crítica de cinema

A Saga do Judô – Partes 1 e 2, de Akira Kurosawa

Os homens, cercados por outros, fazem da luta quase uma dança. De um lado para outro do espaço, despejam em cada olhar, em cada pequeno gesto, o que não se espera de um filme como tal: seu diretor, Akira Kurosawa, compreende que a essência dessa luta não está nunca na violência, ou no seu resultado. Está no que fica ao meio.

E nesse ponto é possível ver o homem que, menos feito à ofegância, faz-se na verdade de sensibilidade, da matéria rara a obras desse tipo. A essa forma das duas partes de A Saga do Judô, suas primeiras experiências como diretor, Kurosawa retornaria em outros filmes, em décadas de trabalho.

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O homem nunca perde a fragilidade, a possibilidade de ser tocado, de ser verdadeiro. E poucos momentos representam isso tão bem quanto a famosa batalha da chuva, o clímax da obra-prima Os Sete Samurais. A água, mais que purificadora, deixa ver o contorno errático dos corpos, a sujeira, a miséria em que se encontram todos os lutadores.

Dos mitos o diretor pede alguma distância. Em A Saga do Judô, o público acompanha o homem de carne, de gesto bondoso, o lutador que deseja ser lutador sem nunca perder o que antecede essa escolha: é sempre alguém com alguma dúvida, algum sentimento, que chega a fraquejar antes de uma disputa, quando enfrenta o pai da mulher amada.

O lutador destemido terá de se envergar, ora ou outra, aos sentimentos. É da natureza desse filme de dúvida, de tombos, cujas ruas, no início das duas partes, de 1943 e 1945, levam dois jovens à descoberta da violência. Nos dois casos, esses jovens encontram o mestre, ou a inspiração: o controle, a certeza, a paciência daqueles que são desafiados.

Luta vencida, claro. O protagonista, Sanshiro Sugata (Susumu Fujita), será o jovem em busca da luta no início da primeira parte, e o lutador formado ao longo da segunda. O arco é representativo: se antes o desafio era encontrar o equilíbrio, depois a personagem terá de viver com ele, sob as marcas do Japão atacado pelos sinais do mundo ocidental.

A primeira parte é o primeiro filme do mestre Kurosawa. A segunda, seu terceiro. Entre eles, o diretor realizou A Mais Bela. Será, como aponta Jean Tulard em seu Dicionário de Cinema, “o mais ocidental dos cineastas de seu país”. A marca acompanharia Kurosawa para sempre – talvez por colocar o Japão no mapa do cinema após Rashomon, talvez por apresentar uma forma que serviria à perfeição às refilmagens internacionais de suas obras.

As duas partes de A Saga do Judô não levam à luta, como parece indicar o título. Recorrem ao homem, sobretudo àquilo que ultrapassa o confronto, o que dá sentido ao protagonista e, ao mesmo tempo, o que o traga à inevitável tristeza. Não são filmes de entusiasmo, de glórias, o que talvez espelhe o Japão daquele momento, em guerra.

No início da segunda parte, Sugata vence, na rua, um marinheiro americano. Depois será convidado a enfrentar um boxeador. O herói não compreende a luta como entretenimento, como é nos Estados Unidos. É uma questão profunda, de equilíbrio, que representa o homem formado, material do qual são feitas algumas grandes personagens. O recado de Kurosawa está dado: a luta ocidental aposta no show.

O boxe será feito de cortes rápidos, de gritos do público, enquanto Sugata observa a reação daqueles que assistem, enquanto espera alguma reação do lutador grudado à lona, nocauteado. Em seguida, um lutador japonês de jiu-jitsu enfrenta um boxeador americano. O protagonista observa com alguma distância o que, do alto, não funciona, não tem, a ele, finalidade alguma, sem forma, sem arte: duas lutas que não combinam.

Ou duas culturas. O mesmo Sugata é visto à frente da porta da embaixada americana, sob duas bandeiras do país oponente. Levemente flexionadas, as portas dão a impressão de tragar o protagonista, como se uma cultura estivesse próxima de triturar a outra. É Sugata, e não o outro japonês no ringue, a verdadeira vítima desse confronto.

Tenta resistir ao show que, mais tarde, terá de aceitar. Nas duas partes de A Saga do Judô, Kurosawa compõe a trajetória de um homem que luta a luta que não deseja, que ama a mulher que não consegue tocar, que carrega uma estranha culpa que o leva a afagar o mesmo oponente que derrubou – no ringue, no campo ou na neve. Homem feito de humanidade, figura rara em tempos de cinismo.

(Sugata Sanshirô, Akira Kurosawa, 1943)
(Zoku Sugata Sanshirô, Akira Kurosawa, 1945)

Notas:
Parte 1:
★★★★☆
Parte 2: ★★★★☆

Veja também:
Cão Danado, de Akira Kurosawa

As personagens enjauladas de Luca Guadagnino

As mulheres de Tilda Swinton vivem situações opostas em Um Sonho de Amor e Um Mergulho no Passado: enquanto a primeira foi moldada à forma da mãe pacata, obediente, e apenas depois resolve se libertar, a outra passou da vida desregrada feita de festas e drogas ao relacionamento estável com um homem mais novo.

A primeira não é mais que uma mãe, personagem de roupas caras e rosto fechado, figura chique, em um casarão que abre ao público no inverno e depois, com sua mudança, com seu movimento à liberdade por meio da relação adúltera com um rapaz mais novo, um chef de cozinha, muda para o verão. O segundo mantém-se, à exceção das lembranças, sempre na mesma estação quente, em local isolado, à beira da piscina.

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Somados a Me Chame pelo Seu Nome, esses filmes Luca Guadagnino encontram na oposição entre estações do ano um dos pontos para explicar a mudança das personagens, o deslocamento à liberdade ou ao seu oposto. São mulheres ou homens enjaulados, mais ou menos, confrontados por outras pessoas, amantes ou não, que vivem de outra forma.

Tais amantes, em novos ou velhos tempos, convidam a escapar da jaula, ao terreno desconhecido, ao passo arriscado. À Emma (Swinton) de Um Sonho de Amor, o mundo em questão passa por mudanças: a venda do negócio da família, a filha revelada homossexual, o amante jovem que inesperadamente corta seu caminho.

À pop star de Um Mergulho no Passado, o paraíso em que vive os dias retratados, na Itália seca e paradisíaca à beira-mar, não dá conta de afugentar as lembranças, de lançá-la apenas ao novo, ou àquele momento – à base do sexo na piscina e do relaxamento. Chega ao local o velho amante, pequeno demônio agitado encarnado por Ralph Fiennes.

O paraíso é então colocado de cabeça para baixo. Com o homem vem também a filha, a ninfeta de olhar indecifrável, a qual parece sempre debochar – ou manter segura distância – daqueles seres que viveram muito e cujas histórias – a música, a tentativa de suicídio – pouco a pouco ganham espaço. Não querem enfrentá-las, ainda que nada possam fazer.

A famosa Marianne Lane, protagonista de Um Mergulho no Passado, passou por uma cirurgia e perdeu a voz. Comunica-se por sussurros ou pelo olhar. Em sua condição, a da mulher que se recusa a viver como antes, a ausência da voz dá ideia maior das linhas de sua jaula: sem a fala, passa a impressão de estar presa a si mesma, a explodir.

Em Me Chame pelo Seu Nome, chega-se à situação mais curiosa e curiosamente a que menos depende de arroubos dramáticos. Nesse belo filme, Guadagnino prefere tom menor, o amor fincado em detalhes, a relação dissolvida no medo do avanço, depois no avanço estranho e sem jeito. Constrói um encontro entre opostos e seus mistérios.

O protagonista é Elio (Timothée Chalamet). Sua jaula é evidente, mesmo que não pareça estar preso. O que o segura não é a família ou a dúvida sobre a sexualidade: ele sabe de suas liberdades, e sabe que pode desejar meninos e meninas sem que se veja em dúvida. Sua jaula é feita pelo desconhecimento do outro, no ponto em que é colocado pelo outro – o homem mais velho com quem se relaciona e de quem toma certa distância.

Sua prisão consiste na posição de observador, a do jovem obrigado – na intimidade dividida, nos toques ao próprio corpo que, para Guadagnino, representam momentos de sensibilidade extrema – a se virar como pode para penetrar o espaço do outro. Esse amor de verão é estranho, faz-se de opostos: o adolescente raquítico contra o louro alto e de músculos salientes, o belo que invade o cotidiano do primeiro e deixa flertes no ar.

A fuga da protagonista de Um Sonho de Amor, no encerramento, contrasta a solidão e o isolamento do menino que, em Me Chame pelo Seu Nome, descobriu o amor por outro homem. A primeira termina ao sol, o segundo fecha-se no inverno, com neve do lado de fora, de olho nas chamas da lareira. Nem sempre é possível escapar da prisão em que correm os sentimentos, ainda que, dela, as personagens nunca saem indiferentes.

Foto: Um Mergulho no Passado

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Me Chame pelo Seu Nome, de Luca Guadagnino

Se o novo casal movimenta-se, em momentos, como se brincasse, é porque tal relação termina com alguma desconfiança, algum impedimento: tanto o mais novo quanto o mais velho têm seus motivos para não avançar. Brincam, riem, dão voltas, dançam ou fazem sexo com outras mulheres – um pouco para se evitarem.

Primeiro, em Me Chame pelo Seu Nome, vê-se o menino que brinca, na fase quente da adolescência, ao subir nas costas do homem que visita sua casa, ou na maneira como tenta a todo o momento se aproximar, descobrir o outro, como a criança que admira o adulto estranho, novidade de férias na bela casa de seus pais.

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Depois, o outro, o visitante, homem formado, louro, alto, belo, perfeitinho demais – algo como o boneco Ken, parceiro da Barbie. Natural que chame a atenção não apenas do garoto, mas das meninas que circundam: destoa dos magricelas e pequenos, uma bela estátua a emergir do oceano ou fincada em algum templo de cidades históricas.

O menino fornece o real, algo penetrável, o olhar abobalhado que só muda no encerramento, no último quadro, quando o inverno bate à porta: o olhar, então, retém o mundo adulto, rebate na lareira para retornar à mesma personagem, agora um homem. Descobriu um pouco do que é ser adulto no verão, em tórrida paixão pelo visitante.

Me Chame pelo Seu Nome trabalha de novo com os opostos. São personagens aparentemente distantes em tudo. O jogo é conhecido, o espaço também. Passa-se nos anos 80, ainda sob as formas do universo analógico, dos bilhetes de papel, da alegria dos círculos de jovens à grama ou mesmo nos bailes regados aos hits dançantes daquele momento.

Pelo olhar curioso do garoto, pelo toque como algo não calculado (a massagem no menino, o abraço por trás como brincadeira), Luca Guadagnino move-se no terreno da espera, do cálculo, da concisão. Sabe-se tudo, ou quase, com muito pouco: o menino não se sente culpado, não tem medo dos impulsos. Quer avançar e não sabe como. Sua espera fornece a tônica dessa história que não se desvia do alvo senão às aparências.

Pois é aí que reside a grandeza do filme: nada escapa ao essencial, à história de amor, ainda que as figuras – no drama destilado sempre com cuidado e naturalidade por Guadagnino, com total domínio da narrativa – lutem para desviar. Fala, antes, da natureza da qual não se escapa. E apenas isso dá conta do obstáculo que o filme impõe.

O conflito inicia e se encerra nesse obstáculo: como avançar sem conhecer o outro, sem, no fundo, conhecer o mesmo sexo que se explora pelo toque, sozinho? A resposta é dada pela troca dos nomes que os amantes propõem: um chamará o outro pelo seu nome, não porque precisam ocultar algo, mas porque passam a ser o outro, a senti-lo, a vivê-lo.

Um filme que exige paciência não por ser lento. Exige que o público entenda as nuances da relação forjada ao estranhamento, ao medo de pisar no espaço errado, ou de parecer algo meramente carnal – ainda que a carne seja importante, ainda que o sexo revele-se libertador. Na sequência mais bela, o menino está “sujo” com o sumo do pêssego quando, após o avanço do amante a seu corpo, cai em lágrimas.

São momentos como esse que permitem a migração do desejo ao amor com tamanha naturalidade e fazem o filme funcionar à perfeição. O menino, menos equilibrado, precisa lidar com as inconstâncias, entre o sentimento e a carne, seguido por uma garota de cabelo armado com quem deixa ver sua virilidade, com quem o sexo é igualmente prazeroso.

Quer dizer, o problema não chega a ser a carne. É por ela canalizado. A carne fornece algo único, ainda assim: o jeito como a personagem central perde-se em suas investidas, ou como se encontra graças a elas. Interpretado por Timothée Chalamet, o menino Elio tem algo blasé, é em momentos arrogante, adolescente que se confessa pelo trançar das pernas, pelo silêncio do dia seguinte.

Em oposto, como o estudante que passa as férias na casa do garoto para estudar com seu pai, Armie Hammer nunca é bruto demais, nunca é sensível em excesso. Sua posição diz muito sobre amantes idealizados. Quando pensa e deixa ver seus receios, o público pouco a pouco sabe mais sobre o mesmo, e o amor entre ambos fica maior.

Guadagnino diz ser bertolucciano. Se não chega à agressividade (no bom sentido) do mestre italiano, ao menos esbarra em sua sensibilidade, na aparência do quadro improvisado. E o efeito sensível começa pelo roteiro, com a assinatura do consagrado cineasta James Ivory, responsável, nos anos 80, pelo tocante Maurice, a história de um homossexual na conservadora Inglaterra do início do século 20.

Diferente do britânico, Me Chame pelo Seu Nome dispensa a abordagem do preconceito e da inaceitação familiar. Algumas questões foram superadas. Reserva-se ao espaço dos sentimentos, à natureza que vez ou outra ocupa o quadro, ao pessegueiro ou à piscina entre pedras que os amantes espreitam enquanto fingem se evitar.

(Call Me by Your Name, Luca Guadagnino, 2017)

Nota: ★★★★☆

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Um Mergulho no Passado, de Luca Guadagnino

O paraíso a dois não demora a ser abalado: o telefone toca enquanto o casal divide momentos de intimidade, entre a lama, à frente de um lago. É o amigo, o pequeno demônio de épocas passadas: para a mulher, a lembrança de dias loucos; para o rapaz, namorado dela, a lembrança de uma dívida que ainda une esses homens.

Pois tal dívida é insinuada em uma discussão, mais tarde, quando ambos estão à beira da piscina. À noite, eles aproximam-se da tragédia à qual Um Mergulho no Passado não faz questão de apontar – diferente, por isso, da obra anterior em que se baseia, o filme A Piscina, de Jacques Deray, de tensão sexual e suspense evidentes.

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O diretor italiano Luca Guadagnino prefere o drama de pessoas que fingem se aturar durante os dias que passam nesse paraíso seco e belo de lagoas entre rochas e serpentes que em algum momento dão as caras. A chegada do outro pode ser resumida pela reclamação do rapaz, em tom de brincadeira, à sua companheira mais velha: com convidados na casa, eles não poderão andar despidos pelo local.

O visitante é o falador e agitado Harry Hawkes (Ralph Fiennes), dono de antigas histórias sobre os Rolling Stones e, sem se esforçar, a imagem do universo louco dos bastidores do mundo da música. Deste, por sinal, emerge a estrela sem voz, a diva apagada pelo silêncio, personagem da sempre competente Tilda Swinton, Marianne Lane.

Ao paraíso ela leva seu namorado mais novo, Paul De Smedt (Matthias Schoenaerts), que conheceu justamente por intermédio de Harry. Há, por isso, alguma dívida, alguma ligação, ranço, a dor de passar pelos braços de dois homens tão diferentes e ainda assim ligados. Para completar o jogo, Harry vem na companhia da filha, a bela Penelope (Dakota Johnson).

Pouco a pouco esses seres retornam às lembranças, remoem os sentimentos. Ao barbado e ainda atraente Harry, Marianne deixa aflorar o amor: ele é tudo o que ela foi um dia, no tempo em que se drogava na companhia de desconhecidos em festas privadas.

Paul, em oposição, é o recomeço em carne, o belo que um dia tentou se matar sem sucesso, cuja história, ao retornar à roda de amigos desse paraíso, expõe a impotência do moço como ponto incômodo. Alguém como Harry – com naturalidade à nudez, ao sexo, à carne que toma sem pedir licença, à maneira como dilacera um peixe em questão de instantes – termina por apresentar a Paul o que nunca poderá ser.

A piscina em que todos se lançam serve à transparência, não ao reflexo: todos, sem excesso, serão desnudados, inclusive a bela moça que flerta com Paul. Quando se veem juntos e sozinhos em lugar distante, terminam sob a cortina do cinema. Guadagnino opta por não revelar se eles tocaram-se, se fizeram sexo, o que resultou do encontro.

Um Sonho de Amor, trabalho anterior de Guadagnino, estava trancado em grandes casas, entre estações do ano, feito de gente artificial ligada às tradições. Era infinitamente mais ambicioso, de inclinações viscontianas nem sempre empolgantes. Um Mergulho no Passado mostra inegável evolução, um filme de instantes, de pele, sobre a dificuldade de lidar com o improviso que a vida exige, no qual a guinada à fita policial não se deixa prever senão pelas presenças de Deray e seu A Piscina nos créditos.

Na redoma, Marianne não pode gritar. Está contida. Molda-se quase sempre por expressões de dor ou felicidade, pelo desejo oculto de fugir outra vez – como faz, a certa altura, ao correr ao banheiro de um bar na companhia de Harry. Destinada a amar alguém que a leva aos piores caminhos, não menos sedutores, e a viver com um suicida fracassado.

(A Bigger Splash, Luca Guadagnino, 2015)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
A Piscina, de Jacques Deray

Um Sonho de Amor, de Luca Guadagnino

O aspecto viscontiano, em Um Sonho de Amor, deve-se à grande casa na qual as personagens iniciam e fecham suas trajetórias, da sustentação do ritual à quebra. Na grande casa, no início, vê-se a mãe montada, mulher russa integrada à cultura europeia, aqui a italiana sintetizada pela família poderosa. Parece estar presa. Finge bem.

Agarra-se tanto a esse papel – o da mãe forte, o da dondoca burguesa feita à porcelana – que assusta o espectador quando resolve mudar: sem muito explicação além do desejo atrofiado, da vontade de escapar, corre aos braços de um chef de cozinha amigo de seu filho. A mulher em questão, protagonista, é Emma (Tilda Swinton).

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Até certo ponto o filme não é sobre ela. Apenas a contém, abraça-a, faz dela a peça feita à medida, o que causa susto quando quebra: é um filme sobre a família tradicional que não pode escapar aos próprios ecos, à voz que fala para dentro, a começar pela do avô prestes a morrer e decidido a fazer viver sua linhagem e seus negócios.

O diretor Luca Guadagnino dá-se bem na construção das relações. São naturais. Não precisa, apesar dos contornos dinásticos, da opulência, fazer de seus seres figuras anormais. Ao contrário, a impressão é que são “gente como a gente”, pessoas que sofrem ao menor sinal de mudança, ao mesmo tempo dispostas a se transformar.

O erro de Guadagnino pode ser visto no que vem após a tentativa de transformação, nos efeitos dramáticos que a mudança acarreta. O melhor exemplo está nos instantes finais, na exaltação de Emma à fuga, no olhar à filha homossexual (Alba Rohrwacher), à contramão do olhar do marido (Pippo Delbono), o da manutenção.

Alguns querem e aceitam as transformações, outros não. À mesa, no jantar do início, em tempo de neve do lado de fora, o avô (Gabriele Ferzetti) anuncia os sucessores. Aspira à conservação e sabe que seu tempo de vida é curto. Acredita que os demais, ovelhas obedientes, deverão seguí-lo. Meses depois, contudo, a fábrica da família é vendida.

O filho mais velho, sucessor direto, representante dos tempos que precisam mudar “para serem os mesmos”, não aceitará a venda. Tampouco o relacionamento da mãe com outro homem, alguém mais jovem, seu futuro sócio. Edoardo (Flavio Parenti), como os tradicionais, foi feito ao inverno, à conservação, ao calor da grande casa e à forma do jantar com pouco luz, entre o brilho da prataria.

O novo amor da mãe vem com o verão. E escapa à grande casa. Ela, nas horas ou instantes em que passa com o amante, muda de roupa, de forma, age com naturalidade: não deixa ver mais a mulher feita aos bons modos da grande casa, a dama que recebe seus convidados. Pena que as mudanças, na tela, são truncadas, com edição e fusão de imagens desagradáveis, sem a mesma naturalidade que se dispensa aos diálogos.

Swinton é uma grande atriz. Consegue estar dos dois lados, mudando de um ao outro rapidamente; consegue ser a mulher à frente da família, a dama de espírito jovem que corre para os braços de outro, e pode ser vista rindo aos cantos, como uma criança após algum gesto de indisciplina em seu cotidiano, o que só a mesma sabe.

No sexo, a montagem paralela expõe ora o corpo, ora a natureza. A mensagem é clara, e se opõe ao sentido do casarão sob luz baixa e som abafado, com pessoas bem vestidas e sua impecável disposição de peças: não é possível resistir às mudanças e ao desejo de liberdade. Em suma, à natureza das coisas. Por consequência, a família é fendida.

(Io sono l’amore, Luca Guadagnino, 2009)

Nota: ★★★☆☆

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Oito bons filmes sobre famílias e sociedades alternativas