O Homem de Palha, de Robin Hardy

Por insistência, o público deverá ignorar as suspeitas, acreditar que o sacrifício, ao fim, não será consumado. O público prefere o erro, engana a si mesmo. Prefere o conforto das certezas que o protagonista emite, o cristão com seu deus “certo”, com suas orações e, é verdade, seus medos. Aceita o erro para tentar achar a saída.

Pois o que menos se tem é conforto em O Homem de Palha. Seu protagonista, policial escocês, ampara-se antes na religião, depois na lei. Deus, depois os homens. Caminha por uma ilha distante após pousar ali, sobre as águas, com seu avião. Entra para não sair mais, para fracassar na missão de entender – ou repelir – o “outro”.

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O que é necessário saber sobre o sargento Howie (Edward Woodward) resume-se aos primeiros momentos, quando se encontra em espaço confortável, na igreja, entre cristãos. Na ilha – à qual é enviado para investigar o desaparecimento de uma adolescente -, termina entre a incerteza, do outro lado, a assistir rituais pagãos.

Belas mulheres com pouca ou nenhuma roupa, jovens fazendo sexo sobre o gramado, danças e saltos de moças nuas sobre a fogueira, ensinamentos nada conservadores no interior da escola (para meninas) e a dança à volta do grande instrumento fálico, no jardim externo (para meninos). Ninguém sabe nada da garota sumida. Ele insiste.

Insiste em permanecer no ambiente ao qual não pertence. O espectador é guiado por esse olhar de fora, pela força que pouco a pouco converte-se em medo, apequena-se. O diretor Robin Hardy, a partir do texto de Anthony Shaffer, explora o pavor gerado pela incompreensão das crenças alheias, pela impossibilidade de aceitação, de coexistência.

O homem de fora, o policial, a lei, a ordem, tudo em um só. Poderia ser outro, talvez um visitante qualquer, e bastaria isso para que o efeito não fosse o mesmo: o filme de Hardy depende do confronto entre a ordem e a libertinagem, ao mesmo tempo entre duas religiões, o cristianismo que ali, na ilha, já foi testado (e não funcionou) e a crença alimentada por deuses, responsáveis por “conceder” fruto aos famintos.

Não há um lado certo. Há apenas o confronto que, como se sabe, a começar pelo título, leva ao gesto louco, ao gigante homem de palha que abriga a morte, o fogo, o ponto final para o homem cujo autoritarismo a nada serviu. Termina sob o calor, sob a oração que ainda salta de seus instintos, sobretudo de seus medos. Ali, à beira da morte, tem apenas Deus – o que para qualquer cristão, claro, não é pouco.

O policial confronta o lorde Summerisle, dono da ilha, colonizador de terras e mentes. Dono do papel, Christopher Lee pode ser tão sincero quanto louco, tão realista quanto o vilão esperado para um filme de espíritos e castelos assombrados. Com cabelo ao alto, será o dono da celebração do início de maio, ao fim, com a chegada das chamas.

O protagonista parece ter esquecido que sua igreja, em décadas anteriores, praticou atos parecidos. Muita gente queimou na fogueira, em outras circunstâncias, na tentativa de se expurgar o mal, purificar a terra, conquistar alguma prenda divina. O policial não passa de um tolo, virgem, a quem resta incompreensão sobre o mundo ao redor.

Não há saídas fáceis em O Homem de Palha, grande filme sobre as consequências do fanatismo, da mentira compartilhada, circunscrita ao espaço de senhores simpáticos, crianças angelicais, gestos obscenos, belas mulheres que batem à porta do visitante, nuas do lado de fora, à espera de um sinal de libertação.

(The Wicker Man, Robin Hardy, 1973)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
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