cinema

Kubrick segundo Fellini

Kubrick é um grande cineasta e admiro muitíssimo a sua capacidade – guiado pelo sentido que ele tem da imagem, pelo seu grande senso visionário – de variar continuamente de gênero, permanecendo ele mesmo, de Spartacus à ficção científica, da guerra à comédia, ao grande romance inglês. Em comparação a ele, acho que tenho limites bem definidos.

Federico Fellini, cineasta italiano, em entrevista publicada no livro A Arte da Visão – Conversa com Goffredo Fofi e Gianni Volpi (Martins Fontes, pg. 49). Abaixo, Stanley Kubrick nas filmagens de Nascido para Matar.

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Ilha dos Cachorros, de Wes Anderson

Os homens em busca do progresso logo dão um jeito de expulsar os cães: não muito longe, em uma ilha, lançam os animais ao amontoado de lixo, radiação e outros seres indesejados. Não estranha, por isso, se Ilha dos Cachorros for compreendido como representação da dificuldade do homem em lidar com seus “animais” – sobretudo os internos.

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Os bichos em questão, em óbvia ironia, são pequenas partes que sobraram de um estado de humanidade – choram mais que os donos, surgem mais vivos e educados (apesar da forma autômata comum às personagens de Wes Anderson), conseguem se adaptar ao lixo sem que precisem recorrer ao canibalismo, além das amostras de fidelidade.

Claro que não se pode tomar o pouco que se vê dos homens – quase sempre escondidos em cargos de poder, atrás de máquinas ou a servir à tradução do japonês – como regra. Estão um pouco distantes, reflexos de uma sociedade aparentemente certinha, que encontra na gripe dos cães a desculpa para expurgar os bichos da cidade.

O mundo de Anderson é quadrado, mais lento que o normal. Sua comédia não oculta fatias de horror, e esta característica, de tão estranha, será assimilada como traço de um autor pouco interessado em fazer um filme apenas para crianças. Detalhes e pequenos diálogos valem mais que a trama vista do alto, a de oprimidos contra opressores.

Os cães não se esforçam para ser adorados e caem na graça do espectador. As personagens de Anderson têm dificuldades para se relacionar, vivem em uma apatia depois convertida em graça, na qual o humano esconde-se atrás de caricaturas plásticas, duras, sendo necessário pensar um pouco mais mesmo quando se parte ao óbvio.

Os cães falam. O garoto que invade a ilha, à procura de seu cão jogado no local, fala japonês. Os cães, por isso, são os guias, seres que não sabem tudo, mas o suficiente; um pouco mais adultos que o normal (ou apenas humanos), fingem seriedade, encaram a câmera com um ar até mesmo fatalista. Quando escorre a lágrima, ou se deixa ver uma cicatriz ou qualquer defeito, percebe-se que Anderson não quer fugir da tragicidade viva ao fundo.

A ilha é o futuro do homem. O cão, seu traço de humanidade. A ilha assemelha-se ao cenário de uma ficção científica distópica, ao passo que a cidade guarda aspectos da sociedade moderna, tecnológica, higienista, produto justamente dos organizados, trabalhadores e evoluídos. Não estranha, desse bolo, o surgimento do tecnocrata.

Entre os cães há os vira-latas e os de raça. Na ilha, todos se misturam sem perder um pouco de suas características. Entendem-se e, com o garoto recém-chegado, unem-se em uma aventura cheia de momentos adoráveis, para se crer, sempre, no lado bom dos animais. Com algum esforço, para se crer também no lado bom dos homens.

(Isle of Dogs, Wes Anderson, 2018)

Nota: ★★★☆☆

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Roma de Fellini

A invasão felliniana a Roma mistura passado e presente, faz a realidade parecer sonho. A intenção, claro, não é entregar a cidade verdadeira. Na reta final, quando o próprio Federico Fellini convida Anna Magnani para esta baila, dando a ela a representação da cidade, a grande atriz recusa. “Não confio em você, Federico. Tchau.”

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A afirmação é dada no momento em que Fellini tenta fazer uma pergunta. A atriz não quer falar com o diretor. Ele sugere que Magnani pode ser o resumo da metrópole, entre beleza e caos. Dez anos antes, ela foi uma musa passional, real e trágica na mesma cidade, a prostituta e mãe de Mamma Roma, de Pier Paolo Pasolini.

Os motivos de Fellini para elegê-la passam pelo filme todo: seria Magnani, nas palavras dele, uma Roma “vista como loba e vestal, aristocrática e indigente, uma palhaça triste”. A grande cidade que sobreviveu à queda de impérios, às guerras, é reproduzida aqui entre os anos 1930 e os 1970, com fascistas, prostitutas, padres, rapazes sedentos por sexo, dorminhocos de teatro, galeria debochada e graciosa das figuras locais.

A cidade pulsa sob as formas do diretor, em momentos perto do real, seja pela auto-estrada, pelo pedágio, pela corrida de motos, pelos hippies, ou mesmo pela equipe de cinema que entra, com ele, para ver a sujeira toda – e para entregar à metrópole os efeitos de um sonho, com direito a cavalo branco entre o engarrafamento infernal.

Filme episódico que nega o documentário sem deixar de apontar às estranhezas da realidade, no qual o próprio cineasta precisa aparecer para gritar ao absurdo dos tempos modernos, ao passo que remete ao passado. Homens e mulheres faladores que não mudaram tanto, pessoas que se unem pela bandeira, em um buraco anti-bombas, na guerra, para reforçar o quanto podem ser fortes, o quanto ainda acreditam em Mussolini.

No engarrafamento, nem passado nem presente. Como no fim, na Festa de Noantri, todos mesclam-se. Ou seria apenas o golpe da visão, da natureza que não deixa se localizar no tempo: pelos carros, contra a lama lançada ao vidro, de olho nas beiradas em que seres diferentes se insinuam à via, o sufoco é claro. Os ocupantes continuam ali, presos às máquinas, diferente do Guido que escapa delas, em sonho, no início de Oito e Meio.

No fundo de buracos cavados para construir o metrô, engenheiro, jornalistas e a equipe de cinema encontram afrescos de um tempo passado, obras de arte que não sobrevivem ao vento de fora. A perda é rápida, no primeiro contato com os homens: a arte apodrece, é apagada. O vento da era moderna é tóxico.

Entre tantas sequências interessantes, as aventuras pelos bordéis são insuperáveis. O primeiro, mais “mundano”, descomportado, tem mulheres exibicionistas, seios à mostra, provocando os clientes que se aglomeram por corredores apertados ou pela grade que os separam das damas. A aparência selvagem nunca descamba ao ato.

As mulheres dominam. Os visitantes – entre eles o jovem jornalista que foi a Roma descobrir algo, talvez o jovem Fellini rumo à cidade das ilusões e cuja realidade confunde-se com delírio – apenas observam. O cenário assemelha-se ao de um canil, ou matadouro, e os homens, silenciosos, nada podem contra o desfile de damas corpulentas.

A igreja não escapa à ótica de Fellini. Nem passado nem presente, de novo, no momento em que padres e outros líderes religiosos, aliados a uma princesa esquecida que tenta conservar a velha Itália, reúnem-se para um desfile de moda eclesiástica. Nem a Igreja escapa às frivolidades de um tempo, qualquer um, o espírito da moda.

De tudo ainda sobram o riso, a alegria dos bestiais, dos pequenos, dos ignorantes que Fellini não julga por completo, tampouco isenta da caricatura. Uma cidade sob a grande loba que, aos miúdos, vivíssimos, distribui seios, alimento que passa por décadas sem que se enxergue uma completa virada, a transição ao real.

(Roma, Federico Fellini, 1972)

Nota: ★★★★★

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Bastidores: Noites de Cabíria

Giulietta Masina, que interpretou a criatura passiva de A Estrada da Vida, transforma-se aqui numa lutadora, uma Quixote sempre pronta a enfrentar os moinhos de vento, e apesar de tudo com uma fé inquebrantável na vida e na felicidade.

Georges Sadoul, pesquisador, historiador e crítico de cinema, em verbete de seu Dicionário de Filmes (L&PM Editores; pg. 280). Abaixo, Masina (ao centro) durante as filmagens.

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