Hereditário, de Ari Aster

A protagonista de Hereditário constrói mundos em miniatura. O trabalho aos poucos converte-se em obsessão, fuga, maneira de dar vida ao universo ao redor: ela passa a reproduzir os espaços próximos, ambientes trágicos como o trecho da estrada em que sua filha pequena perdeu a vida, quando o filho mais velho dirigia o carro.

A aproximação ao menor é, ao que parece, a tentativa de enxergar o mundo do alto, controlá-lo, não apenas reproduzi-lo: uma dessas maquetes dá uma pista interessante, ainda no início do filme de Ari Aster, sobre a relação entre as personagens: a avó serve o seio à filha que talvez não possa – ou não quer – amamentar seu neto.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

A filha é a justamente protagonista, Annie (Toni Collette), a miniaturista a quem o poder de controlar escapa, rendida aos olhos de não se sabe quem, do aparente destino que lhe prega peças, na verdade a roupagem assumida por algo maligno que toma espaço mais e mais. Os detalhes dessa intriga cruzam gerações: partem da avó, passam pela mãe e atingem os filhos – todos, de alguma forma, presos a ambientes que parecem maquetes.

Da primeira imagem, da janela que revela a casa da árvore, parte-se à maquete que ganha vida, fica maior e tem movimento. A maquete é a própria casa. É assim no início, será assim no fim. Tudo leva à miniaturização, à impossibilidade de controlar o que foge às forças naturais e físicas, e o que aqui aterriza na questão familiar: essa força maligna é hereditária. Por isso, não se pode escapar ao mal, infiltrado entre gerações.

O terror de Aster às vezes perde o controle, fica entre o bizarro e o cômico. Por alguma sorte, restabelece-se para dar vez às novidades que a trama impõe: no caso de Collette, sobretudo, que começa a parecer louca, que confessa não ter desejado os filhos quando era mais jovem, quando tentou o aborto. A miniatura da avó que oferece o seio à filha que não deseja o bebê ajuda a explicar a necessidade de continuação da estirpe.

E ajuda a entender por que parte da crítica tem associado Hereditário a O Bebê de Rosemary, de Polanski, e Inverno de Sangue em Veneza, de Roeg: são filmes de terror sobre mães ou famílias que perdem seus filhos, sobre seitas demoníacas, sobre quebra-cabeças que não se resolvem caso não se apele a explicações que escapam ao mundo físico.

Vale rememorar a obra-prima de Roeg: o pai que lida com arte sacra, que enxerga as obras miniaturizadas em fotos, no início, corre para salvar a filha de capa vermelha, morta entre as águas de um lago escuro. Pais que passam a investigar ou compreender o sobrenatural e que ainda tentam reencontrar os filhos: o pai em Veneza, que percebe a imagem da menina de capa vermelha; a mãe que tenta se comunicar com o espírito da filha.

Entre sonhos e “roupa suja” lavada à mesa, o filme de Aster perde-se em algum ponto: ainda que suas composições sejam incríveis, que a grande casa sempre pareça feita à miniatura, o terror precisa ir um pouco além, ao ponto em que o exagero – sem necessariamente apelar ao sangue e à violência – dá vez ao corriqueiro, ao banal.

Só não piora porque Aster insiste em retornar a Collette, de longe a melhor coisa do filme. A atriz consegue ser a mãe desesperada que perdeu um filho, a mãe que talvez odeie aquela composição familiar e a vida que a rodeia (como o marido certinho vivido por Gabriel Byrne), a mulher obcecada pela possibilidade de falar com os mortos, a personagem que precisa descobrir o que há por trás do mal invisível que recai sobre sua casa, espaço que insiste em miniaturizar. A personagem da qual todos têm algum motivo para desconfiar, a “desequilibrada” que concede respostas ao espectador.

(Hereditary, Ari Aster, 2018)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Um Lugar Silencioso, de John Krasinski

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s