Jean-Claude Brialy

15 grandes rostos da nouvelle vague francesa

Além de cineastas e outros profissionais da sétima arte, a nouvelle vague trouxe uma galeria de grandes faces. Esses atores e atrizes também fizeram carreira em filmes fora do movimento, antes e depois dele. Alguns morreram prematuramente, outros continuam na ativa.

Estudiosos divergem sobre o início e o fim da nouvelle vague. Segundo a versão mais aceita, começaria em 1958 ou 1959, com Nas Garras do Vício ou Os Incompreendidos, e seguiria até os embates de Maio de 1968. Abaixo, ícones dividem espaço com atores menos lembrados, em lista para resgatar um momento único da História do Cinema.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Anna Karina

A bela de Godard, mas também de Rivette e outros. Em Viver a Vida, fez história com lágrimas que remetem a Dreyer e sua Joana D’Arc. Também trabalhou sob a direção do mestre Valerio Zurlini no belo Mulheres no Front, de 1965.

viver a vida

Bernadette Lafont

Seu primeiro filme, o curta Os Pivetes, foi dirigido por François Truffaut, com quem voltaria a trabalhar em Uma Jovem Tão Bela como Eu. No primeiro, é a beleza distante, aos olhos dos meninos atrevidos. Mais tarde esteve no extraordinário A Mãe e a Puta.

os pivetes

Brigitte Bardot

Antes de Godard e O Desprezo, Bardot marcou época como a menina livre de E Deus Criou a Mulher, de Roger Vadim. Estavam escancaradas ali as portas do paraíso: Saint-Tropez, onde a mesma se banharia em ambas as obras, e onde seria seguida por diferentes homens.

o desprezo

Claude Jade

A primeira aparição da jovem atriz em Beijos Proibidos, de Truffaut, é talvez o ponto alto do filme. Ela aproxima-se do vidro e, do lado de fora, acena para Antoine Doinel. É o par perfeito para o jovem em dúvida, com quem voltaria a se encontrar nos filmes seguintes.

beijos proibidos

Corinne Marchand

Bastou apenas uma personagem para que Corinne ficasse marcada como uma das musas da nouvelle vague: a protagonista de Cléo das 5 às 7, de Agnès Varda, sobre os momentos de tensão que antecedem a retirada de um importante exame médico.

cleo das 5 as 7

Delphine Seyrig

O rosto misterioso de O Ano Passado em Marienbad. Mais: o rosto difícil de esquecer, o da mulher que vive com o enteado e recebe a visita de um velho amor em Muriel, outro de Alain Resnais. E como deixar de lado, entre outros, o incrível Jeanne Dielman?

o ano passado em marienbad

Françoise Dorléac

Outra atriz bela de poucos papéis, lembrada, sobretudo, por sua personagem em Um Só Pecado, de Truffaut, e que morreu cedo, em um acidente de carro, em Nice, em 1967. Pode ser vista também em Armadilha do Destino e Duas Garotas Românticas.

um só pecado

Jean Seberg

Apesar de ter trabalhado em grandes produções, a americana Seberg seria lembrada por sua personagem em Acossado, Patricia Franchini, que pelas ruas de Paris vende o New York Herald Tribune. A atriz contracenou antes com David Niven em Bom Dia, Tristeza.

acossado2

Jean-Louis Trintignant

Trabalhou ao lado de diversos cineastas, entre eles Vadim (E Deus Criou a Mulher), Claude Lelouch (Um Homem, Uma Mulher) e Eric Rohmer (Minha Noite com Ela). Fora do tempo da nouvelle vague, ainda contribuiria com outros mestres, como Kieslowski.

minha noite com ela

Jean-Pierre Léaud

Eternizado como Antoine Doinel nos cinco filmes que Truffaut dedicou à personagem. E não só: também esteve em filmes de Godard, como no divertido Masculino-Feminino e, pouco depois, no maoísta A Chinesa, de 1967. Esteve no recente e encantador O Porto.

os incompreendidos

Jean-Paul Belmondo

Podia ser um pequeno criminoso em Acossado e, no ano seguinte, 1961, o padre de Léon Morin, de Jean-Pierre Melville. Ator versátil, de expressão inesquecível, e de filmes nem sempre lembrados como Duas Almas em Suplício, de Peter Brook.

acossado1

Jean-Claude Brialy

Viveu o protagonista de Nas Garras do Vício, um dos filmes que lançaram a nouvelle vague. Voltaria em outro de Chabrol, logo depois, Os Primos, e em diversas produções marcantes como Uma Mulher é Uma Mulher e, mais tarde, O Joelho de Claire.

jean-claude brially

Jeanne Moreau

Provavelmente o rosto feminino mais importante da época, a Catherine de Jules e Jim, papel que a imortalizaria. Viveu outras personagens intensas em grandes filmes como Eva, A Baía dos Anjos, A Noite e, pouco antes, em Amantes e Ascensor para o Cadafalso.

Jeanne Moreau

Maurice Ronet

Esteve no mesmo Ascensor para o Cadafalso ao lado de Moreau e, de novo com o diretor Louis Malle, interpretou a personagem principal em Trinta Anos Esta Noite. Com Alain Delon, dividiu a cena em outros bons filmes: O Sol por Testemunha e A Piscina.

Trinta Anos Esta Noite

Stéphane Audran

O olhar enigmático é sua marca registrada. Pode ser visto nos filmes de Claude Chabrol, com quem foi casada até 1980. E com ele fez grandes filmes, incluindo um pequeno papel em Os Primos, Entre Amigas e, mais tarde, A Mulher Infiel e O Açougueiro.

o açougueiro

Veja também:
Os dez melhores filmes de Jean-Luc Godard

Os dez melhores filmes de Eric Rohmer

As obras de Eric Rohmer centram-se na relação entre homens e mulheres, entre amigos e amantes, quase sempre com triângulos, ou com mais casais, e quase sempre com pessoas apaixonadas e de bom coração no caminho dos cínicos e aventureiros. Segue o problema: resumir assim o cinema de Rohmer é esbarrar na injustiça.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

É mais que isso, sempre parecendo francês demais, como se tornou comum classificar o cinema desse país: muito diálogo, pessoas distantes da dramatização esperada, citações a grandes pensadores, dúvidas existenciais e, claro, adultério.

Da geração da nouvelle vague, Rohmer trabalhou antes como crítico. Ao longo da carreira, desenvolveu três grandes séries: os Contos Morais, as Comédias e Provérbios e os Contos das Quatro Estações – que totalizam 16 filmes, entre eles um curta (A Padeira do Bairro, o primeiro conto moral). Abaixo, o melhor do diretor.

10) Noites de Lua Cheia (1984)

Nesse delicioso filme de relacionamentos, de chegadas e partidas, uma mulher está em dúvida se deve se casar. Durante uma noite, deverá repensar sua situação.

noites de lua cheia

9) O Signo do Leão (1962)

Em seu primeiro longa, Rohmer faz uma homenagem a Boudu, de Renoir, com o homem que acredita ter herdado a fortuna da tia rica, mas termina na sarjeta.

o signo do leão

8) O Joelho de Claire (1970)

De barba saliente, Jean-Claude Brialy faz o protagonista, longe de ser um garoto, e obcecado pelo joelho da bela Claire (Laurence de Monaghan), a jovem ninfeta.

o joelho de claire

7) Pauline na Praia (1983)

A pequena Pauline (Amanda Langlet) está descobrindo o amor e ainda assim é a mais equilibrada nessa bela comédia à beira mar, com fotografia de Néstor Almendros.

pauline na praia

6) Amor à Tarde (1972)

A última parte dos Contos Morais de Rohmer inclui um homem (Bernard Verley) que passa as tardes à toa e, certo dia, tem uma visita inesperada: a amante de um amigo.

amor à tarde

5) Conto de Inverno (1992)

O melhor dos Contos das Quatro Estações faz confundir: será a vida fruto do acaso ou nada escapa ao destino? Parece ser também a síntese do cinema de Rohmer.

conto de inverno

4) O Raio Verde (1986)

O título refere-se ao momento mágico entre o dia e a noite, no crepúsculo, quando o sol emite seu último feixe de luz. É apenas um detalhe caro desse filme sobre descobertas.

o raio verde

3) A Carreira de Suzanne (1963)

Curioso e simples triângulo amoroso formado por jovens franceses antes da politização do maio de 68, no espírito livre da nouvelle vague, à forma inconfundível do diretor.

a carreira de suzanne

2) Minha Noite com Ela (1969)

Jean-Louis (Jean-Louis Trintignant) busca a mulher ideal. Certa noite, mergulha em uma conversa com a experiente Maud (Françoise Fabian), que pode mudar seu destino.

minha noite com ela

1) A Colecionadora (1967)

Esse filme simples inclui um rapaz que não quer fazer nada, o único a ser evitado pela fácil Haydée (Haydée Politoff). Como prova Rohmer, a grandeza está nas pequenas coisas.

a colecionadora

Veja também:
Os dez melhores filmes de Jean-Luc Godard

Esse Mundo é dos Loucos, de Philippe de Broca

A guerra pertence aos equilibrados. A harmonia é dos loucos. É assim em Esse Mundo é dos Loucos, comédia de Philippe de Broca sobre os últimos dias de ocupação alemã em uma pequena cidade francesa, local em que se revela o absurdo da guerra.

Para o diretor, trata-se do teatro da vida, da verdade, a forma de driblar o mal: os loucos saem do hospício, esquecidos, e ocupam as ruas, brincam com o falso. São atores, ao fim, mas atores revelados: são seres verdadeiros porque falsos.

esse mundo é dos loucos1

Os homens da guerra, por sua vez, revelam o oposto: precisam parecer equilibrados para fazer o conflito, para matar inimigos. Fingem sanidade. No fundo, são falsos, presos às fardas, ao enganoso cavalheirismo das fileiras, da disciplina.

Na obra de Philippe de Broca, um destacamento de escoceses descobre que os alemães plantaram bombas nessa pequena cidade, na Primeira Guerra Mundial. O artefato bélico não poderia estar em local mais simbólico: sob o palco da praça central.

Por ali, ao redor, os loucos vestem seus figurinos, brincam, são livres. Mais tarde, os soldados retornam, deslumbram-se e até são confrontados por essa liberdade: os homens comportados não sabem lidar com os verdadeiros loucos.

A encenação do “teatro do mundo”, como diz a personagem de Jean-Claude Brialy, começa com o envio do soldado Charles Plumpick à pequena cidade. Os escoceses descobrem os planos dos alemães e pretendem minar seus interesses.

esse mundo é dos loucos

Interpretado por Alan Bates, Plumpick precisa encontrar as bombas. Ele é descoberto ainda cedo, foge e se esconde no hospício. Chamado de “rei de copas”, o rei dos loucos, termina louvado e acaba ajudando os internos a ganhar liberdade.

Os loucos saem às ruas, assumem os espaços que eram da população fugida, tomam suas roupas, suas funções, suas carruagens. Tem início esse belo teatro, ou essa vida: a encenação do absurdo em tempos absurdos, a exaltação da verdade.

Pois Philippe de Broca questiona o que, afinal, define a razão e confere a alguns o poder sobre outros. Para os loucos, o rei é aquele que toma a personagem sem querer, o estranho que surge na cidade apenas para viver outro papel.

Com o fim da guerra, ou com o fim do teatro dos verdadeiros loucos (a morte dos dois batalhões), melhor é retornar ao hospício. O mundo – banhado pelo sangue dos soldados – torna-se sério demais, a encenação tem novos contornos. Perde a graça.

esse mundo é dos loucos2

As mulheres exageram na maquiagem e nos figurinos. Desfilam com seus companheiros, tornam-se prostitutas. A certa altura, uma delas sugere que um dos loucos faça filhos para ter seu próprio batalhão. “De um lado, as prostitutas. De outro, os coronéis. Tem razão, a vida é simples”, sugere o futuro pai.

Nesse tom, os desequilibrados tornam-se protagonistas do espetáculo, à frente do grande palco: em sua aparente loucura, injetam doses de lucidez.

Nota: ★★★★☆

A Garota de Trieste, de Pasquale Festa Campanile

À beira mar, um homem desenha sobre uma folha em branco. Às aparências, um homem velho, sozinho, em busca de paz para executar seu trabalho. Ele não sabe que está próximo a uma descoberta: o encontro com uma menina, ou mulher, saída do mar e carregada por homens, afogada, que mudará sua vida. Fará dele um obsessivo.

Esse clima inicial – que retorna ao fim – é fundamental em A Garota de Trieste, de Pasquale Festa Campanile: é uma fusão de dois mundos diferentes, quando o homem busca fazer, no papel, a sua mulher, e quando ele acaba por encontrá-la.

garota de trieste1

Talvez não seja a mulher esperada: jovem demais, impulsiva demais, inconfiável quase sempre. Mas ele, Dino Romani (Ben Gazzara), deseja-a cada vez mais. Torna-se incontrolável. No início, parece não dar bola: olha para a moça como se ela fosse não mais do que uma garota fútil e aventureira. Mais tarde, e pouco a pouco, estará à sua procura como um louco apaixonado, às vezes em papel de pai protetor.

Ela é Nicole, com o corpo, a pele e o olhar que deixaria qualquer homem maluco. É Ornella Muti, uma das mulheres mais belas do mundo à época. Triste, por isso, constatar que falta algo àquelas curvas tão perfeitas: um pouco mais de substância interna, com uma personagem que, apesar de atraente fisicamente, nada tem a oferecer quando se deixa tomada – sempre – pelo desequilíbrio psicológico.

Não poderia ser diferente: é a história de um homem aparentemente equilibrado, atrás de preciosos traços, contra uma menina inclinada à loucura constante.

Completam-se: ele corre atrás, ela finge paixão. Não há, em ambas as personagens, muito respeito ou muita sinceridade. Quando ele descobre os problemas dela, simplesmente se fecha em seu próprio mundo. Ignora-a. Ela, por sua vez, fará sexo com outro homem por puro prazer momentâneo, na praia, quando tomava sol.

Em um hotel, quando ela despe-se ao camareiro, para que simplesmente seja vista, ele apenas observa de outro cômodo: é como compreendesse o jogo a ser jogado.

Na verdade, a bela de A Garota de Trieste precisa se sentir viva e esse é o meio encontrado: parecer desejada, observada, parecer uma mulher completa ao olhar masculino sedento, de homens variados e desconhecidos.

garota de trieste2

Terá amado Dino? O espectador tem dúvidas. Ao passo que fala de amor, age às vezes de forma oposta: escreve cartas como se estivesse em outro lugar, com outro homem em seu caminho. Em Nicole, tudo é inconstância. Ela é o desenho que o cartunista não consegue completar, a imagem que não consegue esculpir.

Não por acaso, em determinada altura ele sacará uma câmera e a fotografará enquanto dorme, em sua cama. É a forma de tentar captá-la por completo, sem a representação da tinta sobre o papel. Nesse caso, ele necessita algo mais.

A câmera mostrará essa menina de diferentes formas. Ela, ao longo do filme, surgirá sempre outra, nunca a mesma. Às vezes mais velha, às vezes mais livre. Ao fim, como a Constance Towers de O Beijo Amargo, exibe mais do que uma careca: um olhar indecifrável, um olhar de repúdio, de vazio, como se chegasse o fim.

Outra sequência também faz pensar em outro filme de Samuel Fuller, Paixões que Alucinam. Trata-se do momento em que Nicole é atacada por três mulheres no hospital psiquiátrico em que está internada, comandado pela personagem morosa de Jean-Claude Brialy. Elas abusam da moça, simulam sexo, em momento tão forte quanto o ataque de um bando de mulheres ao jornalista infiltrado na obra de Fuller.

Os encantos de Nicole deixam Dino sem ação. Resta desenhar, ao fim, enquanto olha à jovem musa com perplexidade, enquanto ela desaparece no mar. Pensava ter encontrado o traço final e perfeito, a mulher formada. Ironicamente, encontrou alguém sem identidade definida, nova personagem a cada instante.