Por que um filho de banqueiro resolve fazer filmes sobre pobreza e Che Guevara?

E quando a mídia enfatiza o “herdeiro do Unibanco” para noticiar seus feitos no cinema, muitas vezes em tom provocativo? Isso te deixa puto?

 

Quando você tem 20 anos e está começando na tua profissão, é algo previsível. Três décadas depois, essa mesma pergunta ou relação fala mais de quem a faz do que de mim. Mas tem uma história legal sobre isso, que aconteceu com a família Guevara na época de Diários de Motocicleta. Quando estive pela primeira vez com eles em Cuba, a viúva e os filhos de Ernesto Guevara sabiam muito bem de onde eu vinha, mas são cinéfilos e preferiram me julgar pelos filmes que eu dirigi, como Central do Brasil. Tiveram confiança, nunca me pediram para ver uma página do roteiro sobre o marido e o pai deles. E eu procurei corresponder a essa confiança. Estabelecemos uma relação de amizade que dura até hoje.

 

(…)

 

Numa entrevista à Trip, o jornalista Marcelo Tas disse: “O Brasil só vai ser um país decente quando o João Moreira Salles fizer um documentário sobre bancos”. Por que as pessoas se incomodam tanto com o fato de pessoas ricas saírem de seus mundos para retratar outros mundos?

 

Pra início de conversa, sou fã do Tas. Agora, se a gente aceitasse a tese, não existiria a obra-prima do cinema neo-realista que é Rocco e Seus Irmãos, porque um filme sobre a classe operária não poderia ser feito por um aristocrata como [o italiano Luchino] Visconti. E Pierre Verger não teria fotografado na África e na Bahia. Deveria ter ficado retratando o seu meio, que era a alta burguesia francesa. E assim iríamos: cada classe olhando para si mesma, ad eternum. Prefiro achar o contrário, que a gente só existe e se complementa na diferença, nos outros. Como no sexo. Um movimento artístico que olha para seu próprio umbigo tem nome: rococó. Há quem goste. Eu não. Agora, é evidente que o leque temático do cinema brasileiro tem que se alargar. O cinema da retomada falou daqueles universos que a TV não mostrava nos anos 90. Tá feito, e chegou a hora de olhar para outros cantos.

Walter Salles, cineasta, em entrevista à revista TPM (16 de março de 2009; leia aqui). Acima, cena de Diários de Motocicleta; abaixo, de Linha de Passe.

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