a sua situação; em seguida, ao impedir que fume o cigarro do asfalto, Masako evidencia ali seu principal papel: é a mulher que ajudará o homem a sair do buraco.

Pelas ruas, ele lamenta a falta de dinheiro. Ainda no início, veem-se no interior de uma casa de madeira à venda, feita em linha de produção, espaço aberto à visita. Por alguns instantes, ela tenta simular – e sentir – a felicidade de estar no lar de ambos; ele reluta a aceitar, fica de fora, tem problemas para embarcar nos sonhos que ela deseja sonhar.

A bela casa é uma propaganda distante. Resta a ambos outro quarto longe dali, em uma pensão nada agradável. Desistem. Outra vez à rua, o casal tenta se reerguer, segue em altos e baixos, tenta assistir a um concerto, mas não consegue comprar o ingresso mais barato. A chuva que vai e volta ajuda a compor o incômodo que se vive nessas horas.

Kurosawa oferece ao público, depois, a imaginação das personagens, ou outra forma de fuga. Em um teatro de arena, sozinhos, homem e mulher imaginam a música que não ouviram no concerto, de Schubert. Ela entrega-lhe a batuta. O homem conduz a música imaginária de olho no vento que carrega as folhas de um lado para outro do palco.

Ao perceber o delírio, e que talvez a interpretação do companheiro só poderá levá-lo a mais sofrimento, Masako vai ao palco e encara o público – o do cinema, para além do vazio do teatro. Pede aplausos para o marido, para a experiência dividida apenas com ela e com o espectador. Para Kurosawa, é a única forma de aplacar a dor das personagens pobres do pós-guerra: a arte é a último ítem possível à felicidade dos amantes.

O olhar à câmera é também a forma de trazer o espectador para dentro do drama de contornos sociais, da miséria na qual as personagens encontram-se, ponto em que transbordam sentimentos ao público do cinema – agora entre o vento e um teatro vazio, no qual todos são espectadores. Os amantes erguem-se; refeitos, seguem em frente.

(Subarashiki nichiyôbi, Akira Kurosawa, 1947)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Cão Danado, de Akira Kurosawa
A Saga do Judô – Partes 1 e 2, de Akira Kurosawa