cinema americano

A vitória das pequenas coisas nas comédias de Michel Hazanavicius e Noah Baumbach

Se depender de Jean-Luc Godard, a conversa envereda sempre pela necessidade de revolução, pelo fim dos sentimentos, pelo cinema engajado e não a serviço do que deseja o inimigo. Leia-se: a burguesia. Ou o sistema. São sempre os mesmos. Ao seu lado, uma mulher deseja ser amada e viver um pouco mais – contra o discurso político.

O cineasta francês chega à tela como se imagina, ainda que em forma cômica. Não dá para dizer que não funciona. Em O Formidável, Michel Hazanavicius oferece a vitória das pequenas coisas contra esse discurso encampado por Godard nos dias anteriores e posteriores ao maio de 68, sob a ótica de sua então companheira, Anne Wiazemsky.

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À medida que ele limita-se ao robótico de falas diretas, nessa paixão restringida ao jeito intelectual que não resiste a qualquer debate e ora ou outra se vê perdido na multidão, ela avança como alguém à espera de algo – não tanto, tampouco o mínimo – e nada tem. Quer o jovem que talvez tenha conhecido antes, não a caixa de ressonância que se tornou.

O roteiro, baseado nos escritos de Wiazemsky, é do próprio Hazanavicius. A fórmula é simples: contra esse desejo de mudar o mundo da época, ao qual mergulha de cabeça o Godard de óculos escuros, impõem-se as pequenas coisas da vida pelo avanço da menina: a vontade de ter um companheiro de verdade, o natural, a vida a dois, o mergulho na praia, ou apenas o prazer de viver um momento como respiro de alegria.

Pelas “pequenas coisas” não se deve tomar o desimportante ou o banal. Ao contrário. São elas que não deixam ver o que sempre parece decisivo, mas que movem uma vida de amor que não resta à tela, ou que, se resta, permanece em partes raras. Godard é duro, desumano, como sempre indicou a propaganda de sua imagem: o cineasta distante de óculos escuros, de fala forte, o homem do qual não emana qualquer sinal de sentimentalismo.

Godard reproduzia em imagens – em pequenas participações nos filmes de outros diretores, ou em aparições públicas – uma espécie de pequeno demônio ao estilo anti-herói dos filmes policiais americanos. De fitas baratas, que fique claro. O francês que levou a sério a necessidade de mudança, ou de “revolução”, como não cansa de dizer.

Alguns artistas levam-se tão a sério que se tornam insuportáveis: migram àquele estado de transe paralelo em que importam apenas o discurso, a militância, o grito, a revolta que não deixa espaço ao oposto, à vida sem engajamento. No caso da relação entre Godard (Louis Garrel) e Wiazemsky (Stacy Martin), o artista politizado não se rendia àquilo que, nela, parecia pequeno ou desimportante: uma vida não necessariamente normal, mas muito menos uma vida como antessala de uma revolução, de jovens rebeldes com o Livro Vermelho.

O artista insuportável encontra espaço também na comédia de Noah Baumbach, Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe. É a personagem de Dustin Hoffman, o velho artista ranzinza que viveu para não se dobrar às convenções do mundo dos artistas: os lançamentos em galerias de arte, as fotos ao lado de artistas, enfim, a roda da indústria cultural.

Como o Godard de Hazanavicius, Harold termina atropelado pelas questões cotidianas, como a visita dos filhos, a venda de seu apartamento, a companheira alcoólatra. Interessam a Baumbach igualmente os instantes, os giros em falso, os pequenos tropeços que revelam mais que os discursos: desde o início, trata-se de tentar estacionar o carro e se ver entalado, de percorrer uma quadra aos gritos sem se fazer caber nesse universo.

Harold, como Godard, perde-se na multidão: aos poucos, mostra Baumbach, fica apenas o senhor doente cercado por filhos e netos, entre fracassados e bem sucedidos, nunca como desejava o patriarca. Brigam, quebram algo, investem contra alguém sem muito sentido, apenas por insistência de se fazer sentir, contra os alienados ao lado.

Hazanavicius, pelo olhar de Wiazemsky, ri do intelectual Godard. Chega perto do pastelão quando o cineasta é pisoteado por um grupo de jovens que corre da polícia, e quase é atropelado, em seguida, pela mesma. Seus óculos são quebrados seguidas vezes. Godard não enxerga muito em boa parte; mas, como logo entende o espectador, sua miopia é outra.

Em uma sequência-chave, Godard tenta puxar um grito de guerra contra o general Charles de Gaulle, em meio às passeatas de 68, e fracassa. Retorna em diferentes momentos a face de impotência, o medo do jovem que o enfrenta aos gritos e o acusa de ser uma propaganda ambulante. O artista é apequenado entre a multidão que prefere a ação à imagem.

O cineasta francês é a caricatura esperada: nada natural, o homem que não retira o paletó nem quando se encontra à frente de um cenário paradisíaco em Cannes. E Wiazemsky é, tristemente, a menina que o segue. Soa submissa, sem possibilidade de escolha. Ao homem sem graça oferece-se a mulher fraca, sem rumo, nesse filme sobre um tempo perdido.

O respiro e a graça revelam os humanos como são nas comédias de Hazanavicius e Baumbach: menos na inflexibilidade de seus seres, na frase formatada, mais no que representam enquanto cheios de imperfeição, dos pequenos tropeços à inevitabilidade de se encarar o chamado mundo real – no qual prevalecem as pequenas coisas.

(Le Redoutable, Michel Hazanavicius, 2017)
(The Meyerowitz Stories (New and Selected), Noah Baumbach, 2017)

Notas:
O Formidável: ★★★☆☆
Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe: ★★★☆☆

Foto 1: O Formidável
Foto 2: Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe

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A Longa Caminhada de Billy Lynn, de Ang Lee

Mais que drama feito às lágrimas, Ang Lee prefere pequenos gestos sensíveis. Retira de muitas cenas o efeito esperado, fraqueza ou força, covardia ou heroísmo de alguém retraído como Billy Lynn (Joe Alwyn). Sobra mesmo a sensibilidade do soldado, ao qual outro, vivido por um inesperado Vin Diesel, conhecido brucutu, diz que ama.

Diz também para outros soldados, em momento-chave, na experiência em campo contra os inimigos, quando estão prestes a guerrear. Poderia, fosse outro filme, soar pesado, ou deslocado; com Ang Lee, em A Longa Caminhada de Billy Lynn, beira a perfeição. Esses homens confessam não o típico amor, mas o pedido para que vivam para os outros.

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É um ritual, ponto em que precisam confessar, mesmo que isso signifique corar o rosto rosado de Billy ou de qualquer outro adolescente que sabe algo sobre sexo, pouco ou nada sobre amor. Espaço último para se pensar em tal gesto, o do astro de Velozes e Furiosos, para somar outro tijolo à arquitetura de Lee em sua passagem pela história de Billy.

São três caminhos nessa narrativa costurada entre passado e presente: os momentos da guerra no Oriente Médio, os dias em família e as horas como estrela ao lado de um grupo famoso, em um estádio, para vender – servir, sobretudo – o produto americano. De garoto perdido, sem entender o que o cerca nos três casos, Billy converte-se em desejada marca.

A história americana está cheia dessas representações que, em determinados casos, nos momentos certos, podem valer mais que uma bandeira ou um hino: a imagem que reproduz o heroísmo – àqueles que assistem, distantes, do conforto de suas casas. “No lugar certo, na hora certa”, Billy foi captado pela imagem: ao ângulo, oferece o herói.

O rapaz por trás do vídeo seco, a certa distância, começa a ser descortinado: do atraso para se juntar aos colegas de farda, no início, à dificuldade para se comunicar com uma bela líder de torcida que primeiro pisca para ele, depois corre ao seu encontro, em esconderijo improvisado, para lhe roubar alguns beijos. A vergonha deixa ver a sensibilidade.

Quando se pensa em pessoas convertidas em marcas, ao modo do Tio Sam em seu “I want you”, difícil não pensar na história por trás da imagem dos homens que fincaram a bandeira americana em Iwo Jima, clicada por Joe Rosenthal. Virou filme, em 2006, pelas mãos de Clint Eastwood. Na tela, homens servem igualmente de marionetes à propaganda, à arrecadação de dinheiro, à roda do espetáculo.

Para Billy, tudo parece novo. A poucos metros, vê um universo de consumo e tradição traduzido em toneladas de comida, em pessoas que pagam para ver o espetáculo do futebol americano, em líderes de torcida que se chacoalham para empolgar, em uma limousine futurista que leva os soldados ao estádio no dia em que se convertem em estrelas. Em Guerra ao Terror, Kathryn Bigelow precisou apenas de uma sequência para resumir tudo isso: o soldado em frente a uma gôndola forrada de cereais, em um supermercado.

O espetáculo e sua suposta felicidade não encontram espaço no olhar de Billy. Contrapõem sua longa caminhada pela guerra, à mercê da incerteza de qualquer ataque, de qualquer olhar cruzado de pessoas desconhecidas, até aquele palco feito de luzes e festa. Sua forma não esconde, seu recuo (ou medo) não promete um produto embalado para filmes sobre heróis: ele não tem qualquer inclinação ao modelo esperado pelos patrocinadores do show ou pelos homens que ainda tentam transformar sua caminhada em filme.

À sua maneira, Lee faz um filme por trás de outro, daquele que louvaria o patriotismo, a história dos texanos no Iraque que revive o Álamo do imaginário comum: a caminhada real de um e outros rapazes nada chegados à interpretação, àquele papel de bravura, envelopados pelo telão cristalino, pela música explosiva, pela torcida, pelo piscar de olhos irresistível de alguma dama do Texas. Imagens americanas que, no Billy de olhos tristes, rebaixados, causam susto ou repulsa tamanha a agressividade.

O patriotismo é agressivo: parte de um e termina no colo de todos. Resume-se na fala do repulsivo empresário Norm (Steve Martin): após o gesto de bravura de Billy, a companhia dos soldados, segundo ele, deixa de pertencer apenas ao protagonista e aos colegas fardados. É agora de todos. Norm, contudo, não colocará o mesmo patriotismo à frente do dinheiro. Nem o espetáculo. Lee chega então àquilo que move o país em questão.

(Billy Lynn’s Long Halftime Walk, Ang Lee, 2016)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Planeta dos Macacos: A Guerra, de Matt Reeves

Detroit em Rebelião, de Kathryn Bigelow

As lojas em chamas e o exército nas ruas dão forma à guerra civil em Detroit, em 1967, momento em que os negros decidiram ir ao ataque. Verdade que atacaram antes, outras vezes, cansados das injustiças. Os fardados estavam nas ruas, homens brancos que apelavam à violência sob o discurso da necessidade de impor a ordem.

O cenário expõe as diferenças, a convivência difícil. Ninguém esquece, por exemplo, os olhares trocados entre policiais em uma viatura e homens negros sentados na calçada em Faça a Coisa Certa, de Spike Lee. No caso de Detroit em Rebelião, esses olhares retornam em montagem veloz, sem a fixação de um lado ou de outro, mas inescapável.

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A diretora Kathryn Bigelow, com roteiro de Mark Boal, expressa o ódio que chega ao seu máximo: a guerra. Como outras, pode ser gestada, ou ter início, em qualquer incidente que soe brutal, ou no mínimo vulgar. Como, por exemplo, prender um grupo de negros por estar em uma festa em horário proibido. São todos levados à delegacia.

Outros negros, à rua, encontram o espaço para protestar, ou expor a fúria contida contra os brancos que passam em suas viaturas metálicas para colocar medo, para evidenciar os opostos, para pagar de pistoleiros e xerifes sobre os dominados índios que precisam se limitar, em calma, ao espaço – o gueto – ao qual foram lançados.

Detroit em Rebelião – com abertura em animação, que pretende dar conta da História e da situação do negro nos Estados Unidos – é feito todo desse clima, a partir da entrada em um território, do levante – de dentro para fora, ou dentro mesmo, para queimar ali – dos negros guetizados, violados, presos, nos dias em que todos foram suspeitos.

Basta o movimento na janela, o de uma criança, para o soldado atirar. A desculpa é sempre a mesma: um atirador estaria investindo contra os fardados. Em outro momento, quando um rapaz negro atira nas tropas, para sua aparente diversão, para pregar um susto nessa noite incomum, o contra-ataque chega em forma de pólvora. Policiais e soldados invadem o motel em que o atirador e seus amigos estão. A noite torna-se um inferno para seus hóspedes.

Com um prólogo que aborda o início do levante e um epílogo sobre a injustiça mesclada ao medo da polícia, também sobre a purificação divina, Detroit em Rebelião centra-se no episódio do motel, quando três rapazes foram assassinados a sangue frio. Situação das piores: todos contra a parede, alguns levados a quartos, todos obrigados a confessar algo.

Os policiais querem a arma do atirador. O mesmo, contudo, está morto. É o primeiro a morrer. A arma desaparece. Os brancos fardados investem com brutalidade, entre a crueldade e a idiotice, não sem despreparo e até infantilidade. Bigelow volta às relações de proximidade entre torturados e torturadores, zona que produz, não raro, discussões acaloradas. E nem sempre consegue tomar distância, como se viu em A Hora Mais Escura.

A caricatura será vista, ainda que sem exagero, nos policiais brancos. Os cortes rápidos, a transpiração, o realismo – nenhum desses fatores retira dos fardados o ódio que o filme revela em seu discurso, com os negros acossados do outro lado. Como, em tal situação, escapar à tomada de partido, sendo este um caso que exala injustiças e abusos por todos os cantos? Bigelow escolhe estar ao lado dos oprimidos.

Seu obra não alivia: os negros saqueiam e queimam, os policiais matam e plantam falsas provas. Detroit resume os Estados Unidos em seus dias de guerra, em suas tentativas de fazer justiça no tribunal cujo formato, sozinho, apresenta a separação: brancos à frente, negros ao fundo. Faz pensar no tribunal de O Sol é para Todos, mas sem um Atticus Finch para aliviar os negros que se levantam em sinal de respeito. Igualmente o espectador.

(Detroit, Kathryn Bigelow, 2017)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
O Outro Lado da Esperança, de Aki Kaurismäki