Até os Ossos, de Luca Guadagnino

Os devoradores não encontram seu lugar no mundo. Vagam. A protagonista de Até os Ossos teve de percorrer alguns bons quilômetros para fazer sua grande descoberta: ou aceita a própria natureza e continua a devorar os outros ou enlouquece, presa a um hospital psiquiátrico, a devorar a si mesma – a exemplo de sua mãe.

Maren (Taylor Russell) demora para encontrar Lee (Timothée Chalamet). Ela tenta controlar seus próprios instintos; ela, como o companheiro, é uma canibal em um mundo que obviamente a rejeita. Por isso, a cada investida na carne dos outros, a cada ataque, tem de fugir – primeiro com o pai (André Holland), depois com o namorado.

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Maren é a alma desse grande filme. Seu pai existe para explicar o que muitos – ou quase todos – não podem. Ele tenta protegê-la e, quando a moça já não é mais uma criança, e sem muitas explicações, prefere deixá-la. Mauren terá de descobrir por si mesma sua diferença, seu vício, sua deformação. Ser jovem, ela sabe, inclui deixar pulsar os instintos; crescer, ela descobrirá, é ter consciência da dor levada aos outros.

O filme de Luca Guadagnino é um road movie que mistura história de amor e terror. Dois gêneros pouco conciliáveis dissolvem-se em movimento frenético, em sequências que quase nunca se revelam injustificáveis, em um trabalho em que cada peça tem sua razão de ser. Um filme sobre o instinto que negamos e, no caso do casal em questão, que permitimos deixar correr sob a desculpa de que é transviado, inconsequente, jovem.

Enquanto a menina pensa, sabe de seus problemas e crimes, Lee segue em frente. Ambos se compreendem porque dividem dramas semelhantes: ela com a mãe, ele com o pai. Aceitar viver sob a condição de um canibal, um animal que só pode viver enquanto devora, um vampiro cuja existência justifica-se na caça, é confrontar a ordem social segundo a qual a carne humana é sagrada, inviolável, também fraca e prazerosa.

Até os Ossos mostra-nos essa dificuldade de lidar com a carne, a nossa. Com nossas entranhas, nossa matéria, nossas investidas chamadas pelos outros de desvio. Nem de longe o filme concorda com suas personagens; ao contrário, expõe suas punições, dores, viagens para devorar os outros enquanto devoram a si mesmas. Trata dos impulsos e de suas consequências, das heranças do sangue – do pai devorado, da mãe que se devora. Ao som da inebriante trilha sonora da dupla Trent Reznor e Atticus Ross.

Em sua primeira parada após se ver sozinha na estrada, Maren conhece o estranho Sully (Mark Rylance). Sua chegada é um dos pontos altos do filme. Rylance, ator completo, sabe como se equilibrar entre o sinistro e o novo amigo bondoso, o mais perigoso e o mais frágil. É também um canibal que fareja, com considerável distância, alguém de sua espécie. À garota que se descobre, que não se compreende, ele oferece mais que um teto para passar a noite: na casa em que se refugiam há uma velha mulher para ser devorada.

Quando os humanos-canibais dividem a mesma presa, dividem mais: nas regras dessa vida desregrada que adotam a si mesmos, aprendem a não devorar a si mesmos. Diferente das matilhas, nem sempre conseguem ficar juntos por muito tempo. Estranhos somos nós, os humanos: conscientes de nossos desvios, de nossos crimes, partimos sozinhos para um isolamento quase sempre impossível ou terminamos presos no hospício.

O filme de Guadagnino, com roteiro de David Kajganich, baseado no livro de Camille DeAngelis, joga com a natureza que (não) negamos: o canibalismo pode ser trocado por outra prática, por outro vício. Podemos ver no movimento desses jovens o de pessoas que aceitaram viver sem uma única escolha a não ser aceitar a si mesmas. Condição humana à qual, mais ou menos, todos fomos submetidos: não vivemos sem depredar, e sempre seremos condenados, mais ou menos, por devorarmos algo ou alguém.

Ainda sobre a primeira aparição de Rylance: vi ali o melhor de Wenders e Jarmusch, alguns instantes mágicos nos quais não é preciso explicar nada. É uma presença, e é tudo o que um filme de terror precisa para nos conectar com o mal à volta. Quando a menina vê aquele velho homem banhado em sangue e a si mesma em igual situação, sabemos que ali se sela muito mais que a divisão de um banquete. Ele não a deixará em paz. Ela terá de viver à sombra desse fantasma de fala mansa e olhar penetrante.

(Bones and All, Luca Guadagnino, 2022)

Nota: ★★★★☆

SOBRE O AUTOR:
Rafael Amaral é crítico de cinema e jornalista (conheça seu trabalho)

Veja também:
O Colecionador, de William Wyler

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