Central do Brasil

Bastidores: Central do Brasil

Aos poucos, fomos entendendo que o aperto dos vagões superlotados, bem como de seus acessos e dos cubículos de suas casas, nos levou a apertar o quadro do cinema usando lentes mais fechadas. Como se todos estivessem espremidos em seus próprios mundos.

Quando Dora (Fernanda Montenegro) se aproxima de Josué (Vinícius de Oliveira) e os dois avançam na direção do centro do Brasil, as lentes generosamente vão abrindo seus ângulos como se a abrangência panorâmica dessas lentes abrisse também o coração dos personagens.

Walter Carvalho, diretor de fotografia de Central do Brasil, na Folha de S. Paulo (Caderno Ilustrada, 30 de outubro de 2018; pg. C4; leia aqui).

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Seis bons filmes recentes sobre o desejo de pegar a estrada

As personagens dos filmes da lista abaixo escolheram a estrada como espaço para fugir ou se descobrir. Algumas tentam ultrapassar traumas, esquecer a sociedade, ou ganhar dinheiro, ou mesmo descobrir o mundo e os seres diferentes que o habitam. Filmes sobre liberdade, descobertas, com paisagens a perder de vista.

Na Natureza Selvagem, de Sean Penn

História verdadeira de um jovem que, cansado das amarras da sociedade, decide picar seus documentos, dar as costas à família e se lançar à estrada. A ideia é chegar ao Alasca e viver isolado, produzindo a própria comida. Claro que a investida tem seus altos e baixos, com encontros marcantes e um desfecho difícil de esquecer.

Na Estrada, de Walter Salles

O filme do diretor de Central do Brasil conta com dois atores talentosos na linha de frente: Sam Riley e Garrett Hedlund. O primeiro interpreta o escritor Jack Kerouac, o segundo Neal Cassady. A obra aborda a viagem física e existencial que antecede a escrita do famoso livro On The Road, literatura beat que marcou toda uma geração.

Viver é Fácil Com os Olhos Fechados, de David Trueba

Fã dos Beatles (Javier Cámara) descobre que John Lennon está filmando na Espanha, em uma região com plantações de morango (o que daria vez à canção “Strawberry Fields Forever”). Em viagem, ele encontra dois “rebeldes” cansados da opressão da vida em família e suas regras, justamente nos tempos de Franco.

Livre, de Jean-Marc Vallée

Uma viagem de mais de mil milhas não sem alguns problemas pelo caminho, como encontros desagradáveis e as imposições da natureza. Em cena, Cheryl, retratada com garra por Reese Witherspoon. O título refere-se à tentativa de se ver livre dos dramas passados e faz pensar no grande A Liberdade é Azul, de Kieslowski.

Docinho da América, de Andrea Arnold

Talvez o melhor título da lista. A cineasta Arnold leva o espectador a uma viagem à América pelo olhar de uma garota (Sasha Lane) envolvida com um grupo de jovens que vendem revistas, de cidade em cidade, disposto a qualquer coisa para faturar uns trocados. Realista, às vezes bruto, sem nunca idealizar os adolescentes em cena.

Gabriel e a Montanha, de Fellipe Barbosa

O diretor brasileiro revisita as trilhas percorridas por Gabriel Buchmann, as pessoas que ele encontrou e, mais ainda, os últimos avanços e suspiros do jovem que decidiu viajar de forma intensa. O filme não esconde a morte do protagonista. É sobre suas passagens, mais do que sobre um desfecho triste pelas montanhas da África.

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O Último Cine Drive-in, de Iberê Carvalho

O cinema é um sinal quase imperceptível de sensibilidade em O Último Cine Drive-in. Está ao fundo, quase a desaparecer na tela branca do sobrevivente cinema drive-in, em Brasília, cidade em que os sinais embrutecedores parecem mais fortes.

É assim já na abertura da obra de Iberê Carvalho: a partir do vidro da porta do hospital, o espectador percebe a discussão de um rapaz com dois seguranças. Ele deseja entrar, passar a noite com a mãe hospitalizada, mas é impedido pelos funcionários.

o último cine drive-in

Termina sozinho, vaga por ruas e avenidas. Vai dar, não à toa, naquele cinema drive-in. O local, que sobrevive com dificuldade, com alguns poucos carros por noite, é o que une pai e filho no belo O Último Cine Drive-in.

Sem a mãe, resta o pai a Marlombrando (Breno Nina). Como os cartazes de alguns filmes famosos, como a imagem de outros na grande tela, o nome do protagonista logo remete a algo perdido no tempo: o nome de um grande astro, um dos maiores.

Tudo é meio perdido, quase artificial. A cidade ajuda a dar o tom: meio futurista, meio árida, terra estranha que une passado e futuro. Quando algum carro moderno entra no drive-in, de noite ou de dia, logo se percebe o encontro de tempos, e sua estranheza.

O pai de Marlombrando é um lutador, como são todos os que ainda insistem no velho mundo do cinema, da película, dos antigos projetores. Sobretudo, no tipo de cultura popular que une pessoas, com doses de sensibilidade em oposição ao mundo real.

o último cine drive-in2

O pai é Almeida (Othon Bastos), com plena noção da realidade e suas agruras. É uma característica de todos em cena no filme de Carvalho: eles compreendem os problemas para fora daquele cinema drive-in, ou mesmo para dentro.

A chata realidade também invade o local, que corre o risco de fechar, que, como a mãe de Marlombrando, está em seus últimos dias, presa à cama do hospital. Não por acaso, o cinema reflete-a, ao fim, naquela que pode ser a última sessão a céu aberto.

A realidade é insistente: pode ser vista nos pacientes acamados, pelos corredores do hospital, e pode ser vista nos políticos acusados de corrupção, nos seguranças truculentos, na oficina mecânica que guarda um bar em seu interior.

Resumo da obra: a cachaça tomada entre o som do aperto do parafuso, da perfuração do ferro. É a cidade que impõe seus sinais estampados na tela branca do cinema.

o último cine drive-in3

E este, em exercício de imaginação, também estampa a realidade. Os cartazes ao fundo fazem viajar em velhas histórias: nas macas de hospital, com seus pacientes sofrendo, em As Invasões Bárbaras; na cidade suja confrontada pelo “justiceiro” Travis em Taxi Driver; ou mesmo no fim do cinema popular em Cinema Paradiso, de Tornatore, referência óbvia a O Último Cine Drive-in.

Na tela, é possível ver, de passagem, uma bela cena de Central do Brasil. Depois, outra de Na Mira da Morte, de Bogdanovich, cuja última sequência passa-se justamente em um cinema drive-in, no qual o assassino é perseguido e encurralado.

Cinema e vida encontram-se na obra de Carvalho. Tristemente, a vida é mais forte, ou mais chata. Sempre presente, ainda que o espectador – sintetizado na imagem do pai e do filho, também na da mãe enferma – lute para resistir, com olhos pregados na tela.

Nota: ★★★☆☆

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Mulheres fortes (em 50 filmes)

As mulheres da lista abaixo lutam para encontrar espaço em um mundo de homens, um mundo de problemas. Tentam quebrar barreiras, às vezes assumir a posição de homens, vestir roupas de homens ou mesmo ser um homem. Nem sempre elas têm sucesso.

Algumas não querem ser homens. Sorte delas. São mulheres fortes – nem sempre heroínas – em sociedades conservadores, ou em jornadas nas quais descobrem seus limites, em batalhas no universo do faroeste, da guerra, da espionagem, da política, da ficção científica e, talvez a maior de todas, da maternidade.

Foram excluídas as vilãs, também as clássicas damas fatais. Nem por isso todas as mulheres abaixo são amadas com facilidade. Algumas inspiram, outras chocam. Todas deixam uma marca na história do cinema e merecem ser lembradas.

50) Shosanna (Mélanie Laurent), em Bastardos Inglórios

bastardos inglórios

49) Salma Zidane (Hiam Abbass), em Lemon Tree

lemmon tree

48) Julie (Bette Davis), em Jezebel

jezebel

47) Otilia (Anamaria Marinca) e Gabita (Laura Vasiliu), em 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias

4 meses 3 semanas e 2 dias

46) Karen Hill (Lorraine Bracco), em Os Bons Companheiros

os bons companheiros

45) Laura Reynolds (Elizabeth Taylor), em Adeus às Ilusões

adeus às ilusões

44) Gloria (Jane Fonda), em A Noite dos Desesperados

a noite dos desesperados

43) Alicia Huberman (Ingrid Bergman), em Interlúdio

interlúdio

42) Isadora (Fernanda Montenegro), em Central do Brasil

central do brasil

41) Karen Silkwood (Meryl Streep), em Silkwood – O Retrato de uma Coragem

silkwood

40) A mulher do médico (Julianne Moore), em Ensaio Sobre a Cegueira

ensaio sobre a cegueira

39) Julia (Vanessa Redgrave) e Lillian (Jane Fonda), em Julia

julia

38) A Noiva (Uma Thurman), em Kill Bill: Volume 1 e 2

kill bill vol 2

37) Capitã Anne Providence (Jean Peters), em A Vingança dos Piratas

a vingança dos piratas

36) Mamma Roma (Anna Magnani), em Mamma Roma

mamma roma

35) Marie “Slim” Browning (Lauren Bacall), em Uma Aventura na Martinica

uma aventura na martinica

34) Sandra (Marion Cotillard), em Dois Dias, Uma Noite

dois dias uma noite1

33) Rosa Luxemburgo (Barbara Sukowa), em Rosa Luxemburgo

rosa luxemburgo

32) Karen (Ingrid Bergman), em Stromboli

stromboli

31) Brandon Teena (Hilary Swank), em Meninos Não Choram

meninos não choram

30) Naomi Murdoch (Barbara Stanwyck), em Desejo Atroz

desejo atroz

29) Marge Gunderson (Frances McDormand), em Fargo

fargo

28) Gilda Mundson Farrell (Rita Hayworth), em Gilda

gilda

27) Monika Eriksson (Harriet Andersson), em Mônica e o Desejo

mônica

26) Louise Bryant (Diane Keaton), em Reds

reds

25) Eva Hermann (Hedy Lamarr), em Êxtase

extase

24) Lisbeth Salander (Rooney Mara), em Os Homens que Não Amavam as Mulheres

millenniun os homens que não amavam as mulheres

23) Manuela (Cecilia Roth), em Tudo Sobre Minha Mãe

tudo sobre minha mãe

22) Carmen Jones (Dorothy Dandridge), em Carmen Jones

carmen jones

21) Margo Channing (Bette Davis), em A Malvada

a malvada

20) Maria (Izolda Izvitskaya), em O Quadragésimo Primeiro

o quadragésimo primeiro

19) Nikita (Anne Parillaud), em Nikita – Criada para Matar

nikita

18) Julie Vignon (Juliette Binoche), em A Liberdade é Azul

a liberdade é azul

17) Louise Sawyer (Susan Sarandon) e Thelma (Geena Davis), em Thelma & Louise

thelma e louise

16) Jessica Drummond (Barbara Stanwyck), em Dragões da Violência

dragões da violência

15) Lucia Harper (Joan Bennett), em Na Teia do Destino

na teia do destino

14) Bonnie Parker (Faye Dunaway), em Bonnie & Clyde – Uma Rajada de Balas

bonnie & clyde

13) Rachel Cooper (Lillian Gish), em O Mensageiro do Diabo

o mensageiro do diabo

12) Pearl Chavez (Jennifer Jones), em Duelo ao Sol

duelo ao sol

11) Karen Blixen (Meryl Streep), em Entre Dois Amores

entre dois amores

10) Rainha Christina (Greta Garbo), em Rainha Christina

rainha cristina

9) Eve Olivier (Jeanne Moreau), em Eva

eva

8) Ryan Stone (Sandra Bullock), em Gravidade

gravidade

7) Norma Rae (Sally Field), em Norma Rae

norma rae

6) Gloria Swenson (Gena Rowlands), em Gloria

gloria

5) Kelly (Constance Towers), em O Beijo Amargo

o beijo amargo

4) Ripley (Sigourney Weaver), Alien, o Oitavo Passageiro

alien

3) Clarice Starling (Jodie Foster), em O Silêncio dos Inocentes

o silêncio dos inocentes

2) Scarlett O’Hara (Vivien Leigh), em E o Vento Levou

e o vento levou

1) Vienna (Joan Crawford), em Johnny Guitar

johnny guitar