Aftersun, de Charlotte Wells

Ainda que tentemos compreender a relação pai e filha como natural ao longo de Aftersun, algum estranhamento é posto. A carapaça ganha espaço: o pai precisa se esconder, ocultar as próprias dores, e a filha nunca o enxerga por completo. Com o filme caseiro de viagem, em vídeo, a filha tenta encontrar o pai e, para ela e para nós, restam lacunas.

O trabalho de Charlotte Wells chega a ser algo raro: um filme de mistério sobre a vida cotidiana. Aguardamos por um choque, por um susto, por um acidente ou revelação. E a “vida comum” não devolve nada senão seu próprio mistério: para a estabilidade das relações, precisamos manter nossos esconderijos em pleno funcionamento.

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Do contrário, chegaríamos ao rompimento. E no plano em que Wells opera é importante manter o mistério pelo simples fato de ser vivido por pessoas diferentes, ainda que tão próximas. Um pai e uma filha. Um homem não com plenos poderes, não totalmente maduro no que podemos ver, e uma pré-adolescente fazendo descobertas.

Fosse outro, mais forte, talvez ele dissesse algo. Talvez. E ela, fosse um pouco mais velha, como veremos depois na mulher que assiste aos vídeos, talvez questionasse o que não ousaria antes – ou o que, à época, nem passou pela cabeça. Vemos nela mais uma criança do que uma adolescente. O drama – ou anti-drama – nutre-se dessa dificuldade de romper com o que, entre duas pessoas, é sagrado: as boas relações, os papéis estabelecidos.

Mesmo se tratando de um anti-drama, de um mistério da “vida comum”, há aqui um clímax. Wells fecunda-o desde o início, no estouro da luz, depois na escuridão, em uma festa na qual uma mulher encara um homem. Descobrimos, pouco a pouco, que essa mulher é a filha, que o homem é o pai. Ela cresceu, ele é o mesmo. A viagem de ambos a um resort na Turquia é uma lembrança da juventude dela, nos anos 1990.

No clímax, pai e filha tocam-se. A variação entre luzes e sombras expõe todo o sentido da obra, toda a confusão dela, dele, e de todo o sentimento que os recobre. São adultos. Homem e mulher. O amor que os toma – e que nos confunde – ultrapassa os limites do que aceitamos como o amor entre pai e filha e chega, ao que parece, entre a luz e a escuridão, à relação incestuaosa, proibida, que leva o pai a tombar em um buraco negro.

Ainda assim, há pouco para cravar uma conclusão. Na nossa espera por outro drama, ou pelo convencional, podemos muito bem imaginar novos caminhos. Cheguei a enxergar as personagens, pai e filha, como duas pessoas sem qualquer parentesco de sangue. Por algum motivo, eles aceitaram interpretar aqueles papéis. Por algum motivo, o filme estava dado para mim: eu enxergava apenas o que estava atrás da encenação de Wells.

E estava errado. Era minha carapaça de espectador – e minha maneira de negar a possibilidade de um amor que ultrapassasse as relações “aceitáveis”. Aftersun é um grande filme justamente por não dar as respostas esperadas, por manter seu completo mistério à medida em que tudo parece claro, evidente, até chegarmos à sequência em que, ao som de “Under Pressure”, passado e presente colidem e nos vemos perante o que apenas o cinema pode proporcionar: a mente confusa de alguém que ama o próprio pai.

O trabalho de Wells faz pensar em outras realizadoras com intenções semelhantes. O crítico Sérgio Alpendre cita Lucrecia Martel e Joanna Hogg. Pensei em Kelly Reichardt, especialmente em Antiga Alegria, sobre dois amigos que pouco dizem e, como o pai e a filha de Aftersun, mantém o essencial nas entrelinhas. O mistério das relações humanas outra vez em uma viagem, no deslocamento, nos espaços nos quais essas pessoas são estrangeiras ou, distantes de seus locais de origem, estão a ponto de perderem a estabilidade.

A ainda inocente Sophie (Frankie Corio) perde-se do pai, Calum (Paul Mescal), quando é deixada sozinha no espaço do karaokê. Ela fica pela noite, pelo resort, e ele entrega-se ao mar. Ela não consegue voltar ao apartamento e dorme um tempo fora. Quando finalmente entra no quarto, depara-se com o pai dormindo nu. A garota cobre-o com o lençol e vai dormir. O dia seguinte, de novo, traz a aparência de normalidade. Segue o mistério.

(Idem, Charlotte Wells, 2022)

Nota: ★★★★☆

SOBRE O AUTOR:
Rafael Amaral é crítico de cinema e jornalista (conheça seu trabalho)

Veja também:
Drive my Car, de Ryusuke Hamaguchi

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