Andrei Rublev

Guerra Fria, de Pawel Pawlikowski

O momento supera a História. Em cena, homem e mulher vivem suas vidas marcadas pelo instante. O título é enganoso e não é: Guerra Fria. Pode soar falso pela indicação histórica, como se abordasse décadas de um mundo dividido; revelar-se-á, ainda assim, verdadeiro: a história que importa é a humana, aparentemente pequena.

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A História segue ali, aos cantos, não imperceptível. Os amantes relutam em ficar juntos não por falta de amor, mas por algo que insiste em separá-los, difícil de ver e explicar. A cada encontro, contrapõem o frio – não só o do título – com abraços calorosos, toques que, sem esforço, indicam a paixão que sobrevive à História, ao correr dos anos.

A história de amor, estranha como qualquer outra, que não se quer certa e frequentemente se serve de distâncias e trombadas, é o molde à confrontação de algo maior, dos eventos que cortaram o globo, das ideologias que respiravam as nações desse tempo em que se insistia na impessoalidade, na mecanização, na estupidez.

Do gelo aos tapas, às revelações de traição, até aos pequenos vícios de relacionamentos – qualquer um, é bom que se diga -, surgem amostras de um mundo verdadeiro, a dois, do que realmente importa: contra todos os caminhos, à vista de todos os obstáculos, os amantes seguem a se encontrar – nos bares, no círculo dos partidários, no cárcere.

Essa história de amor que poderia ser como qualquer outra é, para o diretor Pawel Pawlikowski, ao mesmo tempo afirmação e recusa: o sentimento resiste, as vidas expostas nunca serão semelhantes às outras, a despeito de certa padronização dos corpos no palco, dos blocos de gelo, do homem político reproduzido em série.

Zula (Joanna Kulig), de dentes um pouco afastados, rosto feito à revolta, é intrigante. Aparece à frente das paredes descascadas em uma grande casa, no pós-guerra, que abrigará uma companhia de dança e músicos. Quem a avalia é Wiktor (Tomasz Kot), logo apaixonado pela pequena beldade, musa escondida em roupas surradas.

O espectador não demora a compreender o homem: Zula é diferente, é forte, feita de ferro e fogo – inclusive contra as ideologias de então, e nem sempre a gritar o que pensa. É o centro de uma relação, a busca do músico polonês que foge de seu país embebido em política para se ver à luz do jazz, na França, em noites badaladas de gente livre.

Eles voltam a se encontrar de tempos em tempos. Guerra Fria é a história desse reencontro, no universo de dois seres que insistem na inconstância, na exposição do humanismo frio, deslocado, dos estouros de pessoas apaixonadas – a começar por Zula. Ao público – de seus shows, do cinema -, a moça evidencia magnetismo, canta com dor.

Essa voz que tanto se esforça, dessa sobrevivente que, contam, teria matado o próprio pai e sido presa no passado, reproduz aos demais a melancolia de um tempo do qual pouco se espera, a paralisia contra a qual os amantes lutam, a feminilidade sem perder o embrutecimento – o que tais dias, por certo, não dispensavam.

A fotografia de Lukasz Zal é espetacular. No início, um dos homens da companhia de música, entusiasta dos stalinistas, vê-se no interior de uma igreja abandonada. Símbolo do pós-guerra e da guerra – a fria – a qual adentra. Nas paredes, Zal, sob o comando de Pawlikowski, flagra os olhos do que parece ser o Cristo da pintura de Andrei Rublev. Se não é, parece.

À mesma igreja perdida os amantes retornam no fim. Não é coincidência. O último refúgio àqueles com alguma fé, não por simples acidente. Juram o amor que resta, ou o que manterão – espíritos – para sempre. Sem concessões, encontram o caminho possível para continuarem juntos – contra tempos politizados, de ufanistas e falastrões.

(Zimna wojna, Pawel Pawlikowski, 2018)

Nota: ★★★★☆

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13 grandes filmes sobre personagens em viagens existenciais

O caminho de diferentes personagens não se limita ao simples deslocamento. Como se vê nos filmes da lista abaixo, são viagens de significados profundos. De descobrimento. A estrada pode assumir sua forma conhecida, de terra ou asfalto, ou mesmo a inimaginável, quando o homem sai em busca de outros planetas e dimensões. A lista traz obras de diferentes diretores, de Ingmar Bergman a Andrey Zvyagintsev.

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Morangos Silvestres, de Ingmar Bergman

Um velho professor viaja para receber uma homenagem. É o que lhe resta para coroar a vida, enquanto, na mesma viagem, assiste ao passado, às lembranças, tomado de assalto. A aparente vida pacata toma outro rumo. Ao mesmo tempo, tem de conviver com jovens que cruzam seu caminho na bela obra de Bergman, autor de mais filmes sobre viagens existenciais, como Monika e o Desejo e O Sétimo Selo. O protagonista é interpretado pelo cineasta Victor Sjöström.

morangos silvestres

Édipo Rei, de Pier Paolo Pasolini

Nem sempre fica entre os mais lembrados do controvertido italiano. É parte daquela galeria mítica do cineasta, à qual se lança para explorar diferentes autores. Com Édipo, tem-se o homem luta contra o próprio destino. Ao longo de sua jornada, matará o pai e se casará com a mãe. Pasolini também investiu tempo e esforços em outras histórias sobre viagens existenciais, como em Gaviões e Passarinhos, e sua própria jornada tornar-se-ia, depois, outra jornada existencial pelas mãos de Abel Ferrara.

édipo rei

2001: Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick

Na aurora do homem, o macaco lança o osso ao alto e, milênios à frente, este dá vez à nave espacial. O salto de séculos, diz Kubrick, é a maior jornada possível: é a consagração máxima da elipse no cinema, o poder do corte, a amostra de que a máxima tecnologia é fruto da violência. Depois, no futuro, o homem toma outra jornada. Lutará contra sua própria máquina – sem aparência nítida, com voz humana – enquanto assiste ao nascimento de outro mundo. Possivelmente o melhor filme do diretor.

2001 uma odisseia no espaço

Cada um Vive Como Quer, de Bob Rafelson

À medida que tenta se incluir, a personagem de Jack Nicholson termina sempre em explosão. E a certa altura fica clara sua renúncia: simplesmente deixa tudo, o mundo para trás, e embarca para lugar algum. Robert Eroica Dupea não quer mais jogar o jogo. Quer encontrar uma saída, um caminho, talvez um amor no meio de toda sua baderna interna e externa. Nicholson chega ao âmago de uma geração com sua personagem niilista.

cada um vive como quer

A Longa Caminhada, de Nicolas Roeg

O ponto de partida dessa viagem é o conflito entre a civilização e o mundo selvagem. Após o suicídio do pai, dois irmãos ficam perdidos no deserto australiano e, com a ajuda de um jovem aborígene, tentam encontrar o caminho para casa. O mesmo caminho levará a diferentes descobertas. O diretor Nicolas Roeg vinha de outra “viagem” ousada em Performance, e ainda faria outra, logo depois, com o magistral Um Inverno de Sangue em Veneza.

a longa caminhada

Profissão: Repórter, de Michelangelo Antonioni

O jornalista, ao ter de capturar a vida alheia, talvez nunca esteja totalmente inserido em um meio. A personagem central do filme de Antonioni é interpretada por Nicholson, em outro momento sublime, como o jornalista que muda de vida ao trocar de identidade com um homem morto. A mudança ocorre em um hotel distante, na África, continente ao qual é enviado para sua nova reportagem. O protagonista, Locke, passa a se chamar Robertson e busca assim outro caminho para sua existência.

profissão repórter

Stalker, de Andrei Tarkovski

Outro cineasta que se dedicou a diferentes “viagens existenciais”, com suas personagens percorrendo caminhos físicos e íntimos ao mesmo tempo. Vale lembrar outros de seus filmes – ou de quase todos – que cabem no tema: A Infância de Ivan, Andrei Rublev, Solaris, O Espelho e Nostalgia. Mas Stalker talvez simbolize melhor a busca pelo desconhecido, em um clima selvagem e ao mesmo tempo futurista, quando alguns homens – os stalkers – tentam alcançar um lugar mítico chamado Zona.

stalker

Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola

A ideia de levar No Coração das Trevas às telas é antiga. Foi levada em conta por Orson Welles, que sequer conseguiu finalizar outra importante jornada da sétima arte, seu É Tudo Verdade. Na versão de Coppola, gestada por anos, encontram-se a composição perfeita, as personagens imperfeitas, o provável discípulo em busca do mestre – talvez para matá-lo e tomar seu posto. Martin Sheen é tão sombrio quanto Brando. Outra figura repulsiva é o Kilgore de Robert Duvall, capaz de destruir uma aldeia para poder surfar.

apocalypse now

Sem Teto, Nem Lei, de Agnès Varda

Os filmes anteriores de Varda são carregados de dor. É o caso de La Pointe-Courte, que antecipa a nouvelle vague, e o incrível As Duas Faces da Felicidade. Nos anos 80, com Sem Teto, Nem Lei, ela mergulha na jornada de uma jovem pela estrada. Chama-se Mona Bergeron (Sandrine Bonnaire), cuja imagem não é suavizada. A partir de histórias de pessoas que cruzaram com ela, essa viagem não a revela por completo, o que fica evidente desde o início.

sem teto nem lei

Paisagem na Neblina, de Theodoros Angelopoulos

Com crianças à frente, o filme de Angelopoulos ganha uma forma especial: cada pequeno trecho percorrido tem sentido de descobrimento maior. Quando se chega ao plano final, com a paisagem sob a neblina, percebe-se que nem tudo pode ser visto. Nessa jornada de descobrimento, as crianças desejam encontrar o pai que nunca conheceram, em viagem da Grécia para a Alemanha, ao passo que são obrigadas a amadurecer.

paisagem na neblina

Naked, de Mike Leigh

O melhor filme de Leigh acompanha o deslocado Johnny (David Thewlis), que furta um carro e foge após violentar uma mulher – nos primeiros e conturbados instantes da obra. Contra todos, a arma do protagonista é a palavra: fala sem parar, como uma metralhadora, e chega a enlouquecer lançado ao chão. Ao procurar uma velha amiga, esse anti-herói termina perdido pelas ruas de Londres e se encontra, ao acaso, com os mais diferentes tipos. Filmaço.

naked

Gosto de Cereja, de Abbas Kiarostami

Viagens e janelas são constantes nos filmes de Kiarostami. Em um de seus últimos trabalhos, Um Alguém Apaixonado, as personagens andam muito de carro e falam através das janelas. A obra, por sinal, termina com o rompimento de uma. Em Gosto de Cereja, feito antes, tem-se um homem a bordo de seu carro, que pede aos outros que lhe façam companhia no momento da própria morte. Ele desistiu de viver e precisa que alguém o enterre.

gosto de cereja

O Retorno, de Andrey Zvyagintsev

Antes do sucesso de Leviatã, o diretor russo realizou esse filme forte, ganhador do Leão de Ouro no Festival de Veneza. Em cena, a trajetória de dois irmãos com o pai desconhecido. Até então, o único contato com o homem havia se dado por uma foto. Nessa viagem, eles descobrirão outra face do lado paterno, em diversos conflitos. A fotografia gélida ajuda a dar o tom. Zvyagintsev dirigiria depois o poderoso Elena, sobre uma mulher que luta para ter a herança do companheiro.

o retorno

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15 filmes para refletir sobre a morte (e sobre a vida)

20 grandes filmes que abordam a religiosidade

No cinema, a fé nem sempre move montanhas. Há casos em que ela só traz desgraças, ainda mais em filmes com tom crítico, sobre fanatismo e intolerância. Por outro lado, a fé pode levar diferentes personagens, em diferentes séculos, a estranhas descobertas, à constatação de que o mundo é maior – e mais material – do que parece.

Sem dúvida, mundo estranho, a abarcar diferentes posições religiosas, toneladas de incompreensão e, felizmente, a arte como resposta, como reflexão sobre esses diferentes olhares – aos quais a lista abaixo, com filmes variados, pretende apontar.

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Narciso Negro, de Michael Powell e Emeric Pressburger

Em ambiente afastado, à beira do abismo, freiras confrontam outra cultura e seus próprios desejos nessa obra-prima feita com a mágica fotografia de Jack Cardiff.

narciso negro

Domínio de Bárbaros, de John Ford

A personagem de Henry Fonda é o padre perseguido por um totalitário governo mexicano, enquanto Ford extrai grandes sequências e os sinais da absolvição do herói.

domínio de bárbaros

O Diário de Pároco da Aldeia, de Robert Bresson

Quanto mais próximo das pessoas, mais o padre ao centro do filme de Bresson levanta questões sobre a existência e até mesmo sobre sua própria vocação.

diário de um pároco da aldeia

A Palavra, de Carl Theodor Dreyer

Um dos membros de uma família do campo acredita ser Cristo e, para o susto de seus irmãos e pai, diz palavras fortes e talvez veja o inimaginável na obra de Dreyer.

a palavra

A Harpa da Birmânia, de Kon Ichikawa

Após não convencer um grupo de soldados sobre a derrota do Japão na Segunda Guerra, harpista do exército vê a morte e converte-se em monge nesse belo drama.

a harpa da birmania

Léon Morin, o Padre, de Jean-Pierre Melville

Em tempos de guerra, o padre de Belmondo atrai o olhar das mulheres. Uma delas, ateia, não encontra respostas na Igreja e passa a se encontrar com esse padre.

leon morin

Luz de Inverno, de Ingmar Bergman

Os tempos de incerteza, de bombas nucleares, não deixam respostas: o pastor de uma igreja entra em crise de fé ao não conseguir reconfortar um fiel de seu rebanho.

luz de inverno

O Evangelho Segundo São Mateus, de Pier Paolo Pasolini

O melhor filme já feito sobre Cristo. Pasolini, ateu e homossexual, dizia não ser religioso e que a tônica de sua obra estava mais na poesia do que na busca da realidade.

o evangelho segundo são mateus

Simão do Deserto, de Luis Buñuel

Outra crítica do diretor espanhol – autor do “Sou ateu, graças a Deus” – à Igreja, ao abordar a história de um eremita tentado pelo Diabo e suas formas inesperadas.

simon do deserto

Andrei Rublev, de Andrei Tarkovski

É sobre o famoso pintor do século 15 e suas andanças pelo mundo, suas dúvidas sobre a religiosidade e seus encontros com situações impensadas. Grande obra de Tarkovski.

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A Grande Testemunha, de Robert Bresson

Todo filme de Bresson toca a religiosidade. Nesse caso, acompanha-se o burrinho, animal inocente que cruza a vida de diferentes pessoas, do nascimento à morte.

a grande testemunha

O Homem que Não Vendeu Sua Alma, de Fred Zinnemann

Inglaterra, século 16. Sem abandonar seus princípios religiosos, o pensador Thomas More não aceita o novo casamento do rei Henrique 8º, o que o leva à prisão.

o homem que não vendeu sua alma

Irmão Sol, Irmã Lua, de Franco Zeffirelli

A história de São Francisco de Assis, que passa da vida rica à condição de pobreza, depois ao encontro com o papa. Um dos filmes mais famosos de Zeffirelli.

irmão sol irmã lua

Sob o Sol de Satã, de Maurice Pialat

O vencedor da Palma de Ouro de Pialat inclui o caminhar de um padre que, no desfecho, chega a tentar o milagre para salvar a vida de uma criança.

sob o sol de satã

Ondas do Destino, de Lars Von Trier

A busca por satisfazer os desejos do marido inválido transforma uma mulher ingênua e religiosa em vítima dos ortodoxos de sua igreja nesse belo filme de Von Trier.

ondas do destino

Maria, de Abel Ferrara

Um homem que trabalha em um canal de televisão não consegue se comunicar com Deus; em paralelo, uma atriz interpreta Maria, mãe de Cristo, e se transforma.

maria

A Fita Branca, de Michael Haneke

À beira da Primeira Guerra Mundial, pequena comunidade religiosa passa a sofrer com estranhos casos de violência enquanto alguns se questionam sobre a origem do mal.

a fita branca

Homens e Deuses, de Xavier Beauvois

Caso real passado na Argélia, sobre o massacre de monges franceses que tentaram resistir à presença de grupos armados que ameaçavam atacar a região.

homens e deuses

Além das Montanhas, de Cristian Mungiu

Amigas reencontram-se na Romênia, onde uma delas vive a clausura de um monastério. Tudo muda quando o padre local acredita que uma das moças está possuída.

além das montanhas

14 Estações de Maria, de Dietrich Brüggemann

Em 14 episódios, a via-crúcis de uma garota: os ensinamentos do padre, a intolerância da mãe, a culpa por desejar um garoto e a “crucificação” para salvar o outro.

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