Malmkrog, de Cristi Puiu

O único embate que importa é o das ideias. No decorrer de Malmkrog, sobressai o respeito ao outro, a educação; é possível ouvir o som dos talheres, das taças de cristal e, a nós, são dados alguns sinais furtivos que correm ao fundo e ao lado. Em um momento especialmente curioso, vemos uma criança passar por um corredor, distante, enquanto alguém (talvez sua mãe) impede-a de adentrar o espaço dos patrões, da burguesia.

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Ela não chega a interromper as personagens centrais de Malmkrog, que refletem o tempo todo, em diálogos longos, sobre a morte, a cultura (europeia), Deus e a moral. A reboque de questões ainda pertinentes aos nossos tempos, o diretor Cristi Puiu, pelo livro de Vladimir Solovyov, mostra-nos como alguns detalhes são igualmente fundamentais.

Para começar, os discretos movimentos de câmera, a distância das personagens, a impressão de que o elenco e o texto ditam o ritmo, nunca o contrário. Mas a câmera não é passiva: há situações em que ela volta à prataria, oferece o fundo, as janelas, os móveis, e inclusive passa pelos criados da casa, que pouco falam, profissionais como são.

O excesso de cavalheirismo entre os atores desses diálogos, entre pessoas que não explicam de onde vieram e por que estão ali, ajuda Puiu na instituição de um tempo morto, de uma época passada, para tão longe do frio e da própria civilização que não se vê senão através da grande casa, câmara de eco satisfatória e ao mesmo tempo inútil.

A inteligência é sedutora. As questões postas vão fundo, inquietam, e nunca ultrapassam aqueles mesmos cômodos de poucas distrações. Os burgueses russos falam para dentro, nem nos criados suas vozes ressoam. É como se entre eles e os outros não houvesse qualquer sintonia para além dos papéis que interpretam – e que os separam, naturalmente.

Se nos atingem e nos pregam à tela por mais de três horas, sem nunca ser um exercício cansativo, isso não se deve apenas ao conteúdo da fala. Toda a ambientação e os já citados detalhes, somados ao elenco, fazem-nos enxergar um grupo social atrás das respostas às suas aflições, à miséria, à violência, à maldade intrínseca à natureza humana.

Na primeira das longas conversas do grupo, uma das mulheres (Diana Sakalauskaité) compara o papel que os militares tiveram no passado ao que assumiram depois. Antes gloriosa, a guerra passou a ser condenada. O que permeia esses questionamentos é a forma como se encara a morte, se esta, quando aplicada ao povo inimigo, durante uma guerra, pode ser equiparada à morte de um indivíduo vítima de um crime isolado.

No tempo em que o filme é ambientado, final do século 19, os militares parecem ter perdido o antigo status do qual gozavam. A mesma mulher observa que todos os santos da igreja russa ou são monges ou militares. A provisão da vida e da morte andam lado a lado.

Os embates pretendem resolver a seguinte questão: se Deus existe, por que existe o mal? Essa é a mais constante, ainda que diluída nas inúmeras conversas do filme. A criação de um Deus não seria a maneira encontrada para derrotar o mal maior que é a morte? O mal sempre se sobrepõe ao bem, diz um dos homens (Frédéric Schulz-Richard).

E se o progresso, no fim das contas, produz a morte, ele deve ser questionado e perde sua validade, argumenta a mesma personagem. Pela morte, o progresso não teria feito nada. “A morte iguala tudo. Diante dela, o egoísmo e o altruísmo são absurdos”, afirma, ao que o outro (Ugo Broussot) rebate com o argumento de que a consciência sobre a certeza da morte não impediu o homem de ser altruísta. Praticar o bem, portanto, é algo natural.

Em alguns momentos ouvimos sons externos, uma música vinda de outros cômodos. Em uma passagem curiosa, tiros são dados no interior da casa e não sabemos a origem. De repente, e por apenas alguns instantes, o confronto físico toma o local. A quebra da ordem – também na cena em que uma mulher desmaia – não é capaz de encerrar as conversas, essa eterna necessidade de fazer perguntas, buscar respostas e, claro, debater.

(Idem, Cristi Puiu, 2020)

Nota: ★★★★☆

SOBRE O AUTOR:
Rafael Amaral é crítico de cinema e jornalista (conheça seu trabalho)

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