Christopher Lee

Nocturno 29, de Pere Portabella

Os cortes estabelecem uma continuidade visual descarada. Chega a parecer bobo, uma brincadeira, uma provocação em Nocturno 29, obra de Pere Portabella feita para não fazer sentido. Isso, claro, quando se pensa no oposto: a narrativa convencional, sua construção de personagens e os obstáculos e conflitos por um universo determinado.

Nesses moldes, no que parece um contraexemplo, Portabella oferece uma janela para se compreender o cinema e suas possibilidades: interessa mais o fluxo que surge da junção de imagens, ou do deslocamento das personagens pelo quadro, menos uma história a agarrar, que empurre o espectador à transparência. É, em certo sentido, surrealista.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Na continuidade descarada, promovida pela montagem, a chaminé de uma fábrica dá vida ao charuto de um homem qualquer, a campainha transforma-se em mamilo, a máquina leva à roda do veículo, cromada, pela rua. Somam-se uma mise-en-scène cuidadosa, a fotografia granulada, as faces verdadeiras. O resultado faz saltar algo novo, ousado, de regras próprias.

Difícil, quando se fala em surrealismo, não pensar nas experiências iniciais de Buñuel com Salvador Dalí, o fluxo à contramão do sentido. Mas Portabella espreita o fio da história, deixa possibilidades, ligações. Suas transições de um quadro para outro são mais leves que as de Buñuel, convite a um sonho prazeroso, do qual não se escapa com facilidade.

O cineasta espanhol flerta com o primitivismo latino-americano da época, a fúria do cinema novo, e chega a flutuar, não raro, como um Fellini, em sonhos e desespero, voltas pelo terror, senhores indolores, mulheres misteriosas. Portabella filma o movimento, a continuidade, indiferente ao sentido que se espera de personagens e situações.

No início, a película queima após o encontro de um casal em local isolado. O filme é revelado, sua fragilidade aparece. O espectador está no cinema. O calor consome a película, aniquila-a. O homem, o primeiro a surgir em cena, vem do fundo, da paisagem, e caminha à frente. O plano-sequência é extraordinário, dá uma ideia do que se reserva.

Há em cena a mulher misteriosa (Lucia Bosé) que sai de uma grande casa, que vê um homem urinar em seu muro, que trata a pele com cremes, que toca a máquina para fazê-la funcionar – como se todo o filme esperasse por esse toque. E há também o homem que se embrenha entre contadores frenéticos, que usa peruca para invadir um cofre.

Desconhecido para muitos, Portabella merece menção. Em Revolução do Cinema Novo, é citado uma única vez por Glauber Rocha, que vivia em profunda conexão com cineastas europeus no fim dos anos 60 e começo dos 70 – nomes como Bertolucci e Jancsó. Para Glauber, Portabella é, à época, “o mais importante cineasta independente da Espanha”. Em conversa com o brasileiro, o espanhol disse que fazia filmes com pouco dinheiro e sonhava com o momento em que todos poderiam fazer o mesmo com facilidade, com pequenas máquinas portáteis, filmes magnéticos, cassete.

Em 1971, Portabella fez Cuadecuc, vampir, a partir dos bastidores e do “furto” de outro filme, o Conde Drácula de Jesús Franco. Entre imagens de encenações e descontração do elenco – que inclui Christopher Lee, Klaus Kinski e Herbert Lom – nasce um filme experimental calcado na ausência de diálogos, na captação direta do horror, no misto constante entre realidade e ficção. Outra forma de revelar o dispositivo, talvez mais eficaz que a película em chamas: ponto em que vida e filme são uma só coisa.

A economia é visível em obras experimentais como Nocturno 29 e Cuadecuc, vampir. Nelas, não há nada para compreender, tampouco para não compreender. Necessário se deixar levar pela experiência, sem surpresas e esconderijos: a colagem de movimentos, a pulsação de um cinema que não esconde sua natureza, seus cortes e truques.

(Idem, Pere Portabella, 1968)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Identidade, duplos e os labirintos da alma (em 22 filmes)

Três filmes de terror de 1973 que superam O Exorcista

Em 1973, William Friedkin fez seu filme mais famoso, comum em listas do gênero horror: O Exorcista, da obra de William Peter Blatty. Até hoje é referência, ainda que suas qualidades não estejam à altura do barulho que causou. Abaixo, como livre provocação, seguem três filmes melhores que o de Friedkin e também de 1973.

Inverno de Sangue em Veneza, de Nicolas Roeg

Casal viaja para Veneza após perder a filha. O marido (Donald Sutherland) trabalha com restauração de arte sacra e a mulher (Julie Christie) acompanha-o nessa jornada que envolve mistérios e talvez espíritos. Pela cidade de vielas escuras e barcos, eles passam a crer que o espírito da filha está por ali. O melhor filme de Roeg.

O Homem de Palha, de Robin Hardy

Filme extraordinário sobre um policial (Edward Woodward) que vai a uma ilha isolada para investigar o desaparecimento de uma garota. Conservador, ele depara-se com uma população liberal, com hábitos estranhos, e logo percebe que sua vida está em perigo. Christopher Lee rouba a cena como um lorde local.

Lisa e o Diabo, de Mario Bava

Um dos melhores filmes do mestre do horror italiano tem Telly Savalas como o Diabo e a sensual Elke Sommer como sua presa. Impressiona o tom delirante empregado por Bava. Os produtores reeditaram a obra para lançá-la nos Estados Unidos, onde ganhou o título A Casa do Exorcismo, para tentar pegar rabeira no sucesso de Friedkin.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Veja também:
A Maldição do Demônio, de Mario Bava

O Homem de Palha, de Robin Hardy

Por insistência, o público deverá ignorar as suspeitas, acreditar que o sacrifício, ao fim, não será consumado. O público prefere o erro, engana a si mesmo. Prefere o conforto das certezas que o protagonista emite, o cristão com seu deus “certo”, com suas orações e, é verdade, seus medos. Aceita o erro para tentar achar a saída.

Pois o que menos se tem é conforto em O Homem de Palha. Seu protagonista, policial escocês, ampara-se antes na religião, depois na lei. Deus, depois os homens. Caminha por uma ilha distante após pousar ali, sobre as águas, com seu avião. Entra para não sair mais, para fracassar na missão de entender – ou repelir – o “outro”.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

O que é necessário saber sobre o sargento Howie (Edward Woodward) resume-se aos primeiros momentos, quando se encontra em espaço confortável, na igreja, entre cristãos. Na ilha – à qual é enviado para investigar o desaparecimento de uma adolescente -, termina entre a incerteza, do outro lado, a assistir rituais pagãos.

Belas mulheres com pouca ou nenhuma roupa, jovens fazendo sexo sobre o gramado, danças e saltos de moças nuas sobre a fogueira, ensinamentos nada conservadores no interior da escola (para meninas) e a dança à volta do grande instrumento fálico, no jardim externo (para meninos). Ninguém sabe nada da garota sumida. Ele insiste.

Insiste em permanecer no ambiente ao qual não pertence. O espectador é guiado por esse olhar de fora, pela força que pouco a pouco converte-se em medo, apequena-se. O diretor Robin Hardy, a partir do texto de Anthony Shaffer, explora o pavor gerado pela incompreensão das crenças alheias, pela impossibilidade de aceitação, de coexistência.

O homem de fora, o policial, a lei, a ordem, tudo em um só. Poderia ser outro, talvez um visitante qualquer, e bastaria isso para que o efeito não fosse o mesmo: o filme de Hardy depende do confronto entre a ordem e a libertinagem, ao mesmo tempo entre duas religiões, o cristianismo que ali, na ilha, já foi testado (e não funcionou) e a crença alimentada por deuses, responsáveis por “conceder” fruto aos famintos.

Não há um lado certo. Há apenas o confronto que, como se sabe, a começar pelo título, leva ao gesto louco, ao gigante homem de palha que abriga a morte, o fogo, o ponto final para o homem cujo autoritarismo a nada serviu. Termina sob o calor, sob a oração que ainda salta de seus instintos, sobretudo de seus medos. Ali, à beira da morte, tem apenas Deus – o que para qualquer cristão, claro, não é pouco.

O policial confronta o lorde Summerisle, dono da ilha, colonizador de terras e mentes. Dono do papel, Christopher Lee pode ser tão sincero quanto louco, tão realista quanto o vilão esperado para um filme de espíritos e castelos assombrados. Com cabelo ao alto, será o dono da celebração do início de maio, ao fim, com a chegada das chamas.

O protagonista parece ter esquecido que sua igreja, em décadas anteriores, praticou atos parecidos. Muita gente queimou na fogueira, em outras circunstâncias, na tentativa de se expurgar o mal, purificar a terra, conquistar alguma prenda divina. O policial não passa de um tolo, virgem, a quem resta incompreensão sobre o mundo ao redor.

Não há saídas fáceis em O Homem de Palha, grande filme sobre as consequências do fanatismo, da mentira compartilhada, circunscrita ao espaço de senhores simpáticos, crianças angelicais, gestos obscenos, belas mulheres que batem à porta do visitante, nuas do lado de fora, à espera de um sinal de libertação.

(The Wicker Man, Robin Hardy, 1973)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Ádua e Suas Companheiras, de Antonio Pietrangeli

Dez filmes delirantes com personagens aprisionadas

Filmes surrealistas ou do gênero terror apostam, ora ou outra, em personagens aprisionadas a algum local, ou a alguma condição. Não raro, o surreal também abarca o horror. Os resultados podem ser surpreendentes, como mostram alguns filmes da lista abaixo, de países e tempos variados, de diretores diferentes entre si.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

O Processo, de Orson Welles

Os labirintos de Kafka servem à perfeição ao realizador de Cidadão Kane. O resultado é um de seus melhores filmes, sobre um rapaz que é acusado sem saber do que se trata a acusação. Nesse meio, talvez seja culpado. Todos são culpados de algo, alguns já nascem assim. Um pouco futurista, um pouco no terreno do terror.

O Anjo Exterminador, de Luis Buñuel

Os criados deixam a grande casa com pressa. Os burgueses veem-se sozinhos e presos, por dias, para em seguida assistirem à própria degradação. Por algum motivo inexplicável, não conseguem mais escapar da casa. Os dias passam. Vem o mau cheiro, a selvageria, o inesperado, a necessidade de sobreviver à reclusão.

Repulsa ao Sexo, de Roman Polanski

A bela e jovem Catherine Deneuve logo se tornaria uma estrela, nos anos 60, época em que realizou o ousado filme de Polanski. Na trama, a moça é deixada sozinha em seu apartamento após a irmã sair em viagem. Sexualmente reprimida, ela é “atacada” pelos delírios e investe contra as forças que desejam penetrar seu espaço.

O Enforcamento, de Nagisa Oshima

A intenção era matar o condenado à morte, colocado na forca e visto pela plateia à espera de seu fim, no Japão. Mas o coreano em questão sobrevive. O que fazer, então, com essa execução fracassada, a cerimônia que não deu certo? Na obra-prima de Oshima, os carrascos com supostos bons modos deliram, presos, à volta do condenado.

Imagens, de Robert Altman

O mestre Altman teria bebido na fonte de Quando Duas Mulheres Pecam, de Ingmar Bergman, para compor esse filme original e exigente, sobre uma mulher que passa a ter delírios, em uma casa afastada. Por ali, ela, vivida por Susannah York, recebe estranhas visitas – ou imagens -, como a do namorado morto e a de uma criança.

O Homem de Palha, de Robin Hardy

Policial católico investiga o desaparecimento de uma menina em uma ilha na Escócia. O local é propriedade particular de uma espécie de bruxo hippie, vivido por ninguém menos que Christopher Lee. O suposto paganismo – ou a libertinagem – confronta o policial quadradão e impotente, que entra na ilha para não mais deixá-la.

Alice, de Claude Chabrol

Grande filme nem sempre lembrado do mestre francês, com a musa Sylvia Kristel. Inspirado em Lewis Carroll, aborda a entrada de uma mulher à grande casa que encontra, por acaso, enquanto viaja de carro. Embrenha-se no espaço verde, ultrapassa os muros, conhece a casa – e desses ambientes demora a escapar.

Hausu, de Nobuhiko Ôbayashi

Delirante, entre a comédia e o horror, sobre uma menina que viaja, nas férias, para a casa da tia. Com as amigas, vê-se presa ao local. Coisas estranhas acontecem: esqueletos dançam, o piano ganha vida, um gato observa, espíritos rondam o local. Espera-se qualquer coisa desse grande filme japonês, à exceção do convencional.

Anticristo, de Lars von Trier

A morte do filho, no início, é paralela ao gozo sexual, à penetração. O agitador Lars é pouco chegado às concessões. Para muitos, seu filme soa indigesto, com cenas fortes, incluindo momentos de mutilação. Animais ganham voz. Homem e mulher, o casal, são presos à floresta, ao local chamado de Éden, e terminam em inevitável embate.

Mãe!, de Darren Aronofsky

Mais um casal isolado. É a nova aposta de Aronofsky no campo das representações religiosas, na casa-planeta convertida em labirinto, em prisão, ou na mulher que não entende as estranhas visitas ao local. O marido, um deus permissivo, estranho, deixa que o local seja povoado por convidados. Tudo, claro, descamba ao horror.

Veja também:
Dez filmes que questionam regras sociais e religiosas

Christopher Lee (1922–2015)

A morte de Christopher Lee fez retornar a imagem do ator em suas personagens mais populares, em filmes de Tim Burton, Peter Jackson e George Lucas, além de sua famosa caracterização de Drácula. Abaixo, a imagem de um trabalho nem sempre lembrado, o curioso O Chicote e o Corpo, de Mario Bava, no qual Lee retorna como espírito para atormentar sua amante.

o chicote e o corpo