Franco

Eu Sou Curiosa – Amarelo e Azul, de Vilgot Sjöman

Nas duas partes, Amarelo e Azul, uma voz pede que o público compre a obra. É como uma propaganda que clama pela venda da peça, no fim da primeira e no começo da segunda. Essa propaganda interior explica que há dois filmes, cada qual representado por uma cor da bandeira sueca, o que ajuda a entender as intenções do diretor Vilgot Sjöman.

Sua pequena heroína vai às ruas para descobrir a sociedade em que vive. Interpela os outros com perguntas sobre assuntos importantes: política, sexo e religião. Os outros, tantos e qualquer um, não têm nome, ou quase nunca têm. O filme busca um retrato dessa sociedade – a partir de filmes com as cores de um país, a partir de obras irmãs.

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As partes completam-se. Como se fossem o mesmo filme, como se o diretor construísse a segunda a partir de fragmentos não utilizados da primeira, ou a primeira como uma antecipação necessária da vida dessa menina, para assim se entender a segunda e esse projeto cujo nome fornece outro indicativo das intenções do realizador: Eu Sou Curiosa.

Pois a menina que pergunta, que descobre o mundo ao redor, vive de maneira livre. Molda-se ao momento, contra o Estado, contra a Igreja, contra o capitalismo, contra os Estados Unidos, contra Franco. Ativista, ela vive livremente. Vive com o pai em um apartamento. No quarto, registra o que faz e guarda em caixas de papelão, como os amantes que já teve, por exemplo. Na parede, a imagem de Franco assiste às suas investidas sexuais.

Realidade e ficção confundem-se. Há um filme dentro de outro, ou mais: as tantas camadas não deixam o espectador saber exatamente o que é ensaiado e o que é real. A menina, fora ou dentro, verdadeira ou não, é Lena Nyman. Bela, um pouco corpulenta, em momentos infantilizada, em outros adulta o suficiente para confrontar seus entrevistados.

É ela que vai às ruas, aos bares, às estações para perguntar questões importantes aos cidadãos de seu país. Unidos, os filmes pretendem ser um retrato de uma nação, em certo período, a partir dos olhos da menina: espaço em que o cinema pede passagem para registrar a vida e embaralhar realidade e representação, para expor fragmentos e depois juntá-los em dois filmes indissociáveis. São filmes sobre a Suécia.

A questão universal, por outro lado, está ali: é também um retrato da juventude dos anos 60, feita à tela pela menina de boina de lã, com sua bicicleta pelas estradas enquanto leva cantadas dos motoristas, menina que busca o refúgio da meditação, que na cidade empunha placas contra tudo e contra todos, e que se liberta pelo sexo, com mais de um homem.

Um deles, amigo de seu pai, termina em seu quarto, em sua cama. Torna-se o número 24, pois outros já passaram por ali. A moça gosta de sexo em locais públicos, ou apenas o faz com a mesma desenvoltura que reserva aos espaços privados. O filme, à época, provocou escândalo, foi proibido e teve partes cortadas em diferentes países.

Mesmo com seu conteúdo político, com carga contestatória, sobra sempre para o sexo. É o tabu maior, o horror dos censores. Dessa menina curiosa, à cama, restam sequências extraordinárias, de liberdade vista poucas vezes na tela: sexo no chão de uma casa afastada, de tamanho realismo que não deixa ver o amor, ou o sexo na cama enquanto o corpo da mesma menina tomba para fora do espaço, à medida que o amante continua.

“A Suécia é uma sociedade de classes?”, ela pergunta ao longo das duas partes. Uma mulher diz que uma sociedade que vende bebida cara é uma ditadura. Outros dizem que não há classes, que reina a igualdade. À frente, homens e mulheres confessam seus salários, todos diferentes. Reina nas respostas o sonambulismo de um grupo social.

Por consequência, os filmes de Sjöman podem ser vistos como um golpe à alienação. A começar pela protagonista, é sobre descobrir, sobre ver os outros, perguntar, saber mais, conjunto de recortes que não se explicam de maneira linear. As cores confundem-se, mesclam-se, à medida que a ingenuidade e a libertinagem vivem em um só ser.

O sexo é, no contexto, uma atitude política, libertação contra uma sociedade que põe às claras a sua cegueira. Em sequência esclarecedora, a protagonista faz perguntas a um rapaz católico e conservador, para quem toda a verdade emana da Bíblia. As perguntas dela nem sempre encontram respostas, sem que precise apelar.

O diretor é também uma personagem do filme. É ele mesmo, um cineasta, um intruso ao lado de sua equipe, para lembrar o público que um filme está sendo feito – algo intoxicado pelas novas ondas da mesma década. Lembra igualmente que tudo é real, a história de uma menina que tenta entender o universo que a cerca, debochada e destemida.

(Jag är nyfiken – en film i gult, Vilgot Sjöman, 1967)
(Jag är nyfiken – en film i blått, Vilgot Sjöman, 1968)

Notas:
Eu Sou Curiosa – Amarelo:
★★★★☆
Eu Sou Curiosa – Azul: ★★★★☆

Veja também:
A Fonte da Donzela, de Ingmar Bergman

Pecados Antigos, Longas Sombras, de Alberto Rodríguez

Folhetos com ofertas de emprego atraem belas meninas do interior da Espanha. É o tempo do fim da ditadura de Franco, com a promessa – e a propaganda – de um novo mundo. Criminosos utilizam esse momento de passagem tão bem quanto as autoridades: cada lado tem seus motivos para fazer os outros acreditarem nas mudanças.

Os dois policiais de Pecados Antigos, Longas Sombras enfrentam os sinais do mundo passado, da Espanha à sombra de Franco, enquanto se insinuam mudanças.

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Ao chegarem ao quarto do hotel da pequena cidade à qual são enviados para investigar o desaparecimento de duas meninas, um deles, Pedro (Raúl Arévalo), logo trata de guardar o crucifixo que estava pregado na parede, com fotos de ditadores.

O amigo preocupa-se menos com esse fundo político, com os fantasmas do passado: ele próprio, aparentemente perto da morte, já esteve entre os homens de Franco. Juan (Javier Gutiérrez) é falador, mulherengo, e quer apenas levar o trabalho à frente.

Não será fácil: cada nova pista sobre as meninas faz esbarrar em outro caminho. Por ali, política, tradições, selvageria, tortura, tudo leva a pensar na dificuldade de fazer perguntas, de tentar entender a origem dos problemas.

Os policiais – cada um a representar um momento da Espanha, e ambos no mesmo ponto, na transformação do país – buscam respostas. Pedro tem mais a perder. Juan viveu muito, tem uma história palpável, também problemática.

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As meninas, conhecidas por serem “fáceis”, teriam sido seduzidas pela promessa de trabalhar em uma cidade grande e deixar o interior, sob os efeitos do sonho e da ideia de liberdade. Outras meninas – ou todas – também sonham com a possibilidade de escapar.

Por isso, o filme de Alberto Rodríguez não oferece apenas uma crítica ao passado, à mão pesada do regime franquista: o que se impõe é a ilusão com o futuro. E disso resulta um filme poderoso a partir de uma investigação. Ao mesmo tempo, os protagonistas relutam em olhar à questão com mais profundidade.

Às aparências, envolve a caçada a um serial killer, que estaria matando as jovens após abusar delas. Mas o caso vai além: os policiais descobrem que há homens poderosos aliciando as meninas com a ajuda de um rapaz da cidade.

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O espectador terá dificuldade para fechar a jogo, encaixar todas as peças. Ao deixar a trama suspensa, Rodríguez coloca o público na cegueira desses tempos, no começo dos anos 80. O ambiente visto do alto, dos céus, confere a ideia de que é possível enxergar o cenário com clareza, compreender o tabuleiro. Ledo engano.

O mapa que se desenha é outro, íntimo, menor – o do homem que urina sangue e vê a própria morte, o dos animais que explodem na tela, como patos, peixes dilacerados e cervos mortos, ou o da chuva que impede a visão e esconde o assassino.

Aqui, melhor é não saber. Nessa nova democracia, como branda um líder, a verdade precisa ser exposta, é necessário justiça. Será que tudo poderá ser colocado às claras, como em uma verdadeira democracia? Por questões como essa, o filme é mais político que policial, com fantasmas que ainda persistem.

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Pegando Fogo, de John Wells