Mãe!, de Darren Aronofsky

Deus, vaidoso e permissivo, deixa os outros – Adão e Eva, Caim e Abel, ou mesmo a humanidade, a turba fora de controle – invadirem a casa isolada. A casa em que vive, construída, ou reformada, por sua mulher, Terra. O resultado dessa invasão, com toques de terror, descamba aos conflitos, à guerra, ao fogo. Ao fim.

Esse possível resumo de Mãe!, de Darren Aronofsky, deixa ver um pouco do mundo real e da crítica à religião. Desde o título, gravita em torno da mulher, da mãe, representante ao mesmo tempo dos sentimentos e do medo, dona de reações adversas, de alguma consciência contra a onda externa (inerente ao mal), ao mesmo tempo dona de perguntas bobas.

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A mulher, vivida por Jennifer Lawrence, não sabe o que ocorre por ali. Como se a Terra fosse o único abrigo possível, do qual emana a vida, ao mesmo tempo o alvo em potencial. A turba quer Deus, aqui chamado de poeta, ser estranho, distante, que nada deixa ver – ou pouco, como a vaidade, o cinismo, sob os trejeitos conhecidos de Javier Bardem.

A mulher em cena é como uma criança: não tem poder sobre os outros, nem sobre o marido nem sobre qualquer convidado. Seus pedidos não são atendidos. Como uma criança, resta gritar a alguém, pedir socorro, ver o mundo como algo invertido: o que aos adultos parece normal a ela – e ao público – parecerá aberração. Resta a ela pedir ajuda: “mãe!”

Mas os homens, do lado de fora, desejam apenas o pai. Talvez esteja aí a mensagem desse filme descontrolado, barulhento, escuro e trêmulo de Aronofsky: os homens precisam de líderes (carnais ou espirituais), precisam de palavras e imagens, de crenças, de livros para se apoiar, menos da mãe que oferece a vida e o acolhimento.

Homem e mulher vivem em uma casa isolada. Não há mais do que mata para fora de seus espaços. Os visitantes – primeiro um homem e uma mulher, depois os filhos – chegam sem avisar. Ninguém os conhece. Sabem do poeta, não de sua mulher. O homem, médico interpretado por Ed Harris, admira o trabalho do poeta e está à beira da morte; a mulher (Michelle Pfeiffer) entra sem pedir, escolhe um quarto, dá palpites.

A gravidez é a consequência natural. O terror está na dificuldade de a turba lidar com esse produto divino, com a vida, levada pela idolatria: tem nas mãos o filho de Deus e da Terra e, claro, termina por matá-lo, por comê-lo, por deixar seus pedaços sobre algum lugar supostamente santo aos olhos de todos. A mãe-Terra rebela-se.

Não há seres reais no filme de Aronofsky. São representações. A humanidade – tal como partes importantes de sua história – é confinada na casa. O espaço não está terminado. A mãe investe contra suas paredes, decora, enxerga em seu interior o batimento da vida, em vermelho, talvez um coração prestes a se trancar em cinzas.

Ao parar de bater, esse coração por trás da parede, a ser visto pela mulher que tenta segurar as estruturas e o que elas abarcam, aponta à chegada do fim. Inevitável também: tudo, prevê o espectador, terminará em mais barulho, mais violência, ao passo que as representações correm pela tela, como se gritassem: “vejam os erros, são tantos!”.

O diretor passa do mistério à irritação, do existencial à necessidade de pregar peças no público. Há muito e nada a entender, a descobrir, pois se o texto parece instigante e o criador ousado, o resultado declina a um cinema de baixa qualidade, feito de aproximação extrema, de tropeços e sacudidas, de barulho, de perguntas infantis.

Lançar uma personagem alheia à verdade soa golpe baixo. A última a saber, a primeira a sofrer. O todo arrasta-se a perguntas naturalmente sem respostas, para dizer, ao fim, que a humanidade não deu certo e que Deus, com outra mulher, tentará de novo. Precisa de sua inspiração para escrever poesia, para dar à luz seu filho devorado.

(Mother!, Darren Aronofsky, 2017)

Nota: ★★☆☆☆

Veja também:
Raw, de Julia Ducournau

2 comentários

  1. Que crítica insensível e idiota. Esse filme apresenta diferentes camadas e fortes atuações. Lamentável sua visão rasa e leviana, mas hoje em dia é assim né? As pessoas tem preguiça de pensar…

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