Uma Cruz à Beira do Abismo, de Fred Zinnemann

A entrada em cena de Peter Finch confere, com alguma demora, sinais de um ser humano livre. Até esse momento, em Uma Cruz à Beira do Abismo, prevalece o movimento programado, a necessidade de silêncio, de se voltar para dentro, típica das freiras cobertas dos pés à cabeça, só a face à mostra. Entre elas, a protagonista de Audrey Hepburn.

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Ainda antes de ingressar na escola de formação, Gabrielle (Hepburn) deixa ver a tensão de quem guarda sentimentos, de quem não se resolveu adequadamente com o universo externo. Ela despede-se das irmãs e é levada pelo pai ao convento no qual outros rostos assustados dão o tom da nova vida de privações, pouca ação, rotina em claustro.

Em Finch encontramos o despojamento, as pessoas como são – nem tão robóticas ou programadas como as freiras, nem tão distantes e estranhamente realistas (mas desprovidas de alma, de proximidade) como os nativos africanos do Congo. Alguém que pode dizer o que pensa, que circunda o ambiente como se sempre estivesse por lá e dispensa frases de efeito ou banhos de inspiração, também de drama. Em suma, sem tensão.

É ele que promove o choque da protagonista com o mundo real, o que para a freira converte-se na paixão que o filme esconde. Ficamos então com os olhares de medo de Gabrielle, a essa altura irmã Luke, no hospital para europeus no Congo. Temos transpiração, tremulação, para além da armadura que lhe cobre, enquanto serve o médico que não precisa de figurinos, tampouco de um Deus para se casar. Dizem inclusive que é ateu.

E isso o filme de Fred Zinnemann não precisa confirmar em palavras, não é o mais importante. Ela compreende o que ele é e como pensa. Ele, idem. Ela resiste como pode – não apenas a ele, mas a todos – com sua fé, sua escolha não muito bem explicada, a missão de cuidar dos outros – a da enfermeira – sem dar a Deus a total e prometida obediência.

Quando Luke fica doente, o médico Fortunati (Finch) pede para analisá-la. Ela tem de mostrar parte das costas e do braço. O que deveria ser um simples momento entre médico e paciente converte-se em esforço descomunal, tensão, aparência de pecado. O médico conclui que ela tem tuberculose em fase inicial e pode ser tratada ali mesmo.

A vida da freira é cercada pela provação, pelo impedimento de se pôr para fora. Se em momentos permite que vejamos suas emoções, isso se deve ao impensável com o qual se depara em seu trabalho com enfermos e necessitados, sob o risco constante de se ver vítima do próprio orgulho – portanto pecadora. Culpa-se o tempo todo, diz-nos Zinnemann, a partir do roteiro de Robert Anderson, baseado no livro de Kathryn Hulme.

O filme é elegante, ponderado, seu drama não se detém apenas à personagem. A certa altura, Luke encontrará a guerra, evento que mobiliza a todos. A Igreja pede que viva como sempre se viveu, atrás dos muros – e ao som das bombas. Ela perde o pai, vítima do nazismo, e entende que é preciso fazer algo, que só a oração não basta.

Hepburn é perfeita para o papel, no qual pode ser fria sem ser deselegante. Pela face e pelo modo de se comportar, ou de se retrair, é a angelical e assexuada – portanto presa – sem um lugar no mundo. Não o suficientemente boa para Deus, não o suficientemente equilibrada para estar entre os outros – entre mortes, doenças, guerras, miséria – como Fortunati.

A cena final explica o tamanho de sua transformação ao nos permitir enxergar a profundidade do espaço externo pela abertura da porta. Em seguida, vemos sua possibilidade de escolha, dois caminhos para a mulher que deixa o claustro, dois lados da mesma rua. O momento joga com o alívio, em único e longo plano. Ela deixa ver os cabelos, a roupa é outra, o antigo figurino permanece do lado esquerdo da porta, do quadro. Somos, como ela, libertados. Bela lição de cinema em um filme quase todo morno, nunca desprezível.

(The Nun’s Story, Fred Zinnemann, 1959)

Nota: ★★★☆☆

SOBRE O AUTOR:
Rafael Amaral é crítico de cinema e jornalista (conheça seu trabalho)

Veja também:
O Mistério da Torre, de Charles Crichton

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