Rio Violento, de Elia Kazan

As janelas quebradas são preenchidas com papelão. As velhas casas são condenadas pelo progresso, que se faz sentir. É o tema de Rio Violento, de Elia Kazan, no qual a passagem do tempo torna-se estranho infortúnio, a causar, lentamente, a dor das personagens. As árvores e milharais estão secos; as moradias, antigas, prestes a despencar.

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Tons tristes para um tempo triste: a Grande Depressão. Por sua vez, não é o progresso que chega – a construção da barragem da represa – que situa o público nesse tempo. É o exato oposto: o que se conecta à vida que não deu certo, à América aos cacos, é a ilhota à qual o protagonista dirige-se, da qual uma velha moradora não aceita sair.

Ela, interpretada pela sempre forte Jo Van Fleet, é a última resistente da região, à beira de um rio, no estado do Tennessee. A água inundará todo o local. Questão de tempo, de semanas. O advogado incumbido de negociar com a senhora – o último a tentar – é Chuck Glover (Montgomery Clift), de fala mansa, disposto ao diálogo.

Em suas pequenas travessias à ilhota, através da balsa que conta apenas com a força das águas, invade outro universo, velho mundo sem energia elétrica no qual brancos e negros convivem em paz, ao contrário do que se vê fora dali. Negros trabalham em troca de moradia e comida. Brancos vivem para ver suas estruturas resistirem.

As tentativas de aproximação a Ella Garth (Fleet) não têm sucesso. Chuck rodeia, fala com os outros, descobre histórias recobertas por toda essa natureza seca. Enxerga o que se espera, ainda que trabalhe a favor do progresso que sua firma encampa: gente como Ella não está nem um pouco interessada em dinheiro. São pessoas fincadas na terra.

Chuck descobre a jovem Carol Garth (Lee Remick), noiva, com dois filhos de outro casamento para criar. Ainda que inundações anteriores, no período de cheia, tenham retirado muito dos moradores locais, gente como Ella, não como Carol, ainda se apega ao pouco – ou muito, a depender do ponto de vista – que tem.

O espectador vê-se entre essa cruzada, com um protagonista correto mas inegavelmente a serviço dos barões; com pessoas difíceis, honestas, da estirpe dos que preparam suas lápides presas à amada terra antes mesmo de morrer; com brancos racistas, do lado de fora da ilhota, que não aceitam ganhar o mesmo que trabalhadores negros.

Kazan, com roteiro de Paul Osborn, das obras de William Bradford Huie e Borden Deal, não renuncia à calmaria. Tem total controle do tempo e une as várias peças desse tabuleiro. Faz com maestria, enquanto desenrola a história de amor que pouco a pouco ganha vez: Carol, como se presume, apaixona-se por Chuck.

Ele é sua porta de saída, seu recomeço; ela é sua conexão com aquele velho mundo que, ao fim, do alto de um avião, deixa ver apenas o cume da desaparecida ilha, ponto em que está o cemitério. O que resiste reflete a morte: o nome das pessoas que viveram e caminharam em um espaço que não existe mais. O cemitério é fantasma.

Até chegar à invasão das águas, o desafio do protagonista é revelado pelas velhas estruturas. Kazan, como já se disse, não tem pressa. Pela balsa, à força do rio, prende os futuros amantes à vontade da própria natureza: ali, em isolamento, nem de um lado nem de outro, com a resistente dona da ilha ou com os brancos racistas, o casal encontra a própria paz.

Carol diz o que o tempo deixa ver, o que significa aquele momento mágico: “faz tempo que não converso com ninguém”. Ou que não ama ninguém. Para ela – à luz das propostas daquele visitante inusitado, quieto, talvez cosmopolita demais -, a mudança é agora inevitável. Nada freia o progresso, compreende a mulher.

(Wild River, Elia Kazan, 1960)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
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