Crítica

As Boas Maneiras, de Marco Dutra e Juliana Rojas

A lenda do lobisomem – monstro da cidade pequena que devora belas mulheres, que leva alguns tiros e se refugia no mato, de olhos estourados de brilho – retorna em As Boas Maneiras, da dupla Marco Dutra e Juliana Rojas. Lobisomem à brasileira, bom dizer, que termina na cidade grande, entre prédios de vidro, próximo da ponte estaiada que corta a metrópole, ambiente que destoa do Brasil antigo.

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O social está sempre presente no cinema em questão. O fantasma – mas não era lobisomem? – atinge o espectador ao impor o real, como se da ficção, ainda que por momentos, fosse preciso escapar. Nem o lobisomem nem qualquer monstro livra o público do verdadeiro fantasma, não necessariamente um vilão: a nação pobre e suas contradições.

A protagonista é Clara (Isabél Zuaa), mulher negra de pouca fala que começa a trabalhar no apartamento da típica dondoca da classe alta, bela menina grávida cuja moradia mescla sinais do novo e do velho Brasil: expõe-se ali, nos primeiros instantes, no olhar que mistura deslumbramento e medo, uma das chaves para entender o filme.

A cabeça do gado empalhada explica muito, a exemplo da mobília de aspecto antigo. Chocam-se com vidros imponentes, com paredes claras, altas, a forma quadriculada. A lareira eletrônica é o jeito de se retornar, pelo falso, ao aconchego da presença do fogo para se aquecer, um entre outros itens chiques por aqui.

Clara torna-se criada de Ana (Marjorie Estiano). Por motivos diferentes, ambas estão sozinhas. Por motivos curiosos, possíveis, terminam juntas, em relação de amor que funciona às escuras, principalmente quando Ana anda pela casa, sonâmbula, e revela o monstro que carrega dentro de si: ela está grávida de um lobisomem.

A menina branca talvez não seja tão rica. Talvez não pague suas contas. Talvez seja mais um dos falsos ricos que se revestem de aparente poder e se revelam pelos detalhes, pelo gosto pelo brega, pela ligação com os sinais da velha terra, a de bois e vacas, a do campo que ainda tentam fazer viver no seio cosmopolita.

Mas o filme não se volta a esses seres com julgamentos fáceis ou preconceito. Ao contrário, As Boas Maneiras funciona como representação de um certo Brasil selvagem que resiste na grande cidade, nas relações de classe que se impõem, no drama dos criados obrigados a conviver com os monstros de seus patrões – sob o sinal das “boas maneiras”.

O título remete à obediência, justamente o que não se pode esperar do lobisomem, do monstro que toma forma no corpo do homem, aqui no do menino, e que ataca simplesmente para matar a fome. O menino, ele próprio confessa, prefere comer à noite. É o filho lobisomem da menina rica, depois criado por Clara, a criada obrigada a fugir.

O filme não deixa ver ironias com facilidade, prefere quase sempre o terror. Ora o terror explícito, de gênero, ora o terror social, o mesmo que dá as caras em outros filmes brasileiros recentes, sob o vulto de supostos fantasmas que retornam para cobrar seus patrões. Quase sempre são negros pobres em outra face da escravização, a da falsa civilidade que tranca criados no fundo de grandes casas ou apartamentos duplex.

O monstro não poderia ser outra coisa senão uma forma de revolta, o que explica o último quadro. Criatura fruto de mãe solteira, que não deveria ter nascido porque a mesma deveria ter abortado, o que justifica a mudança para a cidade grande. Criatura, sobretudo, fruto da “relação proibida” entre criada e patroa, também uma relação homossexual.

O título não engana. Ao contrário, explica. Ou ironiza, joga questões, já que de boas maneiras essas personagens sempre tentam viver. O lobisomem brasileiro, neste caso, não remete à comédia ou ao absurdo dos contistas do interior, mas à tragédia de duas nações que vivem em uma só. A criatura nasce desse choque, desse improvável contato.

(Idem, Marco Dutra e Juliana Rojas, 2017)

Nota: ★★★★☆

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A Fonte da Donzela, de Ingmar Bergman

O estupro seguido de assassinato choca o espectador. Impossível esquecer o rosto da menina, a bela Birgitta Pettersson, enquanto olha ao algoz, enquanto escorre sangue por sua face, depois de ser golpeada. Ela não tinha motivos para duvidar das maldades até então: era apenas uma menina pura que seguia para a igreja, em dia de sol.

Sua morte será um teste ao espectador quando são cometidos outros crimes em A Fonte da Donzela. Nas situações que se seguem, seu pai ficará frente a frente com os assassinos. Por sinal, encontrará os criminosos antes mesmo de encontrar o corpo da filha, pela floresta. Os responsáveis aparecem em sua propriedade por acaso, ganham abrigo.

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Ingmar Bergman mostra como os preceitos cristãos sucumbem ao desejo de vingança, à violência como saída, ao “olho por olho, dente por dente”. O pai não consegue se controlar. Ainda pensa, sofre sem fazer algo, sem dizer. Investe contra uma árvore no alto de um morro e, por instantes, Bergman oferece apenas ele, em plano geral, tentando, com força e fúria, derrubar a mesma árvore, ao menos incliná-la, retirar suas folhas.

Sob o olhar de Bergman, os crimes seguintes serão tão cruéis quanto o primeiro. Há entre as vítimas uma criança, além de dois adultos. São três irmãos. Na manhã seguinte, quando o pai da menina ataca os culpados, subitamente eles parecem mais humanos. O efeito é estranho: no momento da morte, frágeis, tentam escapar da casa fechada.

O pai vingador, interpretado por Max von Sydow, converte-se agora no algoz, aos olhos da mulher, a mais religiosa das personagens. Tomada igualmente pela dor da perda, ela deseja que se faça a vingança. Bergman leva primeiro à realidade; o extraordinário vem depois.

Ao encontrarem o corpo da menina na mata, sua família e moradores das redondezas assistem a um milagre: do espaço em que estava seu corpo jorra água em abundância, surge uma fonte à qual se lança uma das personagens, uma mulher grávida (Gunnel Lindblom), a típica impura vista com desconfiança por todos ao redor.

O gesto de Bergman, a partir do roteiro de Ulla Isaksson, tem efeito semelhante ao de Carl Theodor Dreyer no encerramento de A Palavra: o milagre, nessas histórias, é o ponto de rompimento com o materialismo, com os movimentos até então explicáveis, atos medidos pela razão ou, como é o caso de A Fonte da Donzela, pela inevitável selvageria.

Ambos os filmes confinam o espectador nas relações do grupo, de poucas pessoas, entre famílias, ambientes em que todos se conhecem. Há os aceitos, os adaptados; há os que se despregam, que ousam confrontar os outros. Em Bergman, a mulher solteira e grávida, que crê nos deuses nórdicos, não no cristianismo; em Dreyer, o filho que diz ser Jesus Cristo. Convivem entre todos, ainda que se separem o tempo todo.

Nesses filmes, a prisão é iminente. São sufocantes, estreitam a visão, levam o público a mergulhar em universos que não escondem certo esquematismo, nos quais não há coincidências. Em A Fonte da Donzela, os criminosos não poderiam ir a outro lugar senão à casa da família da vítima. Naquela noite, o pai não poderia negar o abrigo, o espaço na mesa, a cama com palha à criança com frio.

E à mesma criança um dos moradores da grande casa conta a história que resume o todo, parábola sobre o confinamento, sobre a chegada da morte. Fala da fumaça trêmula presa à casa, como se “estivesse com medo”, enquanto “só precisa do ar, e lá fora tem todo o espaço para si”. Mas ela, a fumaça, não sabe. Fica por ali.

Na manhã seguinte, quando o pai volta-se aos criminosos, um deles tenta escapar pelo vão do teto, como a tal fumaça trêmula. Tarde demais. Por algum motivo inexplicável, essas pessoas são conduzidas sempre ao mesmo caminho, à sombra da morte, ao passo que o espectador – ainda que relute, que recorra à consciência – deverá desejar a vingança perpetrada pelo pai, contra os homens que atacaram sua menina não muito longe dali.

(Jungfrukällan, Ingmar Bergman, 1960)

Nota: ★★★★☆

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A puta e a santa

Baseado em Fatos Reais, de Roman Polanski

A primeira aproximação de Elle à escritora é como a de qualquer outro fã, repleta de admiração. Gesto de quem está de fora, a quem as palavras da autora servem para ver a si mesmo. É comum os outros falarem um pouco de si quando se aproximam para pedir um autógrafo: confessam, emocionados, o quanto aquele livro foi importante para suas vidas.

Nesse sentido, e ainda no desenrolar de Baseado em Fatos Reais, a realidade é mesclada à ficção. Os leitores procuram a si próprios na obra dos outros, pedaços de suas vidas, possíveis peças que evoquem um paralelo, ou um espelho. O filme de Roman Polanski brinca com a questão porque trata exatamente do oposto: uma escritora bem sucedida que não consegue – não quer – olhar para si mesma, e que por isso recorre a Elle.

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Quem é Elle, ou melhor, quem é Ela? A mulher projetada pela escritora, alguém que durante o filme inteiro só existe para a escritora, a amiga imaginária ou o duplo feito pela mesma escritora para tentar apontar o que ela, em seu labirinto, não consegue ver. Após a primeira aproximação, Elle estará cada vez mais presente, cada vez mais penetrada.

A autora em questão é Delphine Dayrieux (Emmanuelle Seigner), cujo livro mais recente, o qual autografa na abertura, leva à história de sua mãe, que teria cometido suicídio. Um livro que talvez tenha sido feito com as tintas de sua própria vida, ou com as de sua família. Mas não é certo que essa suposta “confissão”, em obra, seja real.

Vale pensar: as obras que se pretendem pessoais são sempre sinceras, reais, ou seriam, em muitos casos, projeções confortáveis das versões nas quais é melhor acreditar? Nesse caso, a história da mãe custa algumas dores de cabeça a Delphine, que passa a receber cartas que a acusam de usar a própria mãe para ganhar dinheiro.

Por outro lado, é válido pensar que todo escritor tem como matéria primeira o que lhe cerca, a realidade imposta, aquilo com o que ele lida em seu dia a dia – ou, como pode ser o caso de Delphine, exatamente aquilo com o que ele não deseja lidar. E é por isso que o filme, a partir do livro de Delphine de Vigan, com roteiro de Polanski e Olivier Assayas, revela-se tão interessante: a história de uma escritora que não deseja olhar a si mesma.

Para chegar a si, precisa de um espelho invertido, a mulher mais nova, propositalmente mais bela, a escritora que escreve sem ser reconhecida, a ghost writer. É, ao perdão da tradução, espécie de fantasma que precisa para escrever sua própria vida, o que nega, do que foge, e o que resulta, claro, em livro, este sim verdadeiro: Baseado em Fatos Reais.

Elle, interpretada por Eva Green, permite ser severa após invadir o apartamento – e a vida – da outra. De bondosa fã, a invasora transforma-se em figura destrutiva, que conta sua história para a escritora e a municia de elementos que servirão ao próximo livro. O jogo de espelhos é claro. Delphine sofre com Elle e precisa de Elle. O isolamento de ambas, ou de uma só, em uma casa de campo, é o caminho natural. É o local perfeito ao escritor enquanto busca as linhas de seu próximo trabalho, ambiente certo para a trama de suspense que se tece.

Delphine precisa de sua personagem, de seu duplo, Elle, para encarar o mundo externo: para saber o que suas obras são de verdade, para saber o que os outros dizem sobre ela nas redes sociais e, sobretudo, para entender que sua história – baseada em fatos reais – na verdade depende de um mergulho nada confortável por labirintos que colocam o escritor frente à sua própria fragilidade, envenenado ou atropelado.

Estranho universo em que é necessário um escritor fantasma para se entender a vida em questão, a figura fechada em seu mundo de ficção. De olhos arregalados, à caricatura que Eva Green faz bem, Elle é a terceira pessoa, o recurso mais fácil para se contar a própria história.

(D’après une histoire vraie, Roman Polanski, 2017)

Nota: ★★★☆☆

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A Terra Treme, de Luchino Visconti

Os mais velhos tentam convencer os mais novos de que a revolta não compensa. À medida que essa tentativa avança pela conversa do almoço, o revoltoso que acabou de sair da prisão descobre o contrário: o que dizem os parentes, seus antepassados que voltavam do mar sem reclamar, que apenas trabalhavam, não faz mais sentido.

O revoltoso de olhos fundos, magro, que se nega a comer tamanha a raiva que sente ao tomar ciência da massa de manobra que se tornou, é Ntoni (Antonio Arcidiacono). Em A Terra Treme, observá-lo é entender um pouco da fúria jovem que recairia sobre o cinema nas décadas seguintes: tem ali um pouco do mistério de um Marlon Brando, do efeito explosivo de um James Dean – sem as “linhas perfeitas” e as cores de Hollywood.

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À frente da massa, Luchino Visconti faz um dos mais importantes filmes políticos de todos os tempos. Neorrealista, ainda antes do mesmo diretor adotar as “linhas perfeitas” das representações da aristocracia italiana, das salas luxuosas, dos quadros pintados e personagens afeminadas. Antes, um cinema real, direto, bruto.

A medida da revolta está na representação do levante dos pescadores pobres contra os comerciantes que os exploram: o momento em que o mesmo Ntoni, antes de ser preso, lança a balança dos patrões ao oceano. Chega de pesar, chega de estipular medidas! É o que parece gritar ao se destacar da massa e correr, sobre as pedras, ao mar.

O mar é destino certo, inescapável: há ali algo saído das grandes tragédias, ainda que lute para se inscrever – ao menos aqui – no campo do real, com pessoas verdadeiras dessa comunidade siciliana. Os homens lançam-se ao mar, as mulheres aguardam o retorno.

Uma das meninas que se prende à janela, que espera esse retorno, não tem romantismo. Não tem motivos para acreditar. É feita de imperfeições, de realismo, dona de um olhar abertamente falso porque talvez tenha sido levada a crer que podia interpretar: é dela, ainda no início, a frase que define a obra de Visconti: “o mar é amargo”.

Nada escapa ao controle do diretor de origem aristocrática, comunista, homossexual: é ao homem que retorna e, ainda mais, ao plano-sequência. Ao quadro, sobretudo, em que essa massa espalha-se, como se essa composição fosse uma resposta ao cinema soviético, calcado na montagem, outras vezes levado a registrar o povo e suas agruras.

Se em Eisenstein a montagem reforça o poder da massa pela junção e posição dos quadros, em Visconti o quadro permite ver a junção e a composição do que não precisa escapar a seus limites, como nas famosas sequências em que os homens vendem porções de peixes retiradas do oceano na noite anterior. O plano-sequência vai de um ponto a outro, de um canto a outro, enquanto os homens gritam, desentendem-se.

Um desses planos-sequência, talvez o mais belo, segue um menino de branco entre os homens. Não uma personagem central, talvez nem tão importante: é apenas o garoto que circula entre os pescadores, que costura o embate, essa aparente cacofonia – até correr ao fundo, ao passo que a câmera sobe e registra a distância, o menino rumo ao nada.

Os homens poderosos que compram o peixe zombam da intenção dos jovens. Um deles recorre à afirmação do verme à pedra: “um dia faço um buraco em você”. Nessa tragédia, a distância da pedra é pequena demais. Uma metáfora fácil para um grande filme. Ainda assim, fica-se com o verme, sua mutação, não com a pedra imutável.

O narrador (o próprio Visconti) olha para os outros, para a ação, para o movimento, não ao interior das personagens. O filme é duro, sem recorrer à psicologia desses seres que não querem ser mais do que parecem, figuras reais, pescadores que, sem firulas, retiram o peixe para vender, depois retornam à vida simples da região árida.

“O tema de Visconti é a decadência do capitalismo diante do processo revolucionário”, afirma Glauber Rocha. Seu Ntoni é quem desponta com consciência de transformação, quem convoca os outros a implodir as regras, para que comecem a trabalhar com barco próprio, sem depender dos patrões. Glauber, mais tarde, faria de Barravento algo próximo de A Terra Treme: o embate de um rapaz contra a alienação de um grupo de pescadores.

Bem ou mal, alienada ou nem tanto, a comunidade ainda não havia se deixado corromper pela vida na cidade, ainda estava, de certa forma, bloqueada. Rocco e Seus Irmãos, por isso, pode ser visto como o capítulo seguinte dessa história universal, a da relação do homem com seu meio, sua terra, da qual nasce a verdadeira tragédia do filme.

(La terra trema, Luchino Visconti, 1948)

Nota: ★★★★★

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Rocco e Seus Irmãos, de Luchino Visconti

A Trama, de Laurent Cantet

Estimulados a criar uma história de ficção, os adolescentes não conseguem escapar à realidade – à deles, à do país em que vivem e, ainda mais, à do momento, com os ataques terroristas promovidos por radicais islâmicos. A roda jovem, por sinal, levanta discussões que passam do diálogo saudável a ânimos exaltados, à quase violência.

O diretor Laurent Cantet outra vez aposta no diálogo. Ou em sua dificuldade, nas palavras que se cruzam e nem sempre deixam entender. Fica a impressão – como em alguns momentos importantes de A Trama – do contraditório. Aos jovens em cena, nem sempre é possível sustentar uma ideia sem parecer um pouco radical.

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O jovem protagonista não será explicado com facilidade. À maioria dos espectadores, é provável que Antoine (Matthieu Lucci) seja presa fácil ao discurso político nacionalista que visa defender territórios e expulsar “estrangeiros” – mesmo quando este conceito, em um país tão miscigenado como a França, escape da definição fácil.

Cantet lança Antoine primeiro ao olhar do público, depois ao da professora à frente desses encontros entre jovens, em uma oficina voltada à criação literária. Ela, escritora, chama-se Olivia Dejazet (Marina Foïs), tem alguns livros no currículo e chama a atenção de Antoine. Ambos tentam se descobrir, quebrar a barreira que os separa.

Os adolescentes constroem juntos o que pode ser uma trama de assassinato, o início de um livro. Surgem sugestões: um corpo em um iate de luxo, um assassino cruel, árabes e franceses, o sentimento de rancor que migra da realidade em que vivem àquela suposta ficção que ganha tons políticos para além das voltas policialescas.

As ideias de Antoine assustam: o jovem sugere que o assassino deve ser árabe, a vítima um típico francês. Poderia, claro. Mas, no caso do garoto, a escolha revela um sentimento de ódio, o que alguns atos, aos olhos de Olivia, só confirmam: os vídeos que posta em uma rede social, com amigos, com arma à mão, com o rosto sujo de lama.

Impressiona, em A Trama, o que cerca as personagens, todas as diferenças que dão espaço a uma curiosa semelhança: o desejo por contar histórias. O que mais confronta Olivia talvez seja a qualidade dos textos de Antoine, seus detalhes, a delicadeza apesar do conteúdo, como o sangue que indica pelas palavras, e que gera repulsa nos outros adolescentes.

Correm por ali os restos da história da cidade em que vivem, fincada em rochas, tocada pelo oceano. A história que retorna em filmes antigos, quando, em La Ciotat, a crise de desemprego levou muitos trabalhadores à desgraça – ao suicídio, ao alcoolismo, ao drama de não se ter nada, como recorda um homem que serve de guia pelo mesmo estaleiro.

Do que restou dele, ainda com suas estruturas, com sua torre que pode ser vista de longe pelos mesmos jovens inclinados a pensar o tempo em que vivem, não o tempo passado. A grandeza desse filme de Cantet reside justamente nesse conflito entre tempos, na nova direita que se projeta no espaço de resistência dos trabalhadores, de passado não tão distante.

Em qualquer caso, na ficção de diálogos ásperos ou nas antigas filmagens da vida à sombra do estaleiro, a realidade pulsa no cinema de Cantet. Parte dela, das relações possíveis mas nem sempre prováveis, o olhar da professora ao aluno, do aluno à professora. Da intelectual e escritora ao jovem que pode ser mais um entre tantos a se fundir às fileiras do extremismo que visa fechar barreiras, de discurso totalitário.

A atração dela pelo menino reserva-se à ideia que o mesmo parece emitir, pela constatação do mal que representa – tão perto, tão verdadeiro. Ele, por sua vez, vê-se atraído pela mulher formada, pelas palavras de seu livro, pela vida distante e confortável que projeta. Tentar invadir a realidade do outro, para ambas as personagens, pode ser traumático.

(L’atelier, Laurent Cantet, 2017)

Nota: ★★★★☆

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