road movie

Bastidores: Central do Brasil

Aos poucos, fomos entendendo que o aperto dos vagões superlotados, bem como de seus acessos e dos cubículos de suas casas, nos levou a apertar o quadro do cinema usando lentes mais fechadas. Como se todos estivessem espremidos em seus próprios mundos.

Quando Dora (Fernanda Montenegro) se aproxima de Josué (Vinícius de Oliveira) e os dois avançam na direção do centro do Brasil, as lentes generosamente vão abrindo seus ângulos como se a abrangência panorâmica dessas lentes abrisse também o coração dos personagens.

Walter Carvalho, diretor de fotografia de Central do Brasil, na Folha de S. Paulo (Caderno Ilustrada, 30 de outubro de 2018; pg. C4; leia aqui).

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Veja também:
Como os jump cuts salientam o tema de Na Estrada

A Garota da Motocicleta, de Jack Cardiff

As roupas de couro coladas no corpo servem à excitação. Há nada por baixo, sabe o espectador, apenas ele, que acompanha a curta aventura da garota que pode ser uma ninfomaníaca, a menina que corre atrás do belo amante após uma noite de sonhos ao lado do marido desinteressante em A Garota da Motocicleta.

Sua viagem será de descobrimento, com um pouco do prazer que a fuga – física ou não – oferece. Ela, Rebecca (Marianne Faithfull), sonha com o sexo, com o outro, e retorna a ele, ou a algum estranho, durante sua viagem. Às vezes a tela deixa-se tingir: o rosa explode e as pinceladas do psicodelismo típico do momento dão as caras na obra de Jack Cardiff, com roteiro de Ronald Duncan, do livro de André Pieyre de Mandiargues.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

As marcas do tempo, por sinal, mais atrapalham do que ajudam: a impressão é que o filme, em grande parte, foi “refeito”, remodelado em diferentes ambientes, sob os sinais das back projections que retiram o espectador rapidamente dessa balada. É como se os sinais do mundo livre perdessem espaço ao bom e velho clássico de estúdio, com o galã Alain Delon encurvado, falso, à frente de estrada alguma, um menino de campanha publicitária.

A moto potente oferece à moça a força que não tem em seus ambientes reservados: antes, com o pai dono de livraria e que tudo proíbe; depois, com o futuro marido louro de traços abobados, que à mesma oferta apenas a companhia. A menina descobre o amante enquanto trabalha na livraria com o pai. É o belo professor que chega em uma moto, que a leva para escapadas pela estrada, que depois lhe presenteia com o veículo.

A escapada de Rebecca em uma manhã como qualquer outra, após uma noite de sonhos e desejos, é a representação de sua necessidade de sexo, sua busca pelo amante perfeito que talvez não exista, o que sua perfeição – a de um Delon de passado misterioso, de amor fracassado, que fala sobre a importância de se ligar à máquina – só faz corroborar.

À estrada, Rebecca encontra tempo para paradas e novos sonhos. Lembra os dias em que, na companhia de amigos, esquiando por montanhas geladas, outra vez se deparou com o amante. Não há acasos aqui. Naquela mesma noite, um homem estranho – alguém com coragem para arrombar a janela do quarto tingido de vermelho – fez sexo com ela.

Desses momentos fica o sentido do filme, o da menina antes feita de porcelana e agora convertida na mulher que veste trajes de couro, cujos sonhos levam ao picadeiro de um circo em que se vê atração principal, às chicotadas do mestre de cerimônias que vem a ser justamente o amante. Menina que escolhe fugir da vida de amarras, previsível, pela máquina potente, presente do outro, sobre a qual ela prega o corpo, as curvas.

Um filme sobre uma mulher que não sabe lidar com os desejos, que, nesse clima de psicodelia e fuga dos anos 60, escolhe viajar para qualquer lugar, para novas estradas, levada pelo objeto que, dúbio, pode conferir instantes de prazer e morte, no caminho em que, pelo filme inteiro, perigo e excitação convivem lado a lado, inescapáveis.

(The Girl on a Motorcycle, Jack Cardiff, 1968)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Alain Delon, 80 anos

Visages, Villages, de JR e Agnès Varda

A presença do artista visual JR traz Jean-Luc Godard à memória de Agnès Varda. Nos dois casos, um rosto escondido por óculos de sol, pessoas que lidam com a imagem, o cinema ou a fotografia. Não importa em qual ambiente, em qual hora do dia, lá estão as lentes escuras. Godard pode ser visto com óculos em diferentes filmes, como em O Signo do Leão, de Rohmer – figura distante, cômica, a do francesinho gênio e introvertido.

Décadas depois, ao encontrar JR, Varda reencontra Godard. Volta ao cinema – ao do amigo francês que filmou (sem óculos) em Cléo das 5 às 7, também ao seu – nas viagens que faz com o novo amigo, o artista visual que prega fotografias em diferentes estruturas pela França rural e profunda, à procura de rostos e formas.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Esse encontro dá vez a Visages, Villages: fusão de idades, de gerações, de artes, de pessoas que ainda respondem ao afeto e à inegável passagem do tempo. Ele, com pouco mais de 30 anos; ela, com mais de 80. Ambos em um furgão pelo lado rural de um país, por paisagens, vilarejos, em diálogo com agricultores e operários.

Que fique claro: a semelhança entre JR e Godard é física. Eis um filme sobre a imagem, no qual o sentimento produz-se por sua presença. A imagem que modifica a vida das pessoas aparentemente simples que cruzam o furgão dos artistas, do qual, pela lata, sai a foto ampliada dos fotografados, ali mesmo, em cabine móvel.

O filme não esconde suas misturas. Até certa altura não se sabe por que foi feito, e a que ponto seus realizadores estão indo. Filme livre a partir dessa amizade, descontraído, dessa situação que move o artista: o desejo de invadir, de reencontrar o passado nos rostos das pessoas retratadas, ou nas antigas fotos, ou na memória.

E não se engana: há um tanto de interpretação, de pose, de graça semelhante à porção verdadeira, a do documentário. Personagens e realizadores não escondem a encenação, como no início, quando explicam como se encontraram – ou como não se encontraram. Brincam no espaço do cinema narrativo convencional: o encontro ao acaso, o esbarrar em algum ponto de ônibus, mercado ou padaria.

Os dois chegaram perto de se conhecer, mas não se viram. Brincam com esse efeito da ficção que não esconde a que se presta. E quando correm pelos espaços do Louvre – ela em uma cadeira de rodas, ele a empurrá-la -, reconfiguram o cinema de Godard, um momento mágico de Bando à Parte, em que os francesinhos corriam pelo mesmo local.

Movem-se ao espírito de descoberta, à necessidade de intervenção, sem preocupação alguma em parecerem falsos. É como se dissessem, a todo momento, que a arte dispensa catálogos e explicações, dispensa – no caso do cinema – o romantismo fechado da ficção clássica, no qual os seres existem para fazer o público acreditar que existem.

Varda é talvez a diretora de cinema mais importante da história. Antes de Truffaut ou Godard, antes de Chabrol ou Rivette, ela realizou o filme que antecipa a nouvelle vague, o seminal La Pointe-Courte. Outros trabalhos importantes vieram mais tarde. Em ofício dominado por homens, ela demarcou espaço com histórias intimistas.

Em Visages, Villages, encontra – não substitui – Godard na face de JR. Pede, por isso, que o segundo retire seus óculos e se revele. Pede isso o filme todo. Ao longo das viagens, o espectador conhece um pouco de seu olhar, ou de seu olho, de sua visão sem foco. É como se todo o cinema estivesse morrendo. O cinema que a geração de Varda inventou.

A morte da imagem é representada no rosto sem foco de JR, o rosto como viu a senhora Varda. O cinema passa sempre pelo olho de seu realizador, pela forma como este enxerga. Pouco antes, a cineasta tenta falar com Godard. Vai à casa do gênio recluso e não é atendida. Sofre com a distância do velho amigo, o mesmo que lhe retirou os óculos, em capítulo feliz de Cléo das 5 às 7, ao lado de sua musa Anna Karina.

O cinema mudou, diz Visages, Villages. Nem por isso o passado escapa. O cinema de Varda vive por ali, corre à frente. A praia e as pedras de La Pointe-Courte; os amigos em Cléo das 5 às 7; os girassóis de As Duas Faces da Felicidade; a França profunda em Sem Teto Nem Lei. Enquanto procura novas pessoas, ao lado do novo amigo, a memória não foge.

(Visages, Villages, JR e Agnès Varda, 2017)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
15 grandes rostos da nouvelle vague francesa

Gabriel e a Montanha, de Fellipe Barbosa

O rapaz é ingênuo, às vezes arrogante e idealista, nem sempre fácil de se amar e difícil de entender. Não dá para saber muito – e nem deveria – sobre o protagonista de Gabriel e a Montanha, Gabriel Buchmann, cuja trajetória, inspirada em acontecimentos verdadeiros, dá vida a um filme impregnado de paixão e liberdade.

O diretor Fellipe Barbosa embarca na mesma trilha, passa pelas mesmas pessoas, pelos rostos de gente simples, pela imersão à qual o mesmo Gabriel viu-se lançado, por aproximadamente um ano, em suas viagens. O filme aborda sua passagem pelo continente africano, entre ruelas cheias de pessoas e montanhas com poucas ou nenhuma.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

O Gabriel ingênuo convida o espectador à pena, à forma do menino que tem todas as certezas e, por isso mesmo, antecipadamente, deixa ver o corpo encolhido, sem vida: o menino ingênuo, com vontade de descobrir, de estar em todos os locais a passos largos com a câmera a tiracolo, termina morto porque decidiu viver demais.

A ingenuidade parece parte indissociável dessa corrida, ou dessa viagem, não dessa incursão turística. Gabriel não gostava do rótulo “turista”, ou assim ser chamado. Era um viajante, alguém livre para dormir na casa de companhias de ocasião, para economizar pequenas quantias e até mesmo ajudar os outros, aos quais as mesmas representavam fortunas.

Ou seja, o pouco que se sabe, no belo trabalho de Barbosa, é suficiente: Gabriel não precisa parecer perfeito, muito menos se explicar demais; não precisa se lançar a gestos de redenção, tratar todos muito bem ou sempre fazer o que parece certo; pode ser o errado, o chato da viagem que escapa pela janela e quase perde o ônibus que está partindo.

Pode ser tudo isso sem perder o fascínio preso ao rosto arredondado de João Pedro Zappa, que precisa ser alguém liberto de todas as amarras para traduzir, talvez, quem foi o Gabriel que escala uma montanha para não descer mais, que vive para se perder pelo mundo em estradas estranhas, erráticas, de gente verdadeira e não raro silenciosa.

Gente africana que pede demais, e ainda assim pede pouco. Gente que se torna amiga com facilidade, que aceita se pôr no lugar do outro para ser seu guia, para dividir dias quentes e noites frias em abrigos, pelas montanhas. Enfim, um filme sobre se entregar, sobre estar na pele do outro – no caso de Gabriel, na pele dos africanos; no caso dos nativos, que retornam com lembranças dos momentos que viveram com a personagem central, na pele de um indefinível rapaz aparentemente ingênuo.

Os passos largos de Gabriel seguem à contramão das imagens de sua câmera: se por um lado ele não queria perder tempo e andar rápido para estar em tantos lugares, para se esbaldar em cachoeiras e picos, por outro sua câmera pede a paralisação do tempo. É sua função: eternizar momentos, fixar a imagem, dar ao dono a lembrança do instante.

Estar na câmera ou fora dela. Não à toa, Barbosa ora se volta à câmera no momento do click, ora se volta àquele que está à frente, a ser fotografado: Gabriel. O filme situa-se entre o movimento e a paralisação, entre a recriação da viagem (a ficção) e o encontro com as pessoas que estiveram na mesma, convidadas a reencontrar o homem morto.

Experiência interessante cercada por belas imagens, em um filme que prova o talento de Barbosa, realizador do ótimo Casa Grande. Mais do que tentar reproduzir essa viagem final com fidelidade, o longa sai atrás de um sentido – certo ou não, não se sabe, e isso dependerá do espectador – para a existência do intenso Gabriel.

(Idem, Fellipe Barbosa, 2017)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Era o Hotel Cambridge, de Eliane Caffé

Coração Selvagem, de David Lynch

A confirmação de que David Lynch está levando o espectador a qualquer lugar exceto ao esperado é o que torna Coração Selvagem uma delícia. Nas pequenas situações – como na empolgação, nos chutes e na dança do casal – ou no bolo todo – na trama de perseguição que logo esfarela –, não se pode esperar nada convencional.

Esse filme de estrada inclui um casal em fuga, mas não se sabe para onde. Talvez para algum paraíso perdido, para a família que não tiveram, para o sonho dos tijolinhos amarelos de O Mágico de Oz – clássico sobre o qual a obra de Lynch debruça-se em paralelos e citações, seja pela aparição de uma bruxa má ou de uma bruxa bondosa.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

E talvez aqui com uma nova Dorothy, interpretada com força por Laura Dern, menina distante de Oz. Sua vida é recheada de problemas: sofreu um estupro, perdeu o pai em um incêndio e é filha de uma mãe dominadora. Em um rapaz qualquer – louco por aventuras, violento, fã de Elvis Presley – ela encontra sua forma de escapar.

Ele, vivido por Nicolas Cage, é preso depois matar um homem enviado pela mãe da amada, ainda nos primeiros instantes, ao esmagar seu crânio ao olhar da namorada. O sangue da abertura aponta às intenções de Lynch: a violência vem em doses exageradas, de maneira abrupta, estranha, a atrapalhar os planos do casal.

A essa relação familiar unem-se alguns mafiosos. Também o detetive apático de Harry Dean Stanton, ou a mulher misteriosa, de peruca loura, que veste roupas de couro e se posta em um casebre aos pedaços no meio do deserto, na pela de Isabella Rossellini, a musa do filme anterior de Lynch e talvez sua obra máxima, Veludo Azul.

Como no filme anterior, Coração Selvagem investiga o subterrâneo da sociedade americana. Recorre às moscas, a outros insetos, aos seres que emergem em meio à podridão, sobre o vômito da menina loura que termina uma mulher formada, grávida, em um quarto de hotel barato nos confins dos Estados Unidos. Talvez o espectador relute em acreditar que tal vômito – cujo mau cheiro é citado por mais de uma personagem – pertença mesmo à figura de Dern, a garota perseguida pela mãe.

É, para Lynch, a recriação de O Mágico de Oz como filme de terror: a mulher que se transfigura em bruxa, do mundo real ao imaginário, não está mais fora da casa da menina que cai na estrada. Está agora entre sua família, é sua própria mãe (Diane Ladd). E ora ou outra é possível ver as reações dessa mulher sozinha e desesperada, como no momento em que pinta a face e as mãos com batom vermelho.

Tal cor é constante ao longo do filme, do fogo na casa de Lula (Dern) às cenas de sexo nas quais Lynch parece não se importar em imprimir falsidade. A relação erótica entre o casal dá-se muito mais pelos olhares e expressões – em amor louco – do que pelo contato real. Vivem pelo desejo, alheios (ou quase) à realidade.

Surge também, a certa altura, um enlouquecido Willem Dafoe. De gengiva à vista, dentes pequenos e escuros, monstruoso. É quando se percebe que tudo não passa de uma viagem à liberação dos desejos, uma mistura de repulsa e excitação, como na cena em que Lula e a personagem de Dafoe estão sozinhas no quarto do hotel.

É quando ele tenta arrancar da moça uma breve confissão de seu desejo, talvez apenas um sussurro, ao passo que ela vê-se desarmada perto desse ser repugnante. Ninguém duvida da repulsa dela. É bom não duvidar de que ali exista também algum prazer oculto e inesperado, em comunhão com o universo subterrâneo de Lynch.

(Wild at Heart, David Lynch, 1990)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Identidade, duplos e os labirintos da alma (em 22 filmes)