Stanley Kubrick

Kubrick segundo Fellini

Kubrick é um grande cineasta e admiro muitíssimo a sua capacidade – guiado pelo sentido que ele tem da imagem, pelo seu grande senso visionário – de variar continuamente de gênero, permanecendo ele mesmo, de Spartacus à ficção científica, da guerra à comédia, ao grande romance inglês. Em comparação a ele, acho que tenho limites bem definidos.

Federico Fellini, cineasta italiano, em entrevista publicada no livro A Arte da Visão – Conversa com Goffredo Fofi e Gianni Volpi (Martins Fontes, pg. 49). Abaixo, Stanley Kubrick nas filmagens de Nascido para Matar.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Veja também:
Fellini segundo Malle

Bastidores: Lolita

O impulso decisivo para sua trajetória independente [a de Stanley Kubrick] veio com Lolita (1962), baseado no romance escandaloso que Vladimir Nabokov havia publicado em 1955 na França. Kubrick e Harris [James B. Harris, o produtor] o leram enquanto estavam envolvidos em Spartacus e concluíram rapidamente que o material era incendiário. Resolveram vender os direitos sobre O grande golpe à Universal para levantar os US$ 150 mil necessários à compra de Lolita e de Gargalhada no escuro, outro romance de Nabokov, com situação semelhante. Ambos temiam que, nas mãos de um aventureiro, Gargalhada fosse adaptado e lançado antes de Lolita, esvaziando o teor polêmico do filme.

Ainda que o resultado da adaptação tenha sido comportado em comparação com o livro, sobretudo em virtude das limitações impostas pelo Código Hays (o código de auto-regulamentação da indústria cinematográfica dos EUA, que vigorou por mais de três décadas, até 1967) e do conservadorismo do grande público norte-americano, Lolita se tornou mais um “filme-evento” cuja bilheteria se beneficiou, entre outros fatores, da reação de conservadores religiosos. De acordo com alguns deles, que espalharam sua mensagem por igrejas de todo o país, os fiéis que assistissem ao filme cometeriam um “pecado”. Nada melhor para a publicidade do filme do que essa sugestão quase irresistível de transgressão.

Sérgio Rizzo, jornalista, crítico de cinema e professor, no site da revista Cult (leia aqui). Abaixo, Stanley Kubrick com a atriz Sue Lyon.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Veja também
Bastidores: De Olhos Bem Fechados

Encontro com Kubrick

Ele tinha me visto em Cabaret e pensava que eu fosse alemã, por causa do meu sotaque no filme de Bob Fosse. Ele ligou para Stanley Donen, que me conhecia muito bem, desde que eu era criança, pois era amigo de meus pais na Suíça. E ele me avisou que Kubrick ia me telefonar, pois queria que eu trabalhasse em seu próximo filme. Quando ele entrou em contato comigo, começou me falando, durante horas, de minha interpretação em Cabaret, com uma riqueza incrível de detalhes. Fiquei tão espantada que não consegui dizer uma palavra! No fim, me disse que estava preparando um filme sobre o século 18, e queria que eu interpretasse uma condessa inglesa, ele me enviaria o livro de Thackeray para que eu lhe dissesse o que pensava dele. Seis meses mais tarde, eu o conheci pessoalmente, quando fui viver em Londres para a preparação do filme. Fiquei lá dois ou três meses para aprender a dançar minueto, a usar um leque à maneira da época, a aperfeiçoar o sotaque de uma aristocrata inglesa, a cavalgar sentada de lado. Depois experimentei as roupas, a maquiagem, a peruca etc. Então ele me pediu para ir à Irlanda, onde se passava a primeira parte do filme, em que eu não aparecia. Fiquei três meses lá, sem filmar nada, e, quando lhe perguntei se podia voltar para casa no Natal, ele me disse para ficar ali, pois poderia precisar de mim no dia seguinte! Queria que seus atores estivessem sempre presentes, caso mudasse de ideia, pois não havia um roteiro totalmente escrito, e todos os dias ele fazia modificações.

Marisa Berenson, atriz, sobre sua entrada em Barry Lyndon, de Stanley Kubrick, em depoimento dado em junho de 1999 e reproduzido no livro Conversas com Kubrick, de Michel Ciment (Cosac Naify; pg. 286).

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Veja também:
Os cinco melhores filmes de Stanley Kubrick

O Primeiro Homem, de Damien Chazelle

As mulheres com frequência servem ao mesmo papel em filmes sobre astronautas: são damas que esperam em casa, que cuidam dos filhos, enquanto os maridos viajam entre a escuridão, por espaços inabitáveis. A mulher de Neil Armstrong em O Primeiro Homem, Janet, tem algo a mais: ao longo da empreitada, ganha voz e força fora do comum.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Isso se dá à medida que o homem fecha-se em sua obsessão, cada vez mais distante do “mundo real”: ele liga-se às máquinas, aos números, aos testes, à possibilidade de voar ao local em que nenhum outro chegou, a lua. À bola escura que enxerga da Terra, da grama verde de seu quintal, para ratificar o desejo de estar lá.

Louis, o primeiro, precisa de alguém que o faça olhar para trás, ver as partes humanas. O espectador também. Nesse sentido, a Janet de Claire Foy é essencial à história que, por algum milagre, escapa à pura exibição técnica, à parafernália, à mais outra investida no reino do som e da fúria a alguns milhares de quilômetros rumo ao infinito.

É preciso, de novo, sob o risco de parecer excessivo, retornar a 2001: Uma Odisseia no Espaço: se em 1968 Stanley Kubrick escapou ao vazio das máquinas com doses de filosofia, sem precisar recorrer às emoções dos homens (petrificados, à exceção do computador Hall 9000), Damien Chazelle precisa agora da mulher, para assim olhar para trás.

Para olhar para a família, para o lar que construiu com o homem de poucas palavras, para os filhos que pedem tudo e às vezes – crianças como são, por isso compreensíveis – produzem o indesejado, barulho, confusão. Coisas de família, do dia a dia, com a mulher ao centro.

Como indica o título, o homem tem sua importância, mas não é suficiente para fazer decolar esse produto cinematográfico classe A. O plano de voo de Chazelle depende tanto da personagem feminina quanto do drama que antecede a missão. Para Armstrong, chegar à Lua é a forma encontrada para enterrar a filha, sua vitória contra a morte.

É reconhecer, para além da grandeza expressa em imagens, a pequenez do homem no universo. Perto de uma cratera lunar ou de olho na Terra que, distante, surge pequena, o astronauta torna-se pouca coisa na imensidão escura. No entanto, é preciso voltar a uma colocação de Armstrong quando entrevistado pelos homens da Nasa: o verdadeiro tamanho do mundo, ou do espaço à frente, está sempre ligado ao ponto de vista.

O patrocínio americano à corrida lunar tinha fundo político. Era preciso derrotar a afronta soviética que levou o primeiro homem ao espaço. Para Armstrong, vivido por Ryan Gosling, tais questões pouco importam. O que está em jogo é sua luta – não sem o empurrão das máquinas – contra o que há de mais previsível em situações como essa: a morte.

(First Man, Damien Chazelle, 2018)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Gravidade, de Alfonso Cuarón

A força de Laranja Mecânica, segundo Anna Muylaert

O Kubrick para mim virou Deus, mas Laranja Mecânica eu não assistia. Até que finalmente o revi e resultou em algo insone, eu não conseguia dormir, é um filme que, para mim, tem todas as qualidades possíveis que uma obra pode ter. Engraçado porque na época em que foi lançado era um filme violento, agressivo, desagradável. E hoje, quando lançaram um DVD comemorativo, a meu ver, pode ser entendido como uma comédia, mas as pessoas não conseguiram entender assim. Os atores falam no DVD: “Nós sabíamos que estávamos fazendo uma comédia, mas não foi entendido assim”. É um filme engraçado e irônico o tempo inteiro.

Aliás, falando em ironia, gosto também dos irmãos Coen.

De certa maneira, acho que todos esses cineastas são filhos do Kubrick e do Laranja Mecânica, um filme que tem uma dose de violência, mas tem uma dose ainda maior de ironia. Acho que Tarantino é um filho direto do Laranja Mecânica. Porque Kubrick fez filmes seminais, um de cada gênero.

O Steven Spielberg é filho de um lado do Kubrick, não do Laranja Mecânica, mas Tarantino e os irmãos Coen, por exemplo, acho que vêm diretamente do Laranja. E fui entendendo quanta informação tem nesse filme, cada cena é um filme inteiro, se você tirar só uma cena você já pode discutir horas, cada uma tem unidade própria. Sem falar no nome do filme que traz em si uma contradição, o orgânico mecânico, que num primeiro momento parece sem sentido, mas na verdade já era uma discussão visionária, de um momento que estamos vivendo agora, da presença maciça das máquinas no nosso cotidiano, também o tema de 2001.

Anna Muylaert, cineasta, em seu depoimento ao projeto Os Filmes da Minha Vida, que ocorre junto à Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, publicado no quinto livro do projeto, Cinema é Sonho (organização de Renata Almeida; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo; pgs. 15 e 16). Abaixo, Malcolm McDowell em Laranja Mecânica.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Veja também:
Vídeo: Por que Laranja Mecânica continua tão forte?