Coisas Secretas, de Jean-Claude Brisseau

A garota – mais bela do que parece, mais jovem do que sustenta – é testada pela amiga enquanto aprende alguns truques para conquistar e destruir um homem: a outra quer saber se ela consegue simular um orgasmo. Sandrine (Sabrina Seyvecou) encosta a cabeça na cama, inicia a simulação e a câmera permanece nela por tempo significativo.

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A fixação gerada por esse fingimento – o da atriz dentro de outra – explica o rumo tomado por Jean-Claude Brisseau em Coisas Secretas: as pessoas (mais os homens que as mulheres, ao que parece) deixam-se levar pelo ato abertamente falso. Será excitante mesmo com o descortinar do show, como em uma apresentação de striptease.

O poder feminino é dado assim: o que importa é a imagem, a posição do corpo, o som da voz, o retorcer do tronco enquanto a mão desce às partes íntimas. O gozo não será oferecido a todos, ou a quase ninguém; o gozo, para Sandrine e sua amiga, ou sua mestra, será fruto do prazer de dominar, ter à vontade, exibir-se em público, de não ser o que esperam delas.

Sexo como dominação, ascensão social, tentativa de controle. Relações de carne que fingem quentura e guardam frieza, nos recônditos do mundo empresarial, entre engravatados e mocinhas bem vestidas, bonequinhas que podem, a depender da escolha, sacar um senhor abobado no alto de seus 50 anos, ainda disposto a descobrir o grande amor.

A sentir, com Sandrine, a partir dos ensinamentos e dos jogos propostos por Nathalie (Coralie Revel), o que nunca havia sentido, conforme o próprio revela. E Brisseau não deixa por menos: nada há de mais enjoativo do que um adulto apaixonado, de joelhos para uma menina que ousa, tarde da noite, ainda no escritório, masturbar-se aos seus olhos.

Tão bobo, não percebe a interpretação; levado aos encantos dela, assiste ao seu sexo com a amiga, nas maquinações que desembocam não em desejo, mas no puro teatro de onde saíram: enquanto Nathalie exibia-se nua aos clientes de uma casa de striptease, Sandrine servia o balcão. A segunda, claro, invejava a primeira e sua forma adulta de dominação.

Quando ambas são despejadas do emprego, a mais nova vai morar com a outra. É quando começam a pôr em prática os jogos de sedução e destruição: a regra, como em uma versão feminina de Na Companhia de Homens, é detonar o sexo oposto. A fúria, por sinal, tem explicação: as mulheres cansaram de um papel submisso em certa escala social.

A partir dos ensinamentos de Nathalie, Sandrine tentará ser outra. Inegavelmente representará algum amadurecimento, sem a aparência sonhadora que antes deixava escapar em seus dias de atendente no bar. Nem seu corpo ela deixa prever: é uma mulher excitante que sabe interpretar, erigir o desejo em pele, para lançar homens ao fundo do poço.

A protagonista quer saber por que as pessoas costumam se sentir atraídas justamente pelos parceiros e parceiras mais difíceis. “É o grande mistério da natureza humana: nos prendemos primeiro a quem nos evita e escapa”, explica Nathalie, a quem as mulheres, em geral, não têm confiança nelas próprias e não ousam. Diz ter aprendido muito com a mãe. “O sexo é uma arma que rapidamente escraviza. Mas os escravos têm de ser os outros.”

Pois não contavam que a escravidão poderia chegar às mais experientes. Na empresa em que trabalham, veem-se fascinadas pelo filho do chefão, Christophe (Fabrice Deville), a quem Eros e Tânatos coadunam-se o suficiente para que despreze qualquer forma de amor ou sentimento, alguém capaz de sentir algo apenas pela própria irmã e, por isso, à contramão da sociedade cristã. Em suas festas o sexo corre livre, a companheira pode ser servida aos demais e, sim, escravizada nos porões em que homens e mulheres devoram suas presas.

A ousadia maior de Brisseau está na composição de personagens que preferem jogos e regras de sobrevivência a sentimentos que aparentemente enfraquecem. Se em momentos seu filme é cafona – como na cena de sexo a três com a irmã de Christophe (Blandine Bury), próxima de um pornô dos anos 1990 -, em outros a natureza humana pulsa o suficiente para descontrolar o espectador, fazê-lo perceber ser vítima de um golpe, algo como o orgasmo simulado de Sandrine, nem por isso menos impactante.

(Choses secrètes, Jean-Claude Brisseau, 2002)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
O Som e a Fúria, de Jean-Claude Brisseau

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