cinema espanhol

Verão 1993, de Carla Simón

A câmera avança à criança que caminha. Suas costas estão próximas, também os cachos. O fundo não é visto facilmente. Há pouca profundidade em Verão 1993, sobre uma menina que perde os pais, vítimas da aids, e, sem saber, carrega o mesmo vírus nesse filme tocante, realista, à base de movimentos e reações verdadeiras.

Para a felicidade do espectador, a criança é criança: sem enfeites, sem frases artificiais, sem aparente interpretação. A câmera está a seu serviço, não o oposto; há momentos em que se vale do registro, do olhar, o da menina real. À casa de campo em que é levada, a menina passa a viver com os tios e a prima, a nova família.

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Adaptar-se é o passo seguinte. Observar o novo mundo, a natureza, os muros artificiais, o sangue que sai do joelho e põe medo, a certa altura, na mãe de outra criança, na escola. O sangue é, ao mesmo tempo, sinal de perigo a alguns, sinal de rompimento, de descoberta a essa menina que se depara com o mundo bruto.

Mais tarde, com olhar magnético, ela observa o sacrifício do cordeiro, a maneira como os homens seguram o pescoço do animal até vazar todo sangue. O vermelho é mostrado, posto à cena para se entender do que trata a obra de Carla Simón: a criança fará descobertas sozinha, em silêncio, como se viu em outros grandes filmes da história, como os franceses Brinquedo Proibido e Os Incompreendidos, para ficar em dois exemplos.

Pelo verde que cerca sua nova casa, no campo, ela percorre uma trilha que leva ao buraco de uma árvore, no qual está uma santa. Por ali, espera pelos sinais da mãe morta. Sinais que não surgem, e nem poderiam. O filme é realista, feito do registro, à espera do milagre traduzido pelos menores sinais da infância – milagre nada impossível a essa fase da vida.

É o que resume um filme aparentemente sem conflitos: é da realidade desse pequeno ser curioso, atento às trovoadas, aos movimentos dos novos pais, com ciúme da nova irmã, que trata. Mais tarde, quando cansa de esperar para ir embora, resolve tomar a mochila e partir no meio da noite. Fracassa, claro, para retornar à mesma casa, prometendo tentar de novo – no espírito típico dessa infância de descobertas.

As crianças, entende Simón, como entendia François Truffaut, dispensam interpretações: são, sozinhas, sem esforços, feitas para a câmera. Retorna-se assim ao já citado milagre, à pequenez que dá vez a algo não raro assombroso, à vida que se expõe e à qual não se pede nada senão que se desloque, que observe, que espreite o real.

Não custa lembrar o olhar assustado, inesquecível, da pequena Ana Torrent em O Espírito da Colmeia ou Cria Corvos, grandes filmes espanhóis dos anos 70. O olhar ao fantasma, ao cinema de horror, o olhar que traduz o medo nos tempos de Franco. Na Espanha de Verão 1993, a expressão da menina em cena leva às décadas seguintes, à sombra da aids, ao mesmo tempo à descoberta do sangue, da dor, da ausência dos espíritos.

É contra o mundo real que a criança debate-se. Ao espectador cabe a proximidade, saber de sua doença sem que a mesma saiba. Frida (Laia Artigas) não tem consciência dos problemas. O espectador, por sua vez, assiste às conversas e reações dos adultos, tem acesso ao inesperado, a essa odisseia de momentos extraordinários, ainda assim contidos.

(Estiu 1993, Carla Simón, 2017)

Nota: ★★★☆☆

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Julieta, de Pedro Almodóvar

A divisão da personagem central, Julieta, leva a mulheres diferentes: primeiro à apaixonante Adriana Ugarte, mais tarde à culpada Emma Suárez. Antes de contar como perdeu a filha, a protagonista conta sua história, sobre perdas e paixões.

É a Julieta mais velha (Suárez), escondida em óculos quadrados, cabelo curto, batido, que retorna à história da própria vida: ela recai às páginas em branco de um caderno e passa a preenchê-las, em tom à beira da obsessão, cercado de mistério.

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Na juventude, o espectador tem Ugarte, bela, de cabelos curtos, a Julieta que o diretor Pedro Almodóvar faz apaixonante, a agarrar qualquer um. Sequer precisa explicar que está nos anos 80. Seus cabelos arrepiados denunciam o tempo, também a liberdade exalada pela moça que toma um trem, certa noite, e conhece um homem interessante.

É o pescador Xoan (Daniel Grao), futuro pai de sua filha. A conexão entre ambos é imediata. O homem é casado, mas sua mulher está em coma. O reencontro entre o novo casal ocorre no momento em que a outra morre. Passam então a viver juntos.

Em Julieta, quase todas as mortes dão espaço a união ou reencontros. A protagonista une-se ao futuro marido quando um homem estranho e sozinho suicida-se na linha do trem e, depois, com a morte da mulher do companheiro.

À frente, o pai de Julieta une-se à outra mulher, sua criada, quando a mãe da personagem-título aparenta estar próxima da morte, além de senil. Mais velha, a protagonista conhecerá outro homem (Darío Grandinetti) no momento da morte da amiga e artista plástica Ava (Inma Cuesta). Ainda depois, Julieta reencontrará a filha quando é informada da morte de seu neto, por carta, já nos instantes finais.

As reviravoltas oferecem contornos de melodrama. Almodóvar, contudo, faz um filme propositalmente frio – ainda que seja difícil conter as cores fortes de seu cinema, como a intensidade de suas personagens. O diretor luta contra si mesmo.

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A começar pelo apartamento da Julieta mais velha, com ares modernos, o vermelho da parede em confronto com os tons escuros de outros espaços. Ao relembrar a filha, a protagonista percebe que não adianta duelar com a memória: junta suas coisas e se muda a um velho apartamento do mesmo prédio em que vivia.

O tema central, portanto, é o confronto com o tempo – embalado pela culpa da personagem central e a tentativa de exorcizar o passado ao jogar nas páginas em branco sua própria vida. E nesse ponto a questão fica ainda mais curiosa: tudo chega ao espectador pelo ponto de vista de Julieta, por sua maneira de ver o próprio drama – às vezes o da mulher apaixonante, às vezes o da incompreendida e à frente culpada.

No encontro com Xoan durante sua viagem, a personagem vê um cervo, do lado de fora, correndo livremente entre a neve, próximo à linha do trem. E, nessa mesma viagem, há o estranho homem que se suicida e que dividia a cabine com Julieta.

De um lado o homem sem passado, cuja bagagem não tem nada além do vazio, que escolheu morrer; do outro o cervo livre e nada consciente do risco que corre ao estar ali, próximo ao grande veículo metálico. O filme é feito dessas estranhas aproximações.

Como nos outros trabalhos de Almodóvar, as cores perseguem. O vermelho do primeiro plano, na toalha, retorna para cobrir a Julieta de Ugarte e levar à Julieta de Suárez. Ainda que não pareçam, elas são a mesma mulher.

(Idem, Pedro Almodóvar, 2016)

Nota: ★★★★☆

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Uma leva recente de filmes sobre personagens enclausuradas gera desconforto e diferentes questionamentos. As obras da lista abaixo possuem seres estranhos, diferentes tipos, do médico conceituado ao paranóico linha dura. As vítimas, por sua vez, precisam se adaptar ao cárcere para sobreviver e, talvez, escapar. À lista.

Michael, de Markus Schleinzer

Garoto é aprisionado por um homem (Michael Fuith) que procura agir como seu responsável. Não raro o filme de Markus Schleinzer causa mal-estar, com sequências frias, algumas a provocar revolta. O algoz tem aqui sua rotina revelada, com as relações de trabalho e o retorno constante ao quarto onde está o menino. Antes de dirigir esse longa-metragem, Schleinzer foi diretor de elenco de Michael Haneke, famoso por filmes como Violência Gratuita.

michael

A Pele que Habito, de Pedro Almodóvar

O diretor espanhol inspira-se em obras antigas de horror, sobretudo em Os Olhos Sem Rosto, de Georges Franju. Antonio Banderas é um conceituado cirurgião plástico que tem a filha abusada por um rapaz. Em busca de vingança, ele aprisiona o jovem e passa a fazer experiências que incluem mudança de pele e sexo. O terreno é típico do diretor: incluir alguns exageros, cores explosivas e momentos delirantes. A bela Elena Anaya divide a cena com Banderas.

a pele que habito

Ex-Machina: Instinto Artificial, de Alex Garland

A grande casa e a natureza ao redor revelam um futuro sedutor. É para esse local de sonhos que o jovem Caleb (Domhnall Gleeson) é enviado, após passar em um concurso e ser convidado a dividir alguns dias com o gênio e dono de sua empresa, Nathan (Oscar Isaac). À relação entre eles é adicionada a figura feminina, a androide de nome sugestivo, Ava (Alicia Vikander). Essa inteligência artificial deseja ser livre, e será como todos ao redor: uma estrategista.

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O Quarto de Jack, de Lenny Abrahamson

O filme foi sensação na temporada do Oscar 2016 e saiu da premiação com a estatueta de melhor atriz para Brie Larson. Após viver aprisionada por seis anos em um pequeno quarto, Ma (Larson) cria planos para o pequeno filho escapar do local. Nascido ali, Jack (Jacob Tremblay) não conhece outro ambiente. Transcendê-lo significa imaginar. Ao passar ao outro lado, ele descobrirá as dificuldades de viver em universo concreto, não meramente imaginado.

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Rua Cloverfield, 10, de Dan Trachtenberg

Até certo ponto, o espectador não sabe se a clausura é fruto de paranoia ou se há algo perigoso – uma guerra química, alienígenas, uma doença mortal – do outro lado das paredes do abrigo. O filme de Trachtenberg repousa sob esse mistério, enquanto se acompanha cada novo lance pelo ponto de vista da protagonista, vivida pela bela Mary Elizabeth Winstead. Quem a mantém aprisionada é o estranho Howard (John Goodman), com suas regras e passado incerto.

rua cloverfield 10

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30 anos sem Luis Buñuel

Leia aqui um texto sobre a carreira do diretor. Abaixo, seus dez melhores filmes segundo este blogueiro.

10) Simon do Deserto (1965)

simon do deserto

9) Ensaio de um Crime (1955)

ensaio de um crime

8) Viridiana (1961)

viridiana

7) Esse Obscuro Objeto de Desejo (1977)

esse obscuro objeto de desejo

6) O Alucinado (1953)

alucinado

5) A Bela da Tarde (1967)

bela da tarde

4) O Discreto Charme da Burguesia (1972)

o discreto charme da burguesia

3) Os Esquecidos (1950)

os esquecidos

2) Um Cão Andaluz (1928)

um cão andaluz

1) O Anjo Exterminador (1962)

o anjo exterminador