Midsommar: O Mal Não Espera a Noite, de Ari Aster

Os louros sorridentes vestem branco e convidam os visitantes para dias estranhos. Quem poderia, à primeira vista, desconfiar de gente tão bela, aparentemente feliz em rodas de dança, de meninas angelicais e senhores de barba branca? Aos visitantes o local parece sedutor, visão do paraíso.

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Isso, claro, até começarem as mortes e os desaparecimentos, estranhezas que, em Midsommar: O Mal Não Espera a Noite, devem-se antes a uma cultura. Os recém-chegados – entre eles estudantes de antropologia em busca do doutorado – têm dificuldades para aceitar o diferente e, em certo sentido, justificá-lo como característica de outra sociedade.

O horror não é provocado por uma ou outra pessoa. O mal não se dá como prazer ou vingança. O mal, às luzes claras, é traço de pessoas que deliram em grupo, que creem em deuses, que precisam trucidar o visitante, se necessário, para que a comunidade resista.

O diretor Ari Aster outra vez mostra como o grupo suplanta o indivíduo. Ou como velhas culturas embebidas em tons místicos atropelam os céticos. Quem viu Hereditário, seu filme anterior, recorda o desfecho, quando o grupo é exposto em ritual, quando ao jovem perdido, enclausurado, resta seguir o rito que agora ousa retornar.

Midsommar vai mais longe. Quase deixa o que há de fora para fora e para sempre, ao passo que os viajantes – sobretudo a moça que perdeu a irmã e os pais – percebem-se presos por essas pessoas – usados, mortos ou hipnotizados. Os falsos bondosos, em branco, conduzem os visitantes aos seus triângulos, suas preces de verão, seus sacrifícios, ao mesmo tempo em que todos aparentam manter uma relação de igualdade e entendimento.

Por sinal, Aster mostra os anfitriões sem nunca mostrá-los, sem nunca dar a um ou a outro peso maior – à exceção de Pelle (Vilhelm Blomgren), o amigo e elo com o mundo externo. O realizador filma o grupo, seres de passagem, personagens de uma seita de boa aparência e que deixam vazar, entre luzes fortes, situações de medo.

A protagonista é Dani (Florence Pugh). Aos amigos do namorado, Christian (Jack Reynor), ela é o estorvo, a moça que separa os amigos, que atrapalha a viagem regada a drogas e descobertas. Pois Dani carrega um trauma, o que torna sua presença na nova comunidade ainda mais difícil. Ela precisa entender como os outros lidam com a morte.

Sua irmã, uma suicida, matou seus pais. A ela restou o namorado. E ele, por sua vez, parece estar ligado à moça mais por pena que por amor. A relação diz muito sobre dependências criadas por pessoas de um mundo supostamente moderno, no qual a continuidade da vida baseia-se em afetos particulares, no presença do outro, no indivíduo. E seria essa, ao que parece, a verdadeira ilusão de Dani: a morte de alguns é a morte de todos.

A começar pelo suicídio, nada da nova comunidade condiz com esse olhar ao particular. Celebra-se, com o grupo, a continuidade. Parece não haver ali qualquer gesto de ciúme ou dor em relação aos parceiros, e sequer há maridos, mulheres e filhos (da imagem da família convencional). A outra cultura impõe, primeiro, a desconstrução da norma.

Por consequência, o suicídio será agora uma escolha feliz, tal como a explosão do crânio um rito entre outros, necessário, ao que parece, para que os anfitriões encerrem um ciclo e sigam para novos corpos, novas vidas, em uma volta interminável que remete às estações do ano. Aos costumes de Dani, o suicídio cometido pela irmã é um gesto proibido, o horror.

Os outros, como os visitantes, usam substâncias alucinógenas para ampliar a relação com o universo ao redor, aflorar os movimentos desse espaço de flores, carne, desenhos nas paredes para contar histórias, símbolos de um livro sagrado e proibido. Como se espera, os viajantes cometem erros e são punidos. Desaparecem e aos poucos descobrem o que se assemelha a um plano macabro, o que para eles soa como conspiração.

Em algum ponto, real e alucinação confundem-se. É nessa abertura ao exagero, à explosão de cores que subverte a expectativa, que o filme de Aster revela-se grande: um mergulho no outro para ver a si próprio, à frente da montanha de rochas claras para celebrar o suicídio, seguido pela imagem inescapável, a dos parentes mortos.

(Midsommar, Ari Aster, 2019)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Hereditário, de Ari Aster

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