Hausu, de Nobuhiko Ôbayashi

A tela tem os cantos borrados de verde, depois é tingida pelo amarelo. À frente, cortes rápidos são lançados ao espectador, mesclados com outras cores, com animação, com trucagens de todas as naturezas. A aparente bagunça ainda deixa ver alguma harmonia em Hausu, sobre meninas isoladas em uma casa de campo.

O artificialismo nunca é negado, levando às bordas do psicodélico: a metamorfose faz o filme de verão adolescente dar vez ao terror, de maneira abrupta, para, em outros momentos, convocar o sonho, uma não improvável mistura. Vez ou outra ainda sobram momentos cômicos, o horizonte de cores tão vibrantes quanto as de O Mágico de Oz.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

O filme pode ser descrito como a história de uma menina que deseja reencontrar a mãe morta para se vingar da jovem madrasta. Talvez para matá-la e, assim, reconquistar o pai, o criador, por quem é apaixonada. Para tanto, embarca nessa viagem de férias como menina, e retorna – após doses de terror – como mulher, então possuída por um espírito.

A alma atormentada é a da tia, que talvez ocupe o corpo da gata, seu animal de estimação, Blanche. O bicho deixa ver olhos verdes: observa tudo, por todos os cantos, além de dar vez à pintura na parede. O animal misterioso observa o horror. Dele nada escapa, a quem o espectador segue em busca de respostas, mesmo com sua indiferença.

A tia é mais velha do que parece, de peruca branca, cadeira de rodas, interpretada por Yôko Minamida. A protagonista ficou sem visitar essa casa afastada, cercada pela floresta e à qual se chega por trem, durante anos. Seu retorno coincide com a entrada da puberdade, com a confrontação à bela madrasta: a imagem inegavelmente cinematográfica do sonho feminino, angelical, de cabelo soltos, que à protagonista oferece seu lenço.

O encontro com o pai e essa substituta é filmado todo sob iluminação e fundo artificiais, à frente do vidro da porta. O paraíso pintado pelo inventivo diretor Nobuhiko Ôbayashi acompanha o impedimento da estrutura, o vidro distorcido entre o qual decorre a ação. Há um sentimento de algo inatingível, distante, adulterado.

A menina (Kimiko Ikegami) não quer a outra mulher, levada a ela, pelo pai, como a nova mãe. Seus planos para as férias mudam, os das amigas também. Juntas, elas seguem à já citada casa da tia. Perto dela, um homem estranho, gordo, vende melancias; uma das amigas, comilona, decide comprar o fruto pesado.

Mais que personagens, as meninas são representações: há entre elas a lutadora, a nerd, a musicista e a personagem central, descrita como “bonita” ou “anjo”. A casa tem um esqueleto no canto da parede. Mais tarde ele toma vida e começa a dançar. Ratos continuam por ali, apesar do gato observador. O poço, do lado de fora, é usado para guardar a melancia, também para fazer emergir a cabeça cortada da primeira menina morta.

Como a protagonista, a tia está à espera de seu grande amor, com quem deveria ter casado. O homem foi para a guerra e não retornou. Hausu – seja na esfera da jovem que ama o pai, seja na do espírito atormentado à espera de outro – guarda histórias de amor. Para contar o que se deu no passado, na história daquela família, Ôbayashi recorre ao preto e branco, à forma do cinema clássico japonês, à memória dos tempos de guerra.

Longe, portanto, das cores explosivas deste experimento de terror, deslocado à comédia ou segundo as necessidades do autor. Filme original e propositalmente estranho, um pouco como a juventude: mescla os medos aos desejos, o isolamento à necessidade de ocupar um espaço, amar alguém, ser alguém, ver o reflexo no espelho, o fogo que consome.

(Idem, Nobuhiko Ôbayashi, 1977)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
George A. Romero (1940–2017)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s