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As personagens enjauladas de Luca Guadagnino

As mulheres de Tilda Swinton vivem situações opostas em Um Sonho de Amor e Um Mergulho no Passado: enquanto a primeira foi moldada à forma da mãe pacata, obediente, e apenas depois resolve se libertar, a outra passou da vida desregrada feita de festas e drogas ao relacionamento estável com um homem mais novo.

A primeira não é mais que uma mãe, personagem de roupas caras e rosto fechado, figura chique, em um casarão que abre ao público no inverno e depois, com sua mudança, com seu movimento à liberdade por meio da relação adúltera com um rapaz mais novo, um chef de cozinha, muda para o verão. O segundo mantém-se, à exceção das lembranças, sempre na mesma estação quente, em local isolado, à beira da piscina.

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Somados a Me Chame pelo Seu Nome, esses filmes Luca Guadagnino encontram na oposição entre estações do ano um dos pontos para explicar a mudança das personagens, o deslocamento à liberdade ou ao seu oposto. São mulheres ou homens enjaulados, mais ou menos, confrontados por outras pessoas, amantes ou não, que vivem de outra forma.

Tais amantes, em novos ou velhos tempos, convidam a escapar da jaula, ao terreno desconhecido, ao passo arriscado. À Emma (Swinton) de Um Sonho de Amor, o mundo em questão passa por mudanças: a venda do negócio da família, a filha revelada homossexual, o amante jovem que inesperadamente corta seu caminho.

À pop star de Um Mergulho no Passado, o paraíso em que vive os dias retratados, na Itália seca e paradisíaca à beira-mar, não dá conta de afugentar as lembranças, de lançá-la apenas ao novo, ou àquele momento – à base do sexo na piscina e do relaxamento. Chega ao local o velho amante, pequeno demônio agitado encarnado por Ralph Fiennes.

O paraíso é então colocado de cabeça para baixo. Com o homem vem também a filha, a ninfeta de olhar indecifrável, a qual parece sempre debochar – ou manter segura distância – daqueles seres que viveram muito e cujas histórias – a música, a tentativa de suicídio – pouco a pouco ganham espaço. Não querem enfrentá-las, ainda que nada possam fazer.

A famosa Marianne Lane, protagonista de Um Mergulho no Passado, passou por uma cirurgia e perdeu a voz. Comunica-se por sussurros ou pelo olhar. Em sua condição, a da mulher que se recusa a viver como antes, a ausência da voz dá ideia maior das linhas de sua jaula: sem a fala, passa a impressão de estar presa a si mesma, a explodir.

Em Me Chame pelo Seu Nome, chega-se à situação mais curiosa e curiosamente a que menos depende de arroubos dramáticos. Nesse belo filme, Guadagnino prefere tom menor, o amor fincado em detalhes, a relação dissolvida no medo do avanço, depois no avanço estranho e sem jeito. Constrói um encontro entre opostos e seus mistérios.

O protagonista é Elio (Timothée Chalamet). Sua jaula é evidente, mesmo que não pareça estar preso. O que o segura não é a família ou a dúvida sobre a sexualidade: ele sabe de suas liberdades, e sabe que pode desejar meninos e meninas sem que se veja em dúvida. Sua jaula é feita pelo desconhecimento do outro, no ponto em que é colocado pelo outro – o homem mais velho com quem se relaciona e de quem toma certa distância.

Sua prisão consiste na posição de observador, a do jovem obrigado – na intimidade dividida, nos toques ao próprio corpo que, para Guadagnino, representam momentos de sensibilidade extrema – a se virar como pode para penetrar o espaço do outro. Esse amor de verão é estranho, faz-se de opostos: o adolescente raquítico contra o louro alto e de músculos salientes, o belo que invade o cotidiano do primeiro e deixa flertes no ar.

A fuga da protagonista de Um Sonho de Amor, no encerramento, contrasta a solidão e o isolamento do menino que, em Me Chame pelo Seu Nome, descobriu o amor por outro homem. A primeira termina ao sol, o segundo fecha-se no inverno, com neve do lado de fora, de olho nas chamas da lareira. Nem sempre é possível escapar da prisão em que correm os sentimentos, ainda que, dela, as personagens nunca saem indiferentes.

Foto: Um Mergulho no Passado

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Me Chame pelo Seu Nome, de Luca Guadagnino

Se o novo casal movimenta-se, em momentos, como se brincasse, é porque tal relação termina com alguma desconfiança, algum impedimento: tanto o mais novo quanto o mais velho têm seus motivos para não avançar. Brincam, riem, dão voltas, dançam ou fazem sexo com outras mulheres – um pouco para se evitarem.

Primeiro, em Me Chame pelo Seu Nome, vê-se o menino que brinca, na fase quente da adolescência, ao subir nas costas do homem que visita sua casa, ou na maneira como tenta a todo o momento se aproximar, descobrir o outro, como a criança que admira o adulto estranho, novidade de férias na bela casa de seus pais.

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Depois, o outro, o visitante, homem formado, louro, alto, belo, perfeitinho demais – algo como o boneco Ken, parceiro da Barbie. Natural que chame a atenção não apenas do garoto, mas das meninas que circundam: destoa dos magricelas e pequenos, uma bela estátua a emergir do oceano ou fincada em algum templo de cidades históricas.

O menino fornece o real, algo penetrável, o olhar abobalhado que só muda no encerramento, no último quadro, quando o inverno bate à porta: o olhar, então, retém o mundo adulto, rebate na lareira para retornar à mesma personagem, agora um homem. Descobriu um pouco do que é ser adulto no verão, em tórrida paixão pelo visitante.

Me Chame pelo Seu Nome trabalha de novo com os opostos. São personagens aparentemente distantes em tudo. O jogo é conhecido, o espaço também. Passa-se nos anos 80, ainda sob as formas do universo analógico, dos bilhetes de papel, da alegria dos círculos de jovens à grama ou mesmo nos bailes regados aos hits dançantes daquele momento.

Pelo olhar curioso do garoto, pelo toque como algo não calculado (a massagem no menino, o abraço por trás como brincadeira), Luca Guadagnino move-se no terreno da espera, do cálculo, da concisão. Sabe-se tudo, ou quase, com muito pouco: o menino não se sente culpado, não tem medo dos impulsos. Quer avançar e não sabe como. Sua espera fornece a tônica dessa história que não se desvia do alvo senão às aparências.

Pois é aí que reside a grandeza do filme: nada escapa ao essencial, à história de amor, ainda que as figuras – no drama destilado sempre com cuidado e naturalidade por Guadagnino, com total domínio da narrativa – lutem para desviar. Fala, antes, da natureza da qual não se escapa. E apenas isso dá conta do obstáculo que o filme impõe.

O conflito inicia e se encerra nesse obstáculo: como avançar sem conhecer o outro, sem, no fundo, conhecer o mesmo sexo que se explora pelo toque, sozinho? A resposta é dada pela troca dos nomes que os amantes propõem: um chamará o outro pelo seu nome, não porque precisam ocultar algo, mas porque passam a ser o outro, a senti-lo, a vivê-lo.

Um filme que exige paciência não por ser lento. Exige que o público entenda as nuances da relação forjada ao estranhamento, ao medo de pisar no espaço errado, ou de parecer algo meramente carnal – ainda que a carne seja importante, ainda que o sexo revele-se libertador. Na sequência mais bela, o menino está “sujo” com o sumo do pêssego quando, após o avanço do amante a seu corpo, cai em lágrimas.

São momentos como esse que permitem a migração do desejo ao amor com tamanha naturalidade e fazem o filme funcionar à perfeição. O menino, menos equilibrado, precisa lidar com as inconstâncias, entre o sentimento e a carne, seguido por uma garota de cabelo armado com quem deixa ver sua virilidade, com quem o sexo é igualmente prazeroso.

Quer dizer, o problema não chega a ser a carne. É por ela canalizado. A carne fornece algo único, ainda assim: o jeito como a personagem central perde-se em suas investidas, ou como se encontra graças a elas. Interpretado por Timothée Chalamet, o menino Elio tem algo blasé, é em momentos arrogante, adolescente que se confessa pelo trançar das pernas, pelo silêncio do dia seguinte.

Em oposto, como o estudante que passa as férias na casa do garoto para estudar com seu pai, Armie Hammer nunca é bruto demais, nunca é sensível em excesso. Sua posição diz muito sobre amantes idealizados. Quando pensa e deixa ver seus receios, o público pouco a pouco sabe mais sobre o mesmo, e o amor entre ambos fica maior.

Guadagnino diz ser bertolucciano. Se não chega à agressividade (no bom sentido) do mestre italiano, ao menos esbarra em sua sensibilidade, na aparência do quadro improvisado. E o efeito sensível começa pelo roteiro, com a assinatura do consagrado cineasta James Ivory, responsável, nos anos 80, pelo tocante Maurice, a história de um homossexual na conservadora Inglaterra do início do século 20.

Diferente do britânico, Me Chame pelo Seu Nome dispensa a abordagem do preconceito e da inaceitação familiar. Algumas questões foram superadas. Reserva-se ao espaço dos sentimentos, à natureza que vez ou outra ocupa o quadro, ao pessegueiro ou à piscina entre pedras que os amantes espreitam enquanto fingem se evitar.

(Call Me by Your Name, Luca Guadagnino, 2017)

Nota: ★★★★☆

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Um Sonho de Amor, de Luca Guadagnino

O aspecto viscontiano, em Um Sonho de Amor, deve-se à grande casa na qual as personagens iniciam e fecham suas trajetórias, da sustentação do ritual à quebra. Na grande casa, no início, vê-se a mãe montada, mulher russa integrada à cultura europeia, aqui a italiana sintetizada pela família poderosa. Parece estar presa. Finge bem.

Agarra-se tanto a esse papel – o da mãe forte, o da dondoca burguesa feita à porcelana – que assusta o espectador quando resolve mudar: sem muito explicação além do desejo atrofiado, da vontade de escapar, corre aos braços de um chef de cozinha amigo de seu filho. A mulher em questão, protagonista, é Emma (Tilda Swinton).

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Até certo ponto o filme não é sobre ela. Apenas a contém, abraça-a, faz dela a peça feita à medida, o que causa susto quando quebra: é um filme sobre a família tradicional que não pode escapar aos próprios ecos, à voz que fala para dentro, a começar pela do avô prestes a morrer e decidido a fazer viver sua linhagem e seus negócios.

O diretor Luca Guadagnino dá-se bem na construção das relações. São naturais. Não precisa, apesar dos contornos dinásticos, da opulência, fazer de seus seres figuras anormais. Ao contrário, a impressão é que são “gente como a gente”, pessoas que sofrem ao menor sinal de mudança, ao mesmo tempo dispostas a se transformar.

O erro de Guadagnino pode ser visto no que vem após a tentativa de transformação, nos efeitos dramáticos que a mudança acarreta. O melhor exemplo está nos instantes finais, na exaltação de Emma à fuga, no olhar à filha homossexual (Alba Rohrwacher), à contramão do olhar do marido (Pippo Delbono), o da manutenção.

Alguns querem e aceitam as transformações, outros não. À mesa, no jantar do início, em tempo de neve do lado de fora, o avô (Gabriele Ferzetti) anuncia os sucessores. Aspira à conservação e sabe que seu tempo de vida é curto. Acredita que os demais, ovelhas obedientes, deverão seguí-lo. Meses depois, contudo, a fábrica da família é vendida.

O filho mais velho, sucessor direto, representante dos tempos que precisam mudar “para serem os mesmos”, não aceitará a venda. Tampouco o relacionamento da mãe com outro homem, alguém mais jovem, seu futuro sócio. Edoardo (Flavio Parenti), como os tradicionais, foi feito ao inverno, à conservação, ao calor da grande casa e à forma do jantar com pouco luz, entre o brilho da prataria.

O novo amor da mãe vem com o verão. E escapa à grande casa. Ela, nas horas ou instantes em que passa com o amante, muda de roupa, de forma, age com naturalidade: não deixa ver mais a mulher feita aos bons modos da grande casa, a dama que recebe seus convidados. Pena que as mudanças, na tela, são truncadas, com edição e fusão de imagens desagradáveis, sem a mesma naturalidade que se dispensa aos diálogos.

Swinton é uma grande atriz. Consegue estar dos dois lados, mudando de um ao outro rapidamente; consegue ser a mulher à frente da família, a dama de espírito jovem que corre para os braços de outro, e pode ser vista rindo aos cantos, como uma criança após algum gesto de indisciplina em seu cotidiano, o que só a mesma sabe.

No sexo, a montagem paralela expõe ora o corpo, ora a natureza. A mensagem é clara, e se opõe ao sentido do casarão sob luz baixa e som abafado, com pessoas bem vestidas e sua impecável disposição de peças: não é possível resistir às mudanças e ao desejo de liberdade. Em suma, à natureza das coisas. Por consequência, a família é fendida.

(Io sono l’amore, Luca Guadagnino, 2009)

Nota: ★★★☆☆

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Maurice, de James Ivory

A resistência não dura muito. O rapaz de franja loura, protagonista, fala em “carne e osso” enquanto seu antigo amante – mais tarde transformado em homem público, político com alguma influência – responde sobre o único amor possível entre homens: o platônico. Chegam a lugar nenhum ao longo de Maurice, de James Ivory.

Conhecem o amor entre homens, união proibida na Inglaterra em que o filme situa-se, pouco antes da Primeira Guerra Mundial. Ambiente que o diretor conhece bem, o dos rapazes polidos, dos bons modos, nos quais – como em outros de seus filmes, a exemplo de Os Bostonianos ou Vestígios do Dia – os desejos contrapõem a ordem.

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É proibido erguer a voz. Não se perde a compostura. Alguém como a personagem de Hugh Grant, o garoto moldado às aparências dessa vida política, a esconder seu desejo por homens, é naturalmente perfeito à mesma sala de cristais erguida a cada filme do cineasta: é alguém engomado, preso ao figurino belo, à esposa sem graça.

A frase final é dele, irônica e ao mesmo tempo verdadeira: quando a mulher pergunta se estava falando com alguém, o mesmo diz que apenas afinava o discurso. O espectador sabe a verdade: ele falava, pouco antes, com o antigo amante, Maurice. Sabia então das boas novas: o companheiro de universidade descobriu outro amor, outro rapaz; em oposição, ele sobe para o quarto, para sua mulher, para trancar as janelas.

Como em outras histórias de Ivory, de tempos distantes, as personagens sofrem caladas. Tocam cálices com delicadeza enquanto desejam quebrá-los. As mulheres são cobertas por roupas do pé à cabeça, moldadas às expectativas do patriarcado, da sociedade cristã repleta de bons filhos, bons pais, velhinhos sérios e sábios.

A homossexualidade pertencia às salas fechadas, às escapadas aos bosques. Corriam-se riscos. Os meninos negavam a si próprios, até certa altura, para que pudessem responder aos anseios dos outros: aceitar um casamento com uma mulher, a vida esperada para jovens talhados à linha de produção que imperava.

A começar por Maurice (James Wilby), tomado pelo susto quando o outro, seu primeiro companheiro, revela amá-lo. A reação inicial é negar, espantar o pretendente. O outro, Clive Durham (Grant), corre para o quarto sem entender ao certo seus impulsos. Em seguida, é Maurice que corre atrás, que se confessa, ao passo que o outro nega.

Mantêm-se as amostras de resistência: esses rapazes negam, primeiro, a própria natureza. Depois de encontros e uma relação às escondidas, Clive resolve escapar dessa suposta farsa para viver outra: prefere uma relação às aparências, com uma mulher, pensando em seu futuro na vida pública, à união em encontros secretos com Maurice.

Ambos terão de fazer escolhas. Em viagens à casa do antigo amante, a personagem-título envolve-se com um dos empregados, o jovem Alec Scudder (Rupert Graves). O desejo enfrenta novo oponente: a diferença de classes. Ao protagonista, o avanço do outro pode representar um plano de chantagem, forma de lhe retirar dinheiro.

O filme de Ivory, a partir de E.M. Forster, traduz-se em uma fuga não concretizada. Em sequência que resume o todo, o protagonista coloca o corpo para fora da janela, à noite, e se deixa molhar pela chuva. Os jovens não escondem expressões de desejo, também de vergonha, medo, às vezes de travessura, sedentos por descobertas, ao mesmo tempo sufocados pela sociedade conservadora. Gritam para dentro. Raras vezes fogem ao papel esperado, à personagem moldada pelos outros.

(Idem, James Ivory, 1987)

Nota: ★★★★☆

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