drama

Me Chame pelo Seu Nome, de Luca Guadagnino

Se o novo casal movimenta-se, em momentos, como se brincasse, é porque tal relação termina com alguma desconfiança, algum impedimento: tanto o mais novo quanto o mais velho têm seus motivos para não avançar. Brincam, riem, dão voltas, dançam ou fazem sexo com outras mulheres – um pouco para se evitarem.

Primeiro, em Me Chame pelo Seu Nome, vê-se o menino que brinca, na fase quente da adolescência, ao subir nas costas do homem que visita sua casa, ou na maneira como tenta a todo o momento se aproximar, descobrir o outro, como a criança que admira o adulto estranho, novidade de férias na bela casa de seus pais.

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Depois, o outro, o visitante, homem formado, louro, alto, belo, perfeitinho demais – algo como o boneco Ken, parceiro da Barbie. Natural que chame a atenção não apenas do garoto, mas das meninas que circundam: destoa dos magricelas e pequenos, uma bela estátua a emergir do oceano ou fincada em algum templo de cidades históricas.

O menino fornece o real, algo penetrável, o olhar abobalhado que só muda no encerramento, no último quadro, quando o inverno bate à porta: o olhar, então, retém o mundo adulto, rebate na lareira para retornar à mesma personagem, agora um homem. Descobriu um pouco do que é ser adulto no verão, em tórrida paixão pelo visitante.

Me Chame pelo Seu Nome trabalha de novo com os opostos. São personagens aparentemente distantes em tudo. O jogo é conhecido, o espaço também. Passa-se nos anos 80, ainda sob as formas do universo analógico, dos bilhetes de papel, da alegria dos círculos de jovens à grama ou mesmo nos bailes regados aos hits dançantes daquele momento.

Pelo olhar curioso do garoto, pelo toque como algo não calculado (a massagem no menino, o abraço por trás como brincadeira), Luca Guadagnino move-se no terreno da espera, do cálculo, da concisão. Sabe-se tudo, ou quase, com muito pouco: o menino não se sente culpado, não tem medo dos impulsos. Quer avançar e não sabe como. Sua espera fornece a tônica dessa história que não se desvia do alvo senão às aparências.

Pois é aí que reside a grandeza do filme: nada escapa ao essencial, à história de amor, ainda que as figuras – no drama destilado sempre com cuidado e naturalidade por Guadagnino, com total domínio da narrativa – lutem para desviar. Fala, antes, da natureza da qual não se escapa. E apenas isso dá conta do obstáculo que o filme impõe.

O conflito inicia e se encerra nesse obstáculo: como avançar sem conhecer o outro, sem, no fundo, conhecer o mesmo sexo que se explora pelo toque, sozinho? A resposta é dada pela troca dos nomes que os amantes propõem: um chamará o outro pelo seu nome, não porque precisam ocultar algo, mas porque passam a ser o outro, a senti-lo, a vivê-lo.

Um filme que exige paciência não por ser lento. Exige que o público entenda as nuances da relação forjada ao estranhamento, ao medo de pisar no espaço errado, ou de parecer algo meramente carnal – ainda que a carne seja importante, ainda que o sexo revele-se libertador. Na sequência mais bela, o menino está “sujo” com o sumo do pêssego quando, após o avanço do amante a seu corpo, cai em lágrimas.

São momentos como esse que permitem a migração do desejo ao amor com tamanha naturalidade e fazem o filme funcionar à perfeição. O menino, menos equilibrado, precisa lidar com as inconstâncias, entre o sentimento e a carne, seguido por uma garota de cabelo armado com quem deixa ver sua virilidade, com quem o sexo é igualmente prazeroso.

Quer dizer, o problema não chega a ser a carne. É por ela canalizado. A carne fornece algo único, ainda assim: o jeito como a personagem central perde-se em suas investidas, ou como se encontra graças a elas. Interpretado por Timothée Chalamet, o menino Elio tem algo blasé, é em momentos arrogante, adolescente que se confessa pelo trançar das pernas, pelo silêncio do dia seguinte.

Em oposto, como o estudante que passa as férias na casa do garoto para estudar com seu pai, Armie Hammer nunca é bruto demais, nunca é sensível em excesso. Sua posição diz muito sobre amantes idealizados. Quando pensa e deixa ver seus receios, o público pouco a pouco sabe mais sobre o mesmo, e o amor entre ambos fica maior.

Guadagnino diz ser bertolucciano. Se não chega à agressividade (no bom sentido) do mestre italiano, ao menos esbarra em sua sensibilidade, na aparência do quadro improvisado. E o efeito sensível começa pelo roteiro, com a assinatura do consagrado cineasta James Ivory, responsável, nos anos 80, pelo tocante Maurice, a história de um homossexual na conservadora Inglaterra do início do século 20.

Diferente do britânico, Me Chame pelo Seu Nome dispensa a abordagem do preconceito e da inaceitação familiar. Algumas questões foram superadas. Reserva-se ao espaço dos sentimentos, à natureza que vez ou outra ocupa o quadro, ao pessegueiro ou à piscina entre pedras que os amantes espreitam enquanto fingem se evitar.

(Call Me by Your Name, Luca Guadagnino, 2017)

Nota: ★★★★☆

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Um Sonho de Amor, de Luca Guadagnino

O aspecto viscontiano, em Um Sonho de Amor, deve-se à grande casa na qual as personagens iniciam e fecham suas trajetórias, da sustentação do ritual à quebra. Na grande casa, no início, vê-se a mãe montada, mulher russa integrada à cultura europeia, aqui a italiana sintetizada pela família poderosa. Parece estar presa. Finge bem.

Agarra-se tanto a esse papel – o da mãe forte, o da dondoca burguesa feita à porcelana – que assusta o espectador quando resolve mudar: sem muito explicação além do desejo atrofiado, da vontade de escapar, corre aos braços de um chef de cozinha amigo de seu filho. A mulher em questão, protagonista, é Emma (Tilda Swinton).

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Até certo ponto o filme não é sobre ela. Apenas a contém, abraça-a, faz dela a peça feita à medida, o que causa susto quando quebra: é um filme sobre a família tradicional que não pode escapar aos próprios ecos, à voz que fala para dentro, a começar pela do avô prestes a morrer e decidido a fazer viver sua linhagem e seus negócios.

O diretor Luca Guadagnino dá-se bem na construção das relações. São naturais. Não precisa, apesar dos contornos dinásticos, da opulência, fazer de seus seres figuras anormais. Ao contrário, a impressão é que são “gente como a gente”, pessoas que sofrem ao menor sinal de mudança, ao mesmo tempo dispostas a se transformar.

O erro de Guadagnino pode ser visto no que vem após a tentativa de transformação, nos efeitos dramáticos que a mudança acarreta. O melhor exemplo está nos instantes finais, na exaltação de Emma à fuga, no olhar à filha homossexual (Alba Rohrwacher), à contramão do olhar do marido (Pippo Delbono), o da manutenção.

Alguns querem e aceitam as transformações, outros não. À mesa, no jantar do início, em tempo de neve do lado de fora, o avô (Gabriele Ferzetti) anuncia os sucessores. Aspira à conservação e sabe que seu tempo de vida é curto. Acredita que os demais, ovelhas obedientes, deverão seguí-lo. Meses depois, contudo, a fábrica da família é vendida.

O filho mais velho, sucessor direto, representante dos tempos que precisam mudar “para serem os mesmos”, não aceitará a venda. Tampouco o relacionamento da mãe com outro homem, alguém mais jovem, seu futuro sócio. Edoardo (Flavio Parenti), como os tradicionais, foi feito ao inverno, à conservação, ao calor da grande casa e à forma do jantar com pouco luz, entre o brilho da prataria.

O novo amor da mãe vem com o verão. E escapa à grande casa. Ela, nas horas ou instantes em que passa com o amante, muda de roupa, de forma, age com naturalidade: não deixa ver mais a mulher feita aos bons modos da grande casa, a dama que recebe seus convidados. Pena que as mudanças, na tela, são truncadas, com edição e fusão de imagens desagradáveis, sem a mesma naturalidade que se dispensa aos diálogos.

Swinton é uma grande atriz. Consegue estar dos dois lados, mudando de um ao outro rapidamente; consegue ser a mulher à frente da família, a dama de espírito jovem que corre para os braços de outro, e pode ser vista rindo aos cantos, como uma criança após algum gesto de indisciplina em seu cotidiano, o que só a mesma sabe.

No sexo, a montagem paralela expõe ora o corpo, ora a natureza. A mensagem é clara, e se opõe ao sentido do casarão sob luz baixa e som abafado, com pessoas bem vestidas e sua impecável disposição de peças: não é possível resistir às mudanças e ao desejo de liberdade. Em suma, à natureza das coisas. Por consequência, a família é fendida.

(Io sono l’amore, Luca Guadagnino, 2009)

Nota: ★★★☆☆

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A Forma da Água, de Guillermo del Toro

A mulher que não fala encontra no monstro – feito de escamas, ao mesmo tempo imponente – a possibilidade do amor, da comunicação, a criatura pela qual nutre alguma pena, e que deseja libertar. Nos tempos da Guerra Fria, ela trabalha como faxineira em um laboratório do governo. Por ali, o homem-peixe é preso para ser estudado.

Os monstros servem às boas causas. Foram incompreendidos por muito tempo. Segundo o diretor Guillermo del Toro, em A Forma da Água é a vez do monstro chegar à condição divina: será Deus aos olhos do vilão, ao fim; será Deus em seu gesto, ao levar a mão à cabeça de outro homem e curá-lo; e será Deus ao se regenerar e se erguer de novo.

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A fotografia com tons esverdeados coloca quase todo esse universo embaixo d’água: a impressão é de se flutuar, viver entre a podridão das algas, em um espaço que restou apenas a criatura à moça de boas intenções, cuja masturbação, sozinha, dá-se na água, todos os dias. De manhã, após acordar, antes de se preparar para o trabalho.

Elisa Esposito (Sally Hawkins) deixa saber mais em seu aparente silêncio. Por muito tempo permaneceu mergulhada nas águas verdes, no líquido que a rodeia, que a toma, à espera da criatura que, em algum momento, deverá emergir. E quando sai do tanque, no laboratório, mais parece criança, pequeno ser indefeso.

A moça vê-se perdida por aquela forma estranha, mas à qual – não como bela, tampouco a outra como fera – ver-se-á enredada. Os estranhos são deuses. O mundo coloca-se com alguma inversão: são os homens brancos em suas belas casas, com belas famílias, os verdadeiros monstros. Nesse caso, o maldoso Richard Strickland (Michael Shannon), que faz sexo com a mulher como se esta fosse um pedaço de carne.

Del Toro toma clara referência, ainda que deseje dar uma sequência possível à história passada, resposta ao cinema clássico e fantástico que ainda guardava certa limitação: O Monstro da Lagoa Negra, de 1954. Nas investidas de exploradores pela América do Sul, alguns homens e uma mulher são perseguidos por uma criatura – parte homem, parte peixe. Não tinha nada mais a oferecer senão essa forma, e não se deixava ver.

Quando presa, em A Forma da Água, a criatura vai além: a mulher simples, sem fala, vê nela a face de Deus. Uma criatura maravilhosa que pode ser amada, que a recobre, que a protege, que a fará respirar sob as águas. Vê nela sua fuga, seu prazer, sua prisão: ela tem enfim coragem de se lançar na água. Antes, no clássico de Jack Arnold, a bela mulher flertava com a “lagoa negra”. Seu desejo de descobrir o que havia ali era latente.

A personagem de del Toro escapa aos pulinhos pelo corredor, de inspiração escondida, mas a explodir; uma mulher sem fala que expressa tudo pela face, pelo gesto menor, no rosto sempre esperançoso de Hawkins, como se sempre estivesse à espera de algo. De um amor, talvez, ou da surpresa em descobrir isso na forma inesperada.

Os “suspeitos de sempre” estão a serviço do bem: a mulher com deficiência, seu vizinho gay e bondoso (Richard Jenkins), a amiga negra (Octavia Spencer) que vive para servir o marido, além do curioso espião soviético (Michael Stuhlbarg), que ainda deixa ver um pouco de coração. O último, como a primeira, entende que deuses não podem viver sob o risco da experiência dos homens, tampouco sob o de serem sacrificados.

Como nos filmes anteriores de del Toro, os monstros indicam o caminho às personagens. O universo ao lado pode indicar a realidade, como a perseguição nos tempos de Francisco Franco em A Espinha do Diabo e O Labirinto do Fauno. Monstros escondidos cuja verdadeira forma não pode ser vista. É de tal essência que fala A Forma da Água: por ela, chega aos sentimentos, à história de amor possível aos reclusos, gente que, como Elisa, aprendeu a amar o que se convencionou chamar de grotesco.

(The Shape of Water, Guillermo del Toro, 2017)

Nota: ★★★★☆

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120 Batimentos por Minuto, de Robin Campillo

As partículas desintegram-se no ar. Antecipam o mal que espreita, nada difícil de prever ao longo de 120 Batimentos por Minuto: algumas de suas personagens vivem momentos derradeiros, sabem que, ora ou outra, perderão a própria vida. Elas são vítimas da aids. O filme acompanha as ações do grupo Act Up, na França.

Doentes, os jovens são pura energia. Não custa, ainda que pareça clichê, repetir o quanto a morte traduz a vida, o quanto a aparência de fim lança respiros – e uma frase do protagonista, Sean (Nahuel Pérez Biscayart), quando dramatiza e depois recua como se fosse brincadeira, é justamente sobre a descoberta da vida ao descobrir a aids.

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Vida e morte, assim, dançam lado a lado, e o filme é cheio de altos e baixos. É real quando precisa ser, ou seja, quase sempre. É tocante mesmo quando insiste em ser real, ou apelar à carne. Ou seja, quase sempre. É um desses apelos à palavra que não demanda rodeios, nas discussões que às vezes dão a impressão de não tirar ninguém do lugar.

Discutem e atacam. Na verdade, atacam mais do que discutem. Seus encontros têm regras próprias. Os aplausos não se fazem com palmas, mas com estalos do dedo. O som daquela sala, a sala de aula, encontra organização entre a aparente bagunça de vozes que se cruzam, que digladiam enquanto a discussão avança. Os temas são variados, todos sobre o que fazer enquanto o tempo passa, enquanto a morte é mais próxima. Discutem como chamar a atenção, como gritar no rosto das autoridades. Algo como “quero viver!”.

O filme de Robin Campillo é, inteiro, sobre esse grito. Não dirão exatamente isso. Sacam outras palavras, novos protestos, no tempo que conta à medida que outras partículas desmancham-se no ar, à medida que a vida de cada um – ou de todos – deixa ver o desespero do momento, as manchas comuns aos filmes sobre a aids.

As manchas no corpo, aqui, são mais “naturais”. Ou apenas parecem. Campillo não as usa para dar peso ao drama. O filme não apela ao aspecto da pessoa doente que carrega, nos detalhes, um estado de miséria. Tampouco à frase sensível, ao mero gesto amoroso que tanto maqueia as relações; prefere o sexo verdadeiro, a carne, a dança, a música eletrônica.

Sean aos poucos ganha protagonismo. Poderia, fosse outro filme, apenas servir de base ao rapaz ao lado, o novo amante que, no início, descobre o Act Up. O outro, Nathan (Arnaud Valois), é o deslumbrado, a quem tudo, na partida, é novidade. O que lhe chama a atenção é a energia dessas pessoas dispostas a lutar.

Vem então o experiente, aquele que falará sobre a responsabilidade de quem leva o vírus e de quem o recebe – ambos com responsabilidades iguais, segundo ele. Os amantes não abrem mão do prazer, apesar da aids. Campillo, em belo momento, filma os rapazes na cama, à noite, quando Nathan vê uma foto da mãe de Sean e questiona o outro sobre o possível incômodo de estar sob a observação da mulher.

Antes, em uma escola, é Sean quem rouba um beijo, em provocação à garota que dizia não precisar de proteção, associando a aids aos homossexuais. À mesma, coitada, para estar à mercê do vírus bastaria ser lésbica. É quando Sean dá-lhe o troco não em palavras, mas no beijo que toma do novo companheiro. O rosto de Nathan é, outro vez, de deslumbre.

O trabalho de Campillo ultrapassa essa relação. Vai dela ao grupo. A história de amor não se opõe à ação. O oposto também não se vê. Ao fim, quando todos estão reunidos ao redor de um corpo, o espectador entende que há mais em jogo: o grupo, dessa vez em quietude, em lágrimas, volta a se unir. A manhã se aproxima, a vida continua.

120 Batimentos por Minuto, desde o título, tem a pulsação como central, o que pode ser traduzido pelas batidas do coração ou pela música penetrante. Por trás da luta, da dança, das investidas no jantar de grã-finos para protestar ou da invasão de um laboratório que se recusa a divulgar resultados sobre testes com um medicamento. Os jovens são incansáveis. De batida em batida, elevam o ritmo; a despeito das partículas, permanecem juntos.

(120 battements par minute, Robin Campillo, 2017)

Nota: ★★★★☆

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Garota Exemplar, de David Fincher

A frieza de Nick Dunne é o primeiro obstáculo ao espectador de Garota Exemplar. Sua maneira de lidar com a situação, ao não se emocionar, ao aparentar suposta indiferença: o espectador tem, até certo ponto, motivos para desconfiar dele. Do outro lado, as lembranças de sua mulher desaparecida oferecem o oposto: a impressão de se conhecê-la.

Outro engano nesse grande filme de David Fincher. Por sinal, um engano maior: Amy Dunne – molde para uma personagem infantil chamada “Incrível Amy” – declara, aos poucos, suas dores, medos, receios ao espectador. E este, ainda ingênuo, acredita que sabe muito sobre ela. Crê que pode, ao contrário de Nick, abrir seu crânio para sacar seu íntimo.

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Há filmes em que os espectadores sabem mais que as personagens. Há também aqueles em que ambos estão no mesmo ponto, ou seja, nos quais as descobertas são compartilhadas. Garota Exemplar coloca-se em um terceiro grupo, talvez mais raro: um filme em que suas personagens sabem mais que o espectador.

Nesse terceiro reino vê-se o inesperado, espaço perfeito para vilões ou anti-heróis, para esconderijos e uma falsa sociedade bela. Chega-se, por sua vez, à ideia de Fincher a partir do roteiro de Gillian Flynn, do seu próprio livro: uma sociedade moralista feita de belas meninas “incríveis”, seres graciosos que nasceram como personagens infantis.

Chega-se igualmente à sociedade de aparências, à praga da celebrização instantânea e das mudanças de papéis de acordo com o script ditado pela opinião pública: Nick pode passar do marido assassino ao pai formado, obrigado a declarar, em cadeia nacional, à lente da câmera, que será pai de um filho, que ama sua mulher. Serve à imagem e sobrevive.

Em um dia aparentemente tranquilo, Nick (Ben Affleck) retorna para casa e encontra móveis revirados. Amy (Rosamund Pike), sua mulher, desapareceu. Ele procura a polícia, revela uma série de imperfeições. Torna-se – inclusive ao espectador – o suspeito número um. O caso é perfeito para a imprensa sensacionalista. Câmeras tentam seguir cada novo capítulo dessa história. Nick não é confiável. Amy tampouco será a tal “garota exemplar”.

As camadas de falsidade começam pelo visual, depois pelas personagens. A fotografia de Jeff Cronenweth deixa ver a verdade, o simples, a cidade e os tipos comuns nos primeiros minutos: o homem que levanta cedo para colocar o lixo para fora, que observa o nada, comum e até banal. Fica entre o azul e o cinza; em ambientes fechados, em vários momentos, vê-se envolto por tons amarelados, algo frio, sem intensidade.

A pequena marca de sangue deixada por Amy, marca de sua suposta morte, chama a atenção: o vermelho serve aqui como peça rara. À frente, na sequência do assassinato, a cor não apenas explode com o excesso de sangue como também é despejada sobre o branco das roupas íntimas da moça e das roupas de sua nova vítima. É quando se entende que a violência pode, sim, ser justificada: Fincher tem a saída ideal ao exagero.

Quem engana, antes, são as cores: o universo de Garota Exemplar, aparentemente frio e sem vida, não parece dar conta de tantas histórias, tantas reviravoltas, a abrigar um dos vilões mais interessantes dos últimos anos. Amy, a tal “garota exemplar”, projeta o demônio possível à vida ordinária: é quem recorre à imagem acima de todas as coisas, que cabe às mesmas cores que parecem não indicar nada além da quietude.

Não estranha que Fincher, com a volta dela aos braços do marido, retorne ao plano geral da fachada da casa. A típica casa perfeita, grande, à qual, dirá a mídia, falta uma criança. Não se chega a tanto, nem poderia. Imaginar uma criança por ali é o que faz o filme doloroso em seu encerramento, com as lamentações do pai, Nick, que não poderá escapar mais à falsidade criada pela mulher, a “vítima perfeita”, a Amy nascida da ficção, dos livros infantis, talhada para seguir nesse meio em que tudo parte de um enredo.

Garota Exemplar é sobre a necessidade de criar outra história para essa sociedade – ao mesmo tempo em que o fundo deixa ver outros monstros, a história não oficial, o conto que não serve à mídia sensacionalista que vive da audiência do segundo seguinte e pouco inclinada às contradições da vida a dois, ou apenas à aproximação.

Um filme em que ninguém – nem Nick, nem Amy, nem aqueles que lucraram com o caso na mídia – escapa à dúvida. Não como benefício, mas como salvaguarda. Para confirmar o que se pensa dela, vale recordar uma frase dita para ele, no fim: “[Você] Me conhece até a medula”, diz, em mais uma de suas mentiras. Ela sabe jogar. Ele sabe que ela mente. Ambos seguem assim, nesse jogo, presos à redoma que criaram a si próprios.

(Gone Girl, David Fincher, 2014)

Nota: ★★★★☆

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