O Beco das Almas Perdidas, de Edmund Goulding

O ponto final do protagonista é dado ainda no início, quando duvidamos que Stanton Carlisle poderia descer tanto. Funcionário de um parque de diversão, primeiro ele parece-nos um espectador atento e sonhador, louco para estar dentro; logo descobrimos que ele já está ali, é um faz-tudo à espera de oportunidades, de um grande show no palco.

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O talento também não precisa ser explicado: desde os primeiros minutos de O Beco das Almas Perdidas, sacamos sua inclinação ao dom da retórica. Fosse este um filme sobre religião, seria ele o candidato perfeito ao pastor, ao Elmer Gantry de discurso inflamado, sob uma tenda, a captar a atenção e mobilizar olhares e crenças ao redor.

Stanton é quase isso. Em algum ponto, decide lidar com o ocultismo. Sabe que, no domínio do sobrenatural, pode se fortalecer ainda mais, mesmo que os riscos sejam maiores. Para alguns, será uma figura divina, o médium à frente de um show de adivinhação; para outros poucos, será o que é de verdade e o que sabemos desde sempre: um charlatão.

Tornar-se a atração principal do parque de diversões não é tão difícil como parece. Há por ali o que chamam de “geek”, meio homem, meio animal, preso a uma jaula, um ser degradado tratado a litros de álcool para ser o que o dono do espaço deseja. No show, ele deve se limitar à jaula e devorar galinhas. É a atração principal: a realidade.

Eis o que há de mais interessante no filme de Edmund Goulding, com roteiro de Jules Furthman a partir da obra de William Lindsay Gresham: descer ao inferno significa aceitar o que o mundo real – de miséria, alcoolismo, abandono e crime – tem a oferecer. O declínio serve-se do destino comum às almas atormentadas do cinema noir.

Posto na encruzilhada, o Stanton de Tyrone Power é o tipo gigolô à espera do salto, alguém que explora a beleza e as palavras para ser o que os outros esperam. Veste camisa cavada colada ao corpo e se joga em Zenna (Joan Blondell) na esperança de que ela, a amante, torne-o oficialmente o substituto do marido alcoólatra (Ian Keith), com quem divide um show em que, vendada, consegue adivinhar o que o público escreve em pedaços de papel. A apresentação nada tem de mágica; trata-se de um código de linguagem entre a dupla.

Aprender o código custa caro. O roteiro de Furthman não precisa explicá-lo. Sabemos das jogadas e o importante é seu resultado. Com o código, Stanton percebe que o parque de diversões é pouco; logo se une a uma bela moça que, como todas, talvez não ame, Molly (Coleen Gray), e passa a vender esse show a grandes casas de espetáculo.

Quanto mais inumano tenta ser – papel que, garante aos crédulos, coloca-o em contato com espíritos – mais e mais é vítima de seu estado interior, humano. Seu passado longínquo ou recente atormenta-o: por trás da capa do mágico imbuído de controle reside a figura fragilizada que, nos meandros da psicologia, encontra seu par perfeito.

Trata-se da psicoterapeuta Lilith Ritter (Helen Walker), a terceira representação da mulher ao homem na corda bamba: diferente de Zenna (o desejo sexual) e Molly (a menina a servir aos negócios), Lilith faz o protagonista ver-se no espelho: como ele, é uma farsante, também capaz de jogar um jogo de adivinhação em que o outro é a vítima.

Não nos enganemos: Stanton não se entregou às trevas do alcoolismo e da vida como mendigo porque sua farsa foi descoberta por um de seus clientes. Com Lilith, sua terceira sócia feminina, ele descobre que o charlatanismo sobrevive melhor quando ocultado pelo consultório e pelo divã. Traído por ela, que o decifrou, não sobra mais nada. Cumpre-se o que apontava o tarô de Zenna: o beco, a degradação, a jaula.

Goulding sabe explorar a nada glamourosa vida em um parque de diversões. Seus grandes desenhos para atrair público e os bastidores assustam. Para alguém como Stanton, ou como Zenna ou como Molly, mas não para alguém como Lilith (cuja trapaça dispensa o palco), é o momento para fazer do truque a chance de ser alguém.

(Nightmare Alley, Edmund Goulding, 1947)

Nota: ★★★★☆

SOBRE O AUTOR:
Rafael Amaral é crítico de cinema e jornalista (conheça seu trabalho)

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