A Longa Noite de Loucuras, de Mauro Bolognini

Dois rapazes têm algo para vender. O conteúdo, no porta-malas do carro, não tem importância. Para despistar a polícia, eles levam ao lado duas prostitutas. As mulheres serão, por algum momento, suas companheiras e eles, rapazes supostamente enamorados.

As aparências não param em pé. Eles – como todas as personagens de A Longa Noite de Loucuras – não têm alma. São filhos dos novos prédios, dos terrenos baldios nos quais deitam para fazer sexo ou encarar a lua, da margem que se desloca, em determinadas noites, ao centro nervoso de Roma para se divertir e se sentir parte da sociedade.

O roteiro de Pier Paolo Pasolini, baseado em sua própria obra, examina o movimento desse grupo que se deixa levar pelas facilidades do dinheiro, e que só se sente possível – ou, no caso individual, alguém – quando possui notas largas em seus paletós amarrotados. Pasolini e o diretor Mauro Bolognini examinam os efeitos da compulsão materialista.

O primeiro quadro é o último. O dinheiro não vale nada, está amassado, jogado em um córrego, entre sujeira. Descobriremos as horas que antecedem aquela nota suja e como ela chegou até ali. Não há um protagonista; há um grupo de jovens que vive intensamente, à base de trambiques para se locupletar pela cidade grande.

Dois rapazes, Ruggeretto (Laurent Terzieff) e Scintillone (Jean-Claude Brialy), arrastam Anna (Elsa Martinelli) e Supplizia (Antonella Lualdi) para o carro. Compram suas companhias sem pagar – no momento em que ambas brigavam por causa de um cliente, em um dos terrenos vazios em frente ao ponto de prostituição.

Não se pede pela compreensão das personagens: logo algumas dão lugar a outras, logo quem era a peça à parte ocupa o centro, e os choques – por acaso – dão a essas figuras desalmadas alguns minutos de ilusão. Gritos com garçons, dinheiro jogado sobre o balcão, todo o sentimento de se ter poder nessa redoma de autofagia com fim dado.

O que sabemos sobre essas personagens baseia-se na ação: tomam mulheres, vendem armas, concordam em colocar atravessadores no centro da operação, invadem um funeral para tentar fazer negócios e, quando enfim conseguem o tão esperado dinheiro, são vítimas de um novo golpe. Enquanto tentam desfazer o nó, conhecem novos rapazes e, após alguma farra noturna e confusões, são levados à grande casa onde mora um deles.

A violência dá lugar ao desejo. Vemos os olhares trocados entre seis homens estirados em uma sala, sobre sofás e almofadas, de camisas abertas. A atração homoerótica é evidente. Para Pasolini, o desejo é imposto como natural, inevitável, move e sujeita as personagens a enxergarem o material que as constitui. Bolognini segue a ideia.

Pelo desejo podemos enxergá-las com clareza. Ao caminhar para um dos quartos da grande casa, Ruggeretto depara-se com uma bela moça dormindo. É Laura (Mylène Demongeot), que, ao toque do rapaz em suas costas, pensa se tratar do irmão. De passagem, Pasolini sugere o incesto; em seguida, quando se dá conta de que se trata de outro homem, a menina flerta e se entrega, sem explicar se é a filha da patroa ou a empregada.

Os papéis confundem-se e não importam tanto. Bolognini compreende a proposta pasoliniana de anulação da alma na sociedade de massa. Se há um gesto, em todo filme, que aponte à consciência do que são essas pessoas nesse meio, é o final, quando o dinheiro é jogado fora. A tarde e a noite passadas resumem-se a trocas, confrontos, correrias, à tentativa de se encontrar algo que, mesmo materializado no dinheiro, não se explica.

Eis uma mística e um vício próprios a essa sociedade de classes: suas vítimas desalmadas são peças que se rebelam, que querem a todo custo integrar uma engrenagem maior, e só podem contar com um lampejo de consciência perante pouco ou quase nada, quando já é tarde: a nota que sobra no fundo do bolso, que não levou a lugar algum.

Em um restaurante, Ruggeretto dança com a mulher que estava nos braços do amigo Scintillone, Rossana (Rosanna Schiaffino). O diálogo entre ambos diz muito. “Amanhã talvez tenhamos que dar cambalhotas para comer. Hoje vamos nos divertir. Deixe o amanhã aos cuidados do Senhor”, declara ela. “E muitas vezes sentiremos fome”, ele completa.

(La notte brava, Mauro Bolognini, 1959)

Nota: ★★★★☆

SOBRE O AUTOR:
Rafael Amaral é crítico de cinema e jornalista (conheça seu trabalho)

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Veja também:
Desajuste Social, de Pier Paolo Pasolini

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