O Beco do Pesadelo, de Guillermo del Toro

As tantas mutações de Stanton Carlisle exigem um ator à altura. Em sua adaptação da obra de William Lindsay Gresham, esse é justamente o maior problema com o qual o diretor Guillermo del Toro tem de lidar: ainda que se esforce e em momentos não faça feio, Bradley Cooper não consegue atingir nunca a densidade necessária.

Diferente da versão clássica de 1947, dirigida por Edmund Goulding, del Toro busca novas camadas para a personagem e nos mostra mais o seu passado. O filme abre com o momento em que o protagonista enterra o corpo do pai e ateia fogo na própria casa, para depois tomar rumo incerto e terminar em um parque de diversões.

É o ponto final do ônibus e o início de um novo caminho. Ali, encontra um anão e o segue; tromba com um show de horrores no qual o mestre de cerimônias, dono do circo, apresenta uma fera, o geek, um homem que devora uma galinha aos olhos de todos – a 25 centavos de dólar. Estes serão cobrados de Stanton, que tenta sair sem pagar, que não esconde, ao longo de O Beco do Pesadelo, ter alguma empatia pelo prisioneiro.

Tratado à bebida, o geek esconde-se sob cabelos longos, sujeira, longe dos olhos das autoridades nos Estados Unidos entre a Grande Depressão e a Segunda Guerra Mundial, no país que se torna uma superpotência ao mesmo tempo em que, em terras profundas ou casas de espetáculo, ainda se serve de crenças, excentricidades e fantasmagoria.

Antes um homem de poucas palavras, Stanton descobre na retórica seu passaporte à fama. Começa a trabalhar no show e aprende a falar. Em dada altura, consegue convencer um policial com argumentos que recorrem ao espiritismo e salva o circo do prejuízo. Sabe que os homens sempre esperam ouvir histórias que outros sabem contar, e que todas guardam semelhanças: em geral, perdas de pais e filhos e, claro, espiritualidade.

Na estrada, Stanton aprende alguns truques lucrativos com Pete (David Strathairn) e sua companheira Zeena (Toni Collette). Enquanto ele afunda-se na bebida, a mulher deixa-se levar pela beleza do recém-chegado. O casal tem experiência em palcos e desenvolveu uma linguagem própria que o permite fazer adivinhações. Dotado dessa linguagem, o protagonista sabe que pode ir mais longe, com espetáculos fora das lonas e jaulas do circo.

ACOMPANHE NOSSOS CANAIS: Facebook e Telegram

Para tanto, precisa de uma companheira. A frágil Molly (Rooney Mara) será sua escolhida – também sua mulher, parceira de show, a quem ele, como todo aproveitador, retorna e usa para fins práticos. Uma menina que tem mais segredos do que imaginamos, alguém que recebeu choques elétricos em seus dias de circo e, a mando do amado, submetida a uma última interpretação: terá de ser a sósia de uma mulher morta.

Stanton cruza a linha que separa o espetáculo da crença: como adivinhador ou mágico, no fundo ele oferece o que todos – ou quase todos – entenderão como um truque; como médium, o charlatão não limita sua farsa apenas ao palco: ele passa a viver no estado de transe ao qual alguns ricaços recorrem quando o dinheiro – o mundo físico – não pode mais lhes garantir um freio para angústias ligadas a dramas familiares.

O homem pacato que se transforma em médium e enganador sempre foi mal. Só não assumia a si mesmo, como se pudesse apagar a lembrança de um crime. Ao longo de O Beco do Pesadelo, na representação dada-nos pela imagem das chamas que correm ao contrário, ele retorna pouco a pouco ao filho ao lado do pai moribundo, em sua velha casa.

É desse passado que Stanton tem medo: sua verdadeira natureza, posta a nu pela psicóloga Lilith (Cate Blanchett) em sessão de terapia. Como ele, ela é uma charlatona. Nesses Estados Unidos que vencem a crise e nascem como superpotência, os farsantes farejam-se em belos consultórios, ternos e salões, no jogo de adivinhação que inclui o interior dele (relatado no divã) e o mistério dela (na cicatriz e seu simbolismo).

Del Toro parte de um filme de horror e chega ao noir, terreno no qual o farsante chegado a dinheiro encontra uma farsante a quem o dinheiro não tem a menor importância. Ao contrário de Molly e Zeena, Lilith não é real; sua presença tem como passaporte o oposto à feira de diversões à qual Stanton será, outra vez, tragado: ela é a beleza que esconde a cicatriz, boneca de cera, tipo de monstro com o qual ele ainda não havia lidado.

(Nightmare Alley, Guillermo del Toro, 2021)

Nota: ★★★☆☆

SOBRE O AUTOR:
Rafael Amaral é crítico de cinema e jornalista (conheça seu trabalho)

Veja também:
O Beco das Almas Perdidas, de Edmund Goulding

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s