cinema brasileiro

Nelson Pereira dos Santos (1928–2018)

O autor no cinema brasileiro se define em Nelson Pereira dos Santos. De certa forma, Humberto Mauro, no seu realismo poético, não busca interferir no mundo fechado da pequeno-burguesia industrial ou agrária. É neste ponto muito próximo ao italiano Mario Camerini, no pré-fascismo. Sendo mais jovem, e saindo das ideias de Alex Viany, com quem trabalhou em O Saci (de Rodolfo Nanni, bucolismo de linha mauriana, já superado na época, 1953) e em Agulha no Palheiro, Nelson Pereira dos Santos realizou, em Rio, 40 Graus, o primeiro filme brasileiro verdadeiramente engajado. O adjetivo é válido e significa, há dez anos passados, uma tomada de posição corajosa, solitária, e consequente. A censura investiu furiosamente: não era um filme para a burguesia, porque a burguesia só aplaude e premia filmes sociais quando eles são evasivos. Rio, 40 Graus era um filme popular, mas não era populista; não denunciava o povo às classes dirigentes, mas revelava o povo ao povo: sua intenção vinda de baixo e para cima, era revolucionária e não-reformista. Suas ideias eram claras, sua linguagem simples, seu ritmo traduzia o complexo da grande metrópole: o autor estava definido na mise-en-scène.

(…)

Rio, 40 Graus desmentiu de vez a epopéia romântica de Lima Barreto, o esteticismo social de O Canto do Mar, a técnica de estufa da Vera Cruz, a demagogia dos italianos ex-assistentes de Rossellini e mostrou aos jovens uma nova perspectiva para o cinema brasileiro. Assim como eu, naquele tempo tateando a crítica, despertei violentamente do ceticismo e me decidi a ser diretor de cinema brasileiro nos momentos que estava assistindo Rio, 40 Graus, garanto que oitenta por cento dos novos cineastas brasileiros sentiram o mesmo impacto.

Glauber Rocha, cineasta, em Revisão Crítica do Cinema Brasileiro (Cosac & Naify; pgs. 104, 105 e 106). Abaixo, Nelson Pereira dos Santos.

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O Grande Momento, de Roberto Santos

O cinema imortalizou figuras que perdem suas bicicletas – suas liberdades, em algum limite – e outras que, no fim da jornada, veem-se em uma estação de trem ou ônibus. A mudança não é tão profunda como parece. A impressão é de que tudo seguirá como sempre foi, talvez pior. Por isso, O Grande Momento faz pensar no italiano Ladrões de Bicicleta, claro, e no britânico O Mundo Fabuloso de Billy Liar, feito mais tarde.

Seres amáveis, conhecidos, percorrem esses filmes: personagens errantes, não raro imperfeitas, próximas de alguma transformação: o emprego que vem com a bicicleta, a possibilidade de deixar a pequena cidade provinciana e ir para a metrópole, ou mesmo a preparação da festa de casamento e os gastos que o ritual acompanha.

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O noivo é o protagonista, Zeca (Gianfrancesco Guarnieri), grudado em sua bicicleta, em suas investidas para conseguir dinheiro e pagar os gastos da festa. O pai faz o mesmo, por diferentes locais, para levantar trocados; a mãe trabalha com a filha e irmã de Zeca nos preparativos finais, e é possível ver todas essas figuras brigando ou reclamando de algo.

Todos convivem na casa de poucos cômodos, à qual Zeca retorna para não conseguir descansar. Reclama que passou a noite trabalhando, até o último momento que antecede a data festiva, para conseguir dinheiro. O filme é sobre essa jornada, sobre como toda mudança exige grande esforço, e como todo esse esforço pode ser questionado.

Todo esforço que leva, para a tristeza do protagonista, à venda de sua bicicleta. Justamente a bicicleta, o meio de transporte, o que o torna – ao menos às aparências, ou no sentido que o filme dá-lhe – mais livre. Vê-lo percorrer as ruas do Brás, em São Paulo, com a bicicleta, com alguma velocidade, é entender o sentido dessa liberdade.

Depois vem o casamento, o compromisso, o ritual: não é preciso ver o dia seguinte para compreender que a vida de Zeca não será mais a mesma – sem a bicicleta. Ainda que não faça uma crítica direta, o filme deixa nítido o estado de transformação promovido pelo matrimônio, a adesão à vida conformada, de raízes, para seguir o caminho dos pais, de sua linhagem, à contramão de qualquer coisa que possa torná-lo mais livre.

Não se trata de detonar com o casamento. É uma passagem, apenas. O filme de Roberto Santos é a crônica desse estado de imperfeição, desse redemoinho ao qual (quase) todos se lançam mesmo sabendo das consequências, do dinheiro necessário para fazer a festa – com fotógrafo, terno, a viagem de lua de mel.

A opção pela comédia não permite que figuras imperfeitas sejam borradas: como nas melhores comédias italianas, o espectador aprende a amá-las porque o absurdo que projetam sempre reflete algo universal, inescapável, de novo relacionado ao redemoinho ao qual (quase) todos se deixam levar: se o ritual envolve tantos problemas, ainda vale a pena seguir em frente, mergulhar na nova vida que, no fundo, não mudará tanto assim?

No caso de Zeca, ao que parece não há escolha. O espectador entende. O protagonista até tenta escapar quando o dinheiro acaba, e quando os convidados da festa desejam beber mais. Ele próprio foge para um bar, depois para casa. Os parentes da noiva perguntam por ele. O pai consegue trazê-lo de volta. Não tem jeito. O fim está dado.

O Grande Momento é lançado em um ponto de transição, quando o sonho de uma indústria cinematográfica no Brasil parecia se desfazer e um cinema de autor, feito por cabeças jovens, promovia inegável rompimento. Filme que, de certa forma, nutre-se um pouco dessas duas ondas, cujo retrato da gente simples e amável deixa ver a pobreza.

“A lei é a do coração e os impulsos falam mais do que o cálculo, mas a pobreza não isenta os personagens de crueldade, mesquinharia, egoísmo”, observa o crítico de cinema Ely Azeredo, na Tribuna da Imprensa, em 1958. A corrida de Zeca, ao fim, rumo ao bonde e ao lado da amada, é apenas um momento de felicidade, provável contraste aos dias que se seguirão.

(Idem, Roberto Santos, 1958)

Nota: ★★★★☆

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A Felicidade Não se Compra, de Frank Capra

Os 20 melhores filmes de 2017

Até a metade, o ano não parecia ser dos melhores. Fala-se aqui, claro, do cinema. Mas algo mudou e grandes obras começaram a estrear, incluindo a primeira posição da lista abaixo – da qual muita coisa ficou de fora. Esse apanhado prova que o cinema atual respira bem. Grandes diretores continuam a fazer filmes e surpreender. Que venha 2018!

20) Manifesto, de Julian Rosefeldt

Cate Blanchett pula de cenário em cenário, de vida em vida, para dar voz a diferentes manifestos artísticos nesse filme original e sem saídas fáceis. Ao fundo repousa um mundo estranho, futurista, de salas lustradas ou de espaços em cacos, de gente bela ou miserável.

19) Últimos Dias em Havana, de Fernando Pérez

O que resiste é a amizade. E é sobre seu fim, a certeza de se ir embora – da vida ou de um país. Em cena, dois homens dividem a mesma casa em Havana, Cuba. Um fala muito, o outro quase nada. Um sonha em ir para os Estados Unidos, o outro tem aids e está acamado.

18) Eu, Daniel Blake, de Ken Loach

Davi contra Golias, o homem comum contra o Estado. Uma trajetória tocante que venceu a Palma de Ouro em Cannes. Ao centro, o simpático e às vezes difícil Daniel Blake, que não pode voltar a trabalhar e cuja vida é dificultada pelas autoridades, que insistem em não lhe ajudar.

17) Guerra do Paraguay, de Luiz Rosemberg Filho

O lendário diretor integrou o grupo de realizadores do cinema marginal. Trabalha aqui com o preto e branco, elenco e recursos mínimos. Conta a história de um soldado que retorna cheio de patriotismo da vitória no Paraguai e se depara com uma diligência guiada por mulheres.

16) Uma Mulher Fantástica, de Sebastián Lelio

O cotidiano da transsexual Marina Vidal fica de cabeça para baixo quando seu companheiro morre. É apenas o início do filme. O que vem a seguir é uma jornada por reconhecimento próprio contra a família do homem, que insiste em ignorá-la e tratá-la com preconceito.

15) Como Nossos Pais, de Laís Bodanzky

Retrato da vida de uma mulher presa às exigências da família – à medida que assiste às fugas e à boa vida do marido e à morte da mãe. Bodansky recheia sua história, outra vez, com sensibilidade. Em cena, o brasileiro que se descobre impotente, entre gerações diferentes demais.

14) Dunkirk, de Christopher Nolan

O espetáculo de guerra de Nolan. O filme é pulsante, empolga, não deixa cair no desinteresse em momento algum. Divide-se em três tempos: a semana de um rapaz que tenta escapar da França, o dia de um homem que ajuda os soldados no mar e as horas de um piloto contra os inimigos.

13) Nocturama, de Bertrand Bonello

Inédito nos cinemas, o filme foi direto para a Netflix. Os jovens em cena se reúnem para promover o caos: em um dia como qualquer outro, espalham bombas em Paris e sequer explicam suas reais motivações. Em seguida, juntam-se em uma loja de departamentos, à espera do fim.

12) Afterimage, de Andrzej Wajda

Outra luta de Davi e Golias, a do artista contra o sistema comunista polonês após a Segunda Guerra Mundial. Aos olhos do Estado, a arte de Wladyslaw Strzeminski não interessa: parece intelectual ou burguesa demais a esses tempos de “arte política”. Último filme do mestre Wajda.

11) Blade Runner 2049, de Denis Villeneuve

O que parecia impossível aconteceu: Villeneuve fez um novo Blade Runner sem que parecesse cópia do primeiro e, de quebra, sem deixar de lado as características do anterior. O diálogo entre ambos é pleno. Ainda assim, o cineasta vai em frente e faz um filme com sua assinatura.

10) Na Praia à Noite Sozinha, de Hong Sang-soo

Um dos mais belos trabalhos do coreano Sang-soo. Com muito diálogo e aparência de improviso, além do uso constante do zoom, o diretor trilha caminho autoral. Trabalha de maneira rápida, é incansável. E mais outros dois filmes do cineasta devem desembarcar em breve no Brasil.

9) O Ornitólogo, de João Pedro Rodrigues

A situação do protagonista tem algo onírico: ele perde-se pela floresta, é perseguido por mulheres que o torturam e assombrado por animais empalhados. O homem torna-se refém e presa nessa obra original do português João Pedro Rodrigues, com coprodução brasileira.

8) Z: A Cidade Perdida, de James Gray

Outro grande filme esquecido pelas premiações. Os homens do establishment hollywoodiano insistem em ignorar Gray, talvez o melhor cineasta americano em atividade. Aqui, ele conta a história real do explorar Percival Fawcett, em busca de uma cidade perdida.

7) Na Vertical, de Alain Guiraudie

A França profunda deixa ver os lobos. Nada pode ser previsto nesse filme do diretor de Um Estranho no Lago. A misè-se-scene de Guiraudie é direta, às vezes fria, dispensa firulas. Seu protagonista, um roteirista de cinema, torna-se pai e se vê sozinho com seu bebê.

6) O Apartamento, de Asghar Farhadi

A vida de um casal transforma-se ao mudar para outro apartamento. A cena inicial resume muito: o antigo prédio em que vivia apresenta tremores. No prédio seguinte, o casal passa a morar no apartamento em que residia uma prostituta, onde a nova moradora é agredida.

5) A Vida de uma Mulher, de Stéphane Brizé

Filme triste e realista, em época passada, ainda sob a regra dos bons modos. À frente, a vida da mulher é feita mais dos momentos tristes, menos dos felizes. Ela é vítima dos homens que a cercam: primeiro o marido, depois o filho. Ela resiste. Brizé é cruel e delicado.

4) Toni Erdmann, de Maren Ade

Os pontos altos dessa comédia ocorrem em situações inesperadas. A cineasta apresenta a difícil relação entre pai e filha, e como a segunda é levada a se transformar – a se despir, o que inclui o gesto literal – para seguir em frente. O momento em que canta é um achado.

3) Além das Palavras, de Terence Davies

Nova incursão pela vida de uma mulher. Personagem verdadeira, a poetisa Emily Dickinson passa da educação religiosa à vida de festas e alguma clausura. Sempre cercada pelas pessoas e, claro, pelas palavras. Davies é um daqueles mestres que merece mais reconhecimento.

2) Paterson, de Jim Jarmusch

A poesia, outra vez. O poeta urbano, escondido, à frente do volante de um ônibus. Os dias, para ele, só podem escapar da repetição – e das repetições sinalizadas pelos gêmeos – a partir da escrita, da possibilidade de ser poeta. Possivelmente o melhor filme do independente Jarmusch.

1) Corpo e Alma, de Ildikó Enyedi

A medalha de ouro fica com esse pequeno grande filme sobre o amor entre pessoas aparentemente diferentes, em lugar difícil de imaginar: um abatedouro de bovinos. Ali, ele observa a moça que tenta se desviar. Ambos passam a sonhar o mesmo sonho e relatam essa experiência a cada novo dia. Algo mágico, para dizer o mínimo.

E outros dez que merecem menções honrosas: Era o Hotel Cambridge, de Eliane Caffé; Martírio, de Vincent Carelli; Moonlight: Sob a Luz do Luar, de Barry Jenkins; A Tartaruga Vermelha, de Michael Dudok de Wit; Manchester à Beira-Mar, de Kenneth Lonergan; Mimosas, de Oliver Laxe; Joaquim, de Marcelo Gomes; Eu Não Sou Seu Negro, de Raoul Peck; Fragmentado, de M. Night Shyamalan; e O Filho de Joseph, de Eugène Green.

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Gabriel e a Montanha, de Fellipe Barbosa

O rapaz é ingênuo, às vezes arrogante e idealista, nem sempre fácil de se amar e difícil de entender. Não dá para saber muito – e nem deveria – sobre o protagonista de Gabriel e a Montanha, Gabriel Buchmann, cuja trajetória, inspirada em acontecimentos verdadeiros, dá vida a um filme impregnado de paixão e liberdade.

O diretor Fellipe Barbosa embarca na mesma trilha, passa pelas mesmas pessoas, pelos rostos de gente simples, pela imersão à qual o mesmo Gabriel viu-se lançado, por aproximadamente um ano, em suas viagens. O filme aborda sua passagem pelo continente africano, entre ruelas cheias de pessoas e montanhas com poucas ou nenhuma.

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O Gabriel ingênuo convida o espectador à pena, à forma do menino que tem todas as certezas e, por isso mesmo, antecipadamente, deixa ver o corpo encolhido, sem vida: o menino ingênuo, com vontade de descobrir, de estar em todos os locais a passos largos com a câmera a tiracolo, termina morto porque decidiu viver demais.

A ingenuidade parece parte indissociável dessa corrida, ou dessa viagem, não dessa incursão turística. Gabriel não gostava do rótulo “turista”, ou assim ser chamado. Era um viajante, alguém livre para dormir na casa de companhias de ocasião, para economizar pequenas quantias e até mesmo ajudar os outros, aos quais as mesmas representavam fortunas.

Ou seja, o pouco que se sabe, no belo trabalho de Barbosa, é suficiente: Gabriel não precisa parecer perfeito, muito menos se explicar demais; não precisa se lançar a gestos de redenção, tratar todos muito bem ou sempre fazer o que parece certo; pode ser o errado, o chato da viagem que escapa pela janela e quase perde o ônibus que está partindo.

Pode ser tudo isso sem perder o fascínio preso ao rosto arredondado de João Pedro Zappa, que precisa ser alguém liberto de todas as amarras para traduzir, talvez, quem foi o Gabriel que escala uma montanha para não descer mais, que vive para se perder pelo mundo em estradas estranhas, erráticas, de gente verdadeira e não raro silenciosa.

Gente africana que pede demais, e ainda assim pede pouco. Gente que se torna amiga com facilidade, que aceita se pôr no lugar do outro para ser seu guia, para dividir dias quentes e noites frias em abrigos, pelas montanhas. Enfim, um filme sobre se entregar, sobre estar na pele do outro – no caso de Gabriel, na pele dos africanos; no caso dos nativos, que retornam com lembranças dos momentos que viveram com a personagem central, na pele de um indefinível rapaz aparentemente ingênuo.

Os passos largos de Gabriel seguem à contramão das imagens de sua câmera: se por um lado ele não queria perder tempo e andar rápido para estar em tantos lugares, para se esbaldar em cachoeiras e picos, por outro sua câmera pede a paralisação do tempo. É sua função: eternizar momentos, fixar a imagem, dar ao dono a lembrança do instante.

Estar na câmera ou fora dela. Não à toa, Barbosa ora se volta à câmera no momento do click, ora se volta àquele que está à frente, a ser fotografado: Gabriel. O filme situa-se entre o movimento e a paralisação, entre a recriação da viagem (a ficção) e o encontro com as pessoas que estiveram na mesma, convidadas a reencontrar o homem morto.

Experiência interessante cercada por belas imagens, em um filme que prova o talento de Barbosa, realizador do ótimo Casa Grande. Mais do que tentar reproduzir essa viagem final com fidelidade, o longa sai atrás de um sentido – certo ou não, não se sabe, e isso dependerá do espectador – para a existência do intenso Gabriel.

(Idem, Fellipe Barbosa, 2017)

Nota: ★★★☆☆

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