Doutor Sono, de Mike Flanagan

O alcoólatra transforma-se em um médico espiritual, alento aos que estão entre a vida e a morte: ao invés de esconder o passado com o uso da bebida, Dan Torrance (Ewan McGregor) assume seu poder para promover a passagem ao vale dos mortos, da carne ao espírito. A certa altura, torna-se enfermeiro para pacientes terminais.

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O dom tranquiliza o outro e ele próprio: há, segundo o protagonista, algo do lado dos mortos, à medida que uma fumaça – energia que emana com o espírito – deixa o corpo pela boca. O problema é que Dan, filho de um certo Jack Torrance, terá de dar outro uso para seu próprio dom. Doutor Sono é sobre sua transformação, sua volta ao passado.

O filme de Mike Flanagan tenta ser uma continuação d’O Iluminado de Stanley Kubrick, sobre um menino – o mesmo Dan – que pode enxergar e conversar com os mortos, levado a um hotel cheio de espíritos – o mesmo em que seu pai terminou louco. Flanagan tenta resgatar a aura do filme de 1980 ao mesmo tempo em que se debruça sobre Stephen King, ao mesmo tempo em que espreita a fantasia acessível a um público acostumado a filmes de super-heróis – o que explica o fracasso de Doutor Sono.

King nunca aprovou o que Kubrick fez com seu livro, ainda que seja a adaptação mais lembrada de obra sua para a tela grande. O famoso diretor de Laranja Mecânica não deixou de ser ele próprio, um autor. Flanagan paira entre ambos, entre inconciliáveis.

Dessa mistura vem algo estranho e, em momentos, difícil de classificar. Há realizadores que conseguem lidar bem – e o fazem propositalmente – com a dificuldade de se chegar a alguma classificação. Ao terreno de Flanagan, isso é um problema. É visível, em momentos, a luta para dar vida a algo, como uma aventura paranormal, e não dar em nada.

Seu filme põe-se além do Hotel Overlook, além do espectro do silêncio, do tempo degustado aos poucos – esse implacável reprodutor do medo, como bem sabia Kubrick. Para Flanagan fica a velocidade, essa regra desagradável, obrigação sem sentido senão como subestimação de um espectador que “não pode” parar para contemplar o nada ou sentir o medo pelo tempo – o que faz pensar, de novo, na grandeza de Kubrick.

O tom da correria é dado logo no início, com a apresentação dos vilões. Sobretudo, da vilã, na pele da bela Rebecca Ferguson, ladra quase imortal, alguém que se alimenta do espírito dos iluminados. Com sua trupe, persegue crianças como Dan, agora mais velho, em nova vida, nova cidade, o enfermeiro consciente de seus poderes.

Enquanto os vilões precisam se alimentar de almas para viver para sempre, Dan facilita o fim, a tranquilidade da passagem ao já citado vale dos mortos: de um lado, o paradoxo da destruição que propõe sobrevida; de outro, o reconhecimento de que se deve assumir o término e, de alguma maneira, a coragem de dar adeus ao mundo físico.

Ao perceber que seu dom pode, de novo, provocar dor e problemas, Dan volta a espreitar a bebida; ao retornar ao hotel coberto por neve, túmulo de seu pai, de novo é convidado a alguns goles – exatamente no mesmo salão de festas em que Jack Nicholson riu e embriagou-se com um educado fantasma, e sem precisar pagar nada.

Flanagan escolheu estar com King e Kubrick, mistura que faz do primeiro sua saída ao filme de fantasia e do segundo, sua homenagem a uma obra consagrada. Melhor fez Steven Spielberg em Jogador Nº 1: uma livre brincadeira com personagens de um game, assumidamente feita ao público de massa que adora filmes de super-heróis.

(Doctor Sleep, Mike Flanagan, 2019)

Nota: ★☆☆☆☆

Veja também:
O Iluminado, de Stanley Kubrick

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