Perfil

A Professora de Piano, segundo Isabelle Huppert

No caso de A Professora de Piano, não sou de bancar a falsa modesta, sei que tenho a capacidade de interpretar algo bastante opaco e, ao mesmo tempo, muito frágil. Muito do sucesso obtido pelo filme se deve à opacidade, à hipótese de uma violência, de uma brutalidade, mesmo de uma monstruosidade. Se interpreto Medeia ou A Professora de Piano, não faço nunca economia de monstruosidade, da maldade que há nesses personagens, e sei onde colocar a fragilidade, onde está o ponto de ruptura no qual podemos nos reconhecer. Isso é o essencial.

(…)

É a história de alguém que de nenhuma maneira quer ser considerado como objeto sexual, que quer ser mestre de seu desejo, de seus sentimentos, de seu amor. Como atriz me senti bastante protegida por tudo isso. Não me sentia como um brinquedo, nem do diretor, do ator com quem contracenava ou mesmo do tema do filme. Foi um papel adulto para mim. Não era simplesmente um sofrimento mudo, era algo bastante ativo.

(…)

A personagem de A Professora de Piano é alguém que reflete, calcula, e que habita seu cálculo. É um filme sobre o controle e a perda de controle. Num certo momento, ela perde o controle de algo que quer evitar, mas não consegue.

Isabelle Huppert, atriz e protagonista de A Professora de Piano, de 2001, dirigido por Michael Haneke, em entrevista ao jornalista Fernando Eichenberg no livro Entre Aspas volume 1 (L± pgs. 322, 323 e 324).

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Liv Ullmann, 80 anos

Envelhecer muda a gente por dentro. Quando uma mulher é atraente, ela deposita muito de si em seu visual. Seu rosto é uma pintura. Diz tudo. Quando essa mulher envelhece e se olha no espelho, dependendo do ângulo da luz, ela vai se sentir bonita, achar encantos. Mas aí ela olha uma foto e vê que é mentira, pois o tempo está ali, na frente. Eu estou nessa fase, de ver que a pintura não é o rosto, é o interior. Mas ainda me sinto mais bonita do que as mulheres de botox. Minha face não tem retoques. Sou o que sou.

Liv Ullmann, atriz, em entrevista ao jornal O Globo, na ocasião do lançamento do documentário Liv & Ingmar, de Dheeraj Akolkar, em 2012 (leia aqui). Abaixo, Ullmann em Gritos e Sussurros, de Ingmar Bergman.

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Encontro com Rosetta

Luc Dardenne – Anunciamos que procurávamos moças de 16 ou 17 anos para ser a atriz principal de nosso próximo filme. Recebemos numerosas respostas de moças que queriam atuar. Não recordo quantas.

Jean-Pierre Dardenne – 500 ou 600.

Luc – Mais que isso.

Jean-Pierre – Mantivemos 500 ou 600 na primeira seleção.

Luc – Não, ficamos com 250. Sempre pedíamos por uma carta com foto. Só uma carta de apresentação. Só uma que dissesse “estou interessada…” ou apenas o endereço e uma foto. Baseado nas fotos, pelo menos, você sempre faz uma primeira seleção completa. “Aqui nós temos 250 candidatas em potencial.” Nós as filmamos… Mas não encontramos ninguém naquela seleção. Então, procuramos na pilha de candidatas de novo e acho que Jean-Pierre disse. “E ela?” Nós procuramos de novo nas candidatas dispensadas. E depois uma terceira vez. Procuramos diversas vezes. E então essa garota apareceu na seleção. Estava quente onde filmávamos. Nós mesmos fazemos a seleção. (…) Então essa garota entrou. Ela estava com muito calor. Então dissemos: “tire o suéter”. E ela estava de saltos. Dissemos: “tire seus sapatos”. “Sério?” Ela estava toda maquiada, cabelo feito, parecia a miss Bélgica. “É assim que eu me pareço quando me arrumo.” Então começamos a trabalhar. Ela estava descalça. Ela começou a suar. Seu rímel começou a sair. Seu cabelo, que ela enrolou, começou a se desfazer, porque pedimos para ela fazer algumas coisas várias vezes.

Jean-Pierre – Nós sentimos algo.

Luc – Especialmente em seus olhos. Ela tem olhos magníficos. Eles eram brilhantes, e se destacavam do suor e das lágrimas, porque ela praticamente chora para uma das cenas. Falamos para ela: “nós te avisaremos”. Sua mãe estava esperando na outra sala. Quando olhou para a filha, ela se assustou. “O que eles fizeram com você?” “Nada! Nós só trabalhamos com ela um pouco!” (risos) Ela era a melhor para o papel, mais intensa.

Um relato dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne, sobre como encontraram a atriz ideal para interpretar Rosetta, a personagem-título do filme de 1999, que ganhou a Palma de Ouro em Cannes. A eleita, Émilie Dequenne, também ficou com o prêmio de melhor atriz no festival. O trecho foi retirado de uma entrevista que se encontra nos extras do DVD do filme, lançado no Brasil pelo selo Obras-Primas.

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Encontro com Kubrick

Ele tinha me visto em Cabaret e pensava que eu fosse alemã, por causa do meu sotaque no filme de Bob Fosse. Ele ligou para Stanley Donen, que me conhecia muito bem, desde que eu era criança, pois era amigo de meus pais na Suíça. E ele me avisou que Kubrick ia me telefonar, pois queria que eu trabalhasse em seu próximo filme. Quando ele entrou em contato comigo, começou me falando, durante horas, de minha interpretação em Cabaret, com uma riqueza incrível de detalhes. Fiquei tão espantada que não consegui dizer uma palavra! No fim, me disse que estava preparando um filme sobre o século 18, e queria que eu interpretasse uma condessa inglesa, ele me enviaria o livro de Thackeray para que eu lhe dissesse o que pensava dele. Seis meses mais tarde, eu o conheci pessoalmente, quando fui viver em Londres para a preparação do filme. Fiquei lá dois ou três meses para aprender a dançar minueto, a usar um leque à maneira da época, a aperfeiçoar o sotaque de uma aristocrata inglesa, a cavalgar sentada de lado. Depois experimentei as roupas, a maquiagem, a peruca etc. Então ele me pediu para ir à Irlanda, onde se passava a primeira parte do filme, em que eu não aparecia. Fiquei três meses lá, sem filmar nada, e, quando lhe perguntei se podia voltar para casa no Natal, ele me disse para ficar ali, pois poderia precisar de mim no dia seguinte! Queria que seus atores estivessem sempre presentes, caso mudasse de ideia, pois não havia um roteiro totalmente escrito, e todos os dias ele fazia modificações.

Marisa Berenson, atriz, sobre sua entrada em Barry Lyndon, de Stanley Kubrick, em depoimento dado em junho de 1999 e reproduzido no livro Conversas com Kubrick, de Michel Ciment (Cosac Naify; pg. 286).

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