Andrei Rublev, de Andrei Tarkovski

Não causa estranheza que o monge-pintor Andrei Rublev termine sem voz. Sua caminhada, em alguns anos de vida, leva-o aos problemas do mundo, sua selvageria, sua irracionalidade, o outro incompreensível: os pagãos, os loucos, os tártaros, os traidores, os obcecados por determinada empreitada, como a construção de um sino.

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O problema de Rublev, interpretado da aparente juventude à velhice precoce por Anatoliy Solonitsyn, é ser espectador de seu tempo, desse painel histórico que não se quer histórico por completo, pequena grande história de instantes que, pela genialidade de Andrei Tarkovski, dá conta de sinalizar toda sua beleza e horror.

Não precisamos saber tudo sobre Rublev para compreendermos seus sentimentos, sua dor, sua possível descrença ao observar com olhos atentos e nenhuma fala a empreitada louca do sino, ao abraçar o garoto, na cena final, para enfim voltar a dizer algo. Algo como o consolo para a alma que, a despeito do esperado, não se deixou consumir pelo mal.

Nem quando mata um homem Rublev quer ser visto. Tarkovski projeta o ato fora do campo; vê-se apenas o corpo da vítima caída na escada da igreja, soldado russo que tentava abusar de uma garota, protegida do protagonista. A essa altura, o monge-pintor embrenha-se demais no mundo dos homens; em seguida, perturbado, perde a fala.

A obra-prima do cineasta soviético pode ser descrita como um estudo do tempo, da influência religiosa, da arte que em algum momento, crê a personagem-título, perde o sentido. Começa e termina com grandes ações, contra e a favor da religião: com um balão, o homem tenta voar; com a força de inúmeras pessoas, entre lama, tenta-se erguer o sino de prata.

Ao que parece, os homens que querem parar o balão são religiosos. A ideia de voar, ter asas como anjo, talvez soasse como afronta aos olhos de Deus perante seus seguidores. Por que o diretor escolheu iniciar o filme com tal episódio? Em cena, a ação em direção à divindade – voar como anjo – mescla-se a uma espécie de experimento científico – voar.

As grandes empreitadas – também os sacrifícios, em certa medida – só são permitidas aqui quando acompanhadas de sentido religioso. Fora dessa esfera, na época em que corre a história, liberdade confunde-se com soberba, como no caso do homem e seu balão.

Com Rublev, tem-se em seguida uma viagem por diferentes locais, entre chuva, barro, neve, ao encontro das mais diversas pessoas. Em uma primeira parada, ele e seus colegas monges pedem abrigo em uma espécie de curral com outros homens, crianças também. Um deles é o bufão, sempre pronto para provocar gargalhadas.

Em bela cena, os recém-chegados observam o mesmo homem de costas e a chuva sobre seu corpo; ele não precisa se proteger, permite ser atingido pela água. Sua libertação dura pouco: soldados param por ali e o agridem; golpeado, desmaiado, é posto sobre o cavalo.

Em outro momento, Rublev conversa com um monge superior. Conta que foi convidado para ir a Moscou pintar uma capela. Seu nome é conhecido. O diálogo abre questões curiosas, como a possível relação amorosa entre homens. Ao outro, Daniil (Nikolay Grinko), o protagonista lembra que ambos estiveram juntos na mesma alcova e que sua companhia possibilitou que visse o mundo por seus olhos. Ou seja, que amadurecesse.

A jornada não será fácil. O herói conta apenas com seus olhos, e com estes é obrigado a olhar, a sentir, a descobrir o indesejado. Pela floresta, assiste à libertinagem dos pagãos; por um castelo, à invasão dos tártaros com a ajuda de um príncipe traidor. No isolamento, tem a companhia da menina que salvou, e que logo escolhe ir embora com o inimigo.

Pintar quadros ou capelas pode ser uma expressão artística ou religiosa, ou ambas. Para Tarkovski, a arte é um estado de elevação espiritual. “A arte nasce e se afirma onde quer que exista uma ânsia eterna e insaciável pelo espiritual, pelo ideal: ânsia que leva as pessoas à arte”, afirma o realizador no livro Esculpir o Tempo.

O tempo frio e extenso de Andrei Rublev permite contemplar a tinta que se dissolve na água, detalhes da argila queimada ao redor do grande sino, paredes brancas antes de receberem a pintura, todo um universo no qual a arte, à primeira vista, não muda nada. No fundo, o pintor é coadjuvante do painel vivo; em seu interior, empresta-nos os olhos para que vejamos o pior e o melhor dos homens, o curso irrefreável da arte e da barbárie.

(Andrey Rublev, Andrei Tarkovski, 1966)

Nota: ★★★★★⤴

Veja também:
O cinema de Sergei Eisenstein, segundo Andrei Tarkovski

2 comentários sobre “Andrei Rublev, de Andrei Tarkovski

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