Stanley Kubrick

Oito ficções científicas sobre jornadas ao desconhecido

O contato do homem com o desconhecido – o que pode ser definido como uma força alienígena – é tema recorrente em filmes de ficção científica, como se confere na lista abaixo. Em muitos casos, o que se vê é o descortinar de si próprio, mais que o do outro, o alienígena que tem o espaço invadido e nem sempre é vilão.

Planeta Proibido, de Fred M. Wilcox

Sob a carcaça do típico filme de ficção científica dos anos 50 há questões inquietantes: no espaço, em um planeta distante, homens tentam criar uma sociedade capaz de realizar suas vontades apenas com o poder da mente, envolvendo paz e justiça. Mas, como se sabe, as realizações nem sempre acompanham os desejos.

2001: Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick

Três momentos, três histórias, um salto na evolução que liga o fim ao início. Há muitas maneiras de descrever essa obra-prima sobre o homem rumo ao contato com uma força superior. Em viagem final, dois astronautas confrontam um computador fora de controle, em um duelo pelo controle da própria nave.

Contatos Imediatos do Terceiro Grau, de Steven Spielberg

O homem em questão, vivido por Richard Dreyfuss, fica fascinado pela presença alienígena que cruza os céus, pelas luzes que sobrevoam seu veículo a certa altura. Sai atrás dessa força na companhia de uma mulher cujo filho foi abduzido. Está disposto a deixar tudo para trás para embarcar na grande nave e ir embora.

Stalker, de Andrei Tarkovski

Três homens – um stalker, um cientista e um escritor – entram em uma região fechada pelo governo, chamada de Zona. Nesse espaço – no qual o verde contrasta a imagem sépia do que fica de fora – há outro espaço, o quarto, no qual os desejos humanos podem ser realizados. À beira desse espaço, os homens veem-se paralisados.

O Segredo do Abismo, de James Cameron

Antes de “conquistar o mundo” com Titanic e Avatar, e pouco depois do primeiro Exterminador do Futuro e do segundo filme da série Alien, Cameron assinou esse filme sobre um grupo de mergulhadores que descobre uma força alienígena no fundo do oceano. Há espaço ainda para a intriga entre humanos e uma história de amor.

Contato, de Robert Zemeckis

Uma ficção científica em que a possibilidade de se encontrar uma crença sobrepõe o ceticismo. E uma frase sempre lembrada dá o tom do filme: “seria um desperdício de espaço se não houvesse vida fora da Terra”. Os humanos recebem uma mensagem alienígena. A cientista vivida por Jodie Foster tenta respondê-la.

A Chegada, de Denis Villeneuve

Dessa vez é uma linguista quem deve se aproximar dos alienígenas. Certo dia, diferentes naves com formato de concha surgem no planeta. Os americanos recorrem ao conhecimento da personagem de Amy Adams, cujo avanço ao interior da nave, cada vez maior, faz com que descubra a si mesma, como também seu futuro.

Aniquilação, de Alex Garland

A bióloga interpretada por Natalie Portman vai a uma região sob efeitos alienígenas, afastada, chamada de Brilho. Do local, seu marido militar retornou perturbado. O que ela descobre é que, em contato com o ambiente, seres vivos sofrem mutações e a vida obedece novas regras. Do mesmo diretor de Ex_Machina: Instinto Artificial.

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2001: Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick

Os milhões de anos que separam o macaco da inteligência artificial – com o homem entre essas pontas – não foram capazes de anular algumas semelhanças. Na “aurora do homem”, os macacos em questão se dividem em grupos e brigam por uma porção d’água; à frente, na viagem ao infinito, homem e máquina duelam pelo controle de uma nave.

Lutam, nos dois casos, pelo controle do território. Antes, entre iguais – mas nem tanto. Depois, entre diferentes – mas nem tanto. Pelas falsas aparências é possível enxergar alguns dos elementos que justificam a grandeza de 2001: Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick, autor do roteiro em parceria com o escritor Arthur C. Clarke.

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Os macacos dessa aurora selvagem se distanciam dos outros pelo poder que adquirem. Tomam o osso, o futuro, constituem uma linhagem que logo se vingará do grupo rival. Até mesmo política, é possível argumentar, faz-se ali: ganha forma o poder do grupo. E os vencedores tomam a pequena região em que está a porção d’água.

O osso é a arma, a primeira. O osso converte-se na estação espacial, na nave, antes na máquina que circula pelo espaço. O osso converte o macaco em homem, aos poucos, à medida que este aprende a matar: o objeto é ao mesmo tempo sua relação com a desgraça futura (a morte, o poder) e o sinal do “progresso” (a ferramenta, a máquina).

Na terceira parte de 2001, passada no espaço, Kubrick oferece a batalha entre homem e máquina: o astronauta confronta o computador que “não falha” após ameaçar desligá-lo. Como os andróides de Blade Runner, o computador HAL 9000 aprendeu a gostar da vida. Deseja viver mais. Não quer ser desligado. Deverá aniquilar os homens da nave.

Enquanto alguns macacos “evoluem” pelo poder que adquirem, o computador é reduzido, em sua derrota, ao nível do homem: será, em 2001, a personagem mais humana, de quem fica a voz, o tom calmo, a clemência, a dor – tudo expresso pela fala de Douglas Rain. Em um filme que prescinde de diálogos, estes serão a evocação máxima da vida.

Outra história, entre as já citadas, mostra o contato de homens, na Lua, com uma força alienígena, o monólito que retornará em outros pontos do filme. Os homens, na cratera lunar, observam o grande objeto preto e, como os macacos, ousam tocá-lo. A contemplação dá vez ao som forte, desagradável, que pode ser um sinal a outro planeta.

O monólito é o alienígena sem forma, a vida sem vida, a maneira que Kubrick encontrou – entre tantos acertos – para imortalizar a imagem do “outro”. Ou simplesmente deixar à criatividade de cada um a vida possível que, no objeto preto e grande, não se vê. Seu enigma é justamente não parecer nada, não inspirar nada. Enigma em si mesmo.

Aos macacos, dá o caminho: de baixo para cima, a câmera mostra a luz do sol no alto do mesmo monólito. É como se apontasse ao espaço, ao infinito. Ao encarar o alienígena, os macacos talvez encontrem ali o primeiro sinal de adoração a um ser superior, ou aquilo que, mais tarde, converter-se-ia em devoção religiosa, a uma determinada imagem.

O objeto preto retorna. O filme é uma volta completa pela existência: do macaco ao feto-estrela, do osso à nave, da aurora do homem ao crepúsculo em um cômodo que mescla móveis da monarquia francesa com traços futuristas, entre naves e taças de cristais. O monólito surgirá ali, imponente, sem nada senão seu enigma natural.

Da aurora ao renascimento, os seres em questão são transformados por essa força superior. O computador morre pelo caminho, com toda sua humanidade, por isso mesmo cruel e indiferente às vidas que o cercam. O homem persiste, renasce no feto-estrela. Não se sabe o que vem depois. Vê-se, diferente do que ocorre em todos os filmes de Kubrick, um encerramento otimista. A nova vida regressa a Terra.

(2001: A Space Odyssey, Stanley Kubrick, 1968)

Nota: ★★★★★

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Monólitos da vida real

O monólito de 2018 está acoplado ao corpo humano, quase uma extensão dos membros superiores. Aparelhos celulares e tablets que têm se mostrado fonte de tristeza, solidão e discórdia, muito mais do que de iluminação.

A semelhança do iPhone com o monólito só não é mais assombrosa porque Steve Jobs e seus colegas são fruto da cultura que bebe consciente ou inconscientemente em Kubrick. É uma geração que conheceu 2001 ainda criança e que carrega o filme em seu imaginário.

No enredo do longa, a equipe que avista o misterioso objeto negro na Lua, procurando manter segredo sobre a descoberta, inventa a história de que haveria uma epidemia na base lunar. No episódio inicial do filme, o efeito do monólito nos símios é epidêmico: o primeiro animal transforma o osso em ferramenta/arma, e não tarda para que seja imitado pelos outros.

O paralelo com a atualidade salta aos olhos: adultos, jovens e crianças vivem afundados nesses monólitos portáteis, com consequências que vão de epidemias de obesidade, depressão e suicídio até atentados com armas.

Helen Beltrame-Linné, editora-adjunta da Ilustríssima, no caderno Ilustríssima (Folha de S. Paulo; 01 de abril de 2018). Leia aqui o texto completo (para assinantes). Abaixo, três momentos de 2001: Uma Odisseia no Espaço em que surge o monólito alienígena.

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