cinema francês

A escalada ao rosto – e aos sentimentos – de Romy Schneider

A arte é um exercício de dor e, nos filmes do  diretor Andrzej Zulawski, não existe sem entrega, sem explosão. Suas personagens sofrem, choram, algumas aproximam-se da convulsão. A regra é sempre a entrega à aparente loucura, ao histerismo. Mesmo seus atos mais comportados devem algo ao horror, ao desespero.

Desde o título, o que está em jogo em O Importante é Amar é a capacidade de se entregar à arte e se deixar consumir pela mesma. É a possibilidade – a dificuldade, ainda mais – de ser real, de ser o mesmo, enfim, de ser. Estar na personagem por inteiro – ou na foto, ou na câmera. Desde o início, é o que aflige a personagem de Romy Schneider.

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À mulher talvez seja difícil ser ela própria. Seu passado retorna aos poucos, suas dores também. Uma mulher salva por um homem, um cinéfilo, e que vive à sombra de outros que a circulam. Em seu caso, a arte é praticamente um mal: oferece-lhe o espelho que tanto nega, o olhar ao interior, o choro verdadeiro, sincero, enquanto se sente bloqueada.

Mas se a arte só existe com entrega, o que fazer? Talvez seja este o verdadeiro drama dessa atriz, o que capta a câmera da personagem de Fabio Testi. É na abertura que o filme inteiro se resume, no cruzamento de olhares, de artes – encontro ao “acaso” celebrado pelo cinema, no momento da filmagem, no filme dentro de outro.

O que se vê primeiro é Schneider de corpo todo. É apenas o começo de uma escalada que terminará em seu rosto, em sua dor, enquanto a cineasta do filme dentro de outro pede que ela diga as palavras mais conhecidas das histórias de amor: “eu te amo”. As palavras remetem a algo forte, não se desligam da mulher verdadeira.

O corpo inteiro, em plano médio, fita a câmera de Zulawski. Antes a câmera verdadeira, a do filme, e depois a do filme como parte da ficção. O corredor convida à passagem, deixa ver, porta a porta, suas camadas, suas membranas, à medida que a atriz dirige-se ao fundo, ao sangue, ao homem que sua personagem ama e deve ir em socorro.

As personagens centrais serão apresentadas logo no primeiro plano e em outros, seguintes, que se desenrolam durante a filmagem. De tão forte, essa abertura faz a conexão entre o casal central funcionar, e tudo o que vem pela frente não precisará de preliminares: ambos já estão tão conectados que o filme todo corre sem esforço.

E toda a violência de Zulawski – suas “chicotadas”, suas figuras gritantes, que não raro apelam à palhaçada, ao excêntrico – funciona à base dessa abertura que dispensa palavras “reais”, que prefere a suposta encenação, ou o olhar trocado entre o casal. Ele, um intruso no set de filmagem, fotografa-a em momento-chave, justamente quando a atriz precisa ser verdadeira, quando é cobrada para dar tudo e dizer “eu te amo”.

“Não posso fazer isso”, diz a atriz de Schneider. “Você é paga para isso”, rebate a diretora. Ao mesmo tempo, Servais (Testi) posiciona-se para arrancar o close-up da bela mulher – um dos mais tristes da História do Cinema. “Não faça fotos, por favor. Sou uma atriz. Sei fazer bem as coisas. Faço-o para poder comer. Não tire fotos.”

As palavras ao fotógrafo explicam muito sobre a mulher: a tentativa de se distanciar da personagem, de desvincular a vida da ficção, pois tudo aquilo é “apenas um trabalho”. O filme todo é a jornada da atriz à sua descoberta, às suas entregas, aos seus desejos. E a abertura será a escalada – do plano-sequência do corredor, durante os créditos, às sequências passadas em outra sala, enquanto a atriz é dirigida – ao rosto, ao close-up.

Vida e interpretação confundem-se naquela face. Difícil saber quem chora de verdade. A personagem que sofre com o amante morto nos braços ou a atriz que não quer mergulhar na personagem que lhe foi dada? Fora desse espaço, Nadine (Schneider) tem uma vida, ou tentou construir uma. É casada com Jacques (Jacques Dutronc).

O filme de Zulawski, a partir da obra de Christopher Frank, pode ser compreendido como uma nova versão de O Desprezo, de Jean-Luc Godard, longa admirado pelo polonês. Nesse sentido, a personagem de Schneider corresponde à de Brigitte Bardot, mulher entre dois homens, duas vidas; a de Dutronc à de Michel Piccoli, o marido ligado à arte e que, a certa altura, vê-se deixado pela companheira, “desprezado”, como ele próprio diz; e a de Testi, com claras diferenças, à do repugnante produtor de Jack Palance.

Todas essas personagens reconhecem seus estados de falsidade, as camadas que precisam atravessar; todas fazem um exercício para o reconhecimento de seus sentimentos, de suas fraquezas, do desprezo, da falta de amor, no ponto em que arte e vida são uma só coisa. Nadine olha para a câmera na abertura; Jacques olha à mesma, mais tarde, antes de se suicidar. Clamam por cumplicidade, expõem verdade, a alma, o ser.

(L’important c’est d’aimer, Andrzej Zulawski, 1975)

Nota: ★★★★☆

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A Aparição, de Xavier Giannoli

O jornalista em questão acaba de perder um amigo. Estavam no campo de batalha, cobriam uma guerra. Do último conflito, ao qual apenas a vítima seguiu, retorna a câmera suja de sangue. O sobrevivente limpa o objeto enquanto se prepara para ir embora. Lamenta-se por não ter seguido o outro. Poderia tê-lo salvado, ou morrido com ele.

Filmes como A Aparição evidenciam seu foco desde os primeiros instantes, porém insistem em escapar do mesmo: o homem que experimentou o mal. No desvio proposto, ele segue a um novo trabalho enquanto sequer se livrou dos demônios do anterior, quando ainda preenchia janelas com papelão para fugir da luz: a investigação sobre uma suposta aparição de Virgem Maria a uma garota, em uma pequena cidade francesa.

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O olhar é guiado à menina, aos padres e freiras que a cercam, a toda estrutura montada para explorar a nova santa. Peregrinos em massa rumam para o local. A garota é tocada pelos outros enquanto caminha ao altar, enquanto se coloca – e sua imagem convence com facilidade – como a nova ligação entre os homens e o Divino.

A fórmula é irresistível: o jornalista cético, Jacques Mayano (Vincent Lindon), carrega todos os escudos possíveis antes de mergulhar nessa história, nessas vidas, sobretudo na menina que nada pede em troca, mas que continua a persegui-lo, não à toa, com sua expressão: entre a multidão de seguidores, os crentes, ela encara o descrente.

Ela escolhe-o. Por algum motivo, liga para o jornalista, encontra-se com ele. Talvez porque compreenda que é o único, ou um dos, a tentar enxergar as coisas além das aparências, talvez porque desconfie de tudo, somado ao fato de não ser cristão praticante. Ao espectador, ela dá a letra: o filme é sobre esse homem, não sobre uma aparição.

Esperar a resposta desejada pode ser frustrante. Sobram sentenças pela metade, confissões dúbias, dúvidas a perder de vista. Em um filme sobre homens, não sobre deuses, o diretor Xavier Giannoli prefere o realismo, e fica no limite da descrença. Ainda assim, nunca será possível desacreditar de sua Anna (Galatéa Bellugi) por completo.

A menina abriu mão de tudo. Sofre por isso, por ser seguida, por ter a imagem pregada à santa em miniatura, por ser vestida e feita uma santa, em nova roupagem. O que a move é a amizade por outra menina, distante dali, com quem se comunica por cartas. A outra talvez seja a verdadeira santa. Anna apenas assumiu seu posto, seu lugar.

O filme não oferece todas as respostas: na tentativa de satisfazer crentes e descrentes, prefere o mistério – e talvez seja este seu ponto fraco. Ao eleger o cético que termina com uma ponta de fé, que passa a duvidar do que antes mais parecia coincidência, reforça que se trata, sobretudo, de acreditar, não necessariamente de ver e comprovar.

Não estranha que a conclusão seja, em certo sentido, inconclusa. O resultado dessa investigação passará a compor as intermináveis fileiras dos arquivos do Vaticano. A Aparição é sobre um homem que descobre a fé – a sua fé, seja lá o que isso signifique -, sobre uma menina que finge ser santa, sobre lobos em pele de cordeiro e sobre santos – os verdadeiros – que operam no mundo físico, em ações humanitárias em áreas de guerra.

O fim aponta ao local em que a igreja deveria estar, tão distante do ponto em que se aglomeram os peregrinos, tentados a tocar a menina que poderia ter visto a santa, cuja face aprisionada, composta por certa iluminação, mitifica-a com facilidade. A esse ponto remoto Jacques deverá retornar, ponto em que perdeu o amigo, em que se renova.

(L’apparition, Xavier Giannoli, 2018)

Nota: ★★★☆☆

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O Amante Duplo, de François Ozon

Grandeza e Decadência de um Pequeno Negócio de Cinema, de Jean-Luc Godard

O clichê persiste quando se trata de um filme sobre a realização de outro: o cineasta, com seu elenco, entre seus problemas, é aquele que grita, que não quer soluções fáceis, que precisa dizer a todos – sem dizer, em sua fúria afetada – que é um artista.

O cineasta tenta ignorar, até certo ponto, esse “negócio de cinema” ao qual alude o título. Evoca a pintura, a literatura, conduz seus atores naquela produtora aparentemente pequena, na qual os candidatos a algum papel do filme fazem fila para o teste. Desenha-se ali uma farsa em Grandeza e Decadência de um Pequeno Negócio de Cinema.

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O atrevido Jean-Luc Godard outra vez bagunça as peças. Une tudo, sem partir apenas àquilo que estaria “dentro” (o filme, a ficção), sem saltar apenas àquilo que está “fora” (o filme sendo realizado). Essa história de grandeza e queda é, em certa medida, uma só coisa. O espectador vê um filme nascer e morrer ao mesmo tempo, o fazer e o próprio filme.

O diretor, interpretado por ninguém menos que Jean-Pierre Léaud, aqui um tal Gaspard Bazin, abre um livro e pede que a mulher do produtor identifique quantas personagens há em uma pintura. Para ela, existem três. O cineasta contesta: talvez existam mais, ou menos, o que não depende da simples contagem dos corpos do quadro.

A obra talvez seja um corpo vivo em que muitas pessoas constróem apenas uma personagem, como parecer ser o caso da fila de atores – ou candidatos a tal – para dentro e para fora da sala de testes, continuamente, cada um com uma fala, um trecho. Todos são um único ser, e todo aquele roteiro talvez não possa servir a uma única personagem.

Mesmo quando parece se lançar à farsa, Godard não deixa de discutir o cinema com seriedade, com paixão, e o crime que se desenha no interior da produtora não é mais que uma homenagem ao cinema policial. O filme é a descoberta da luz, o que obriga o mergulho à escuridão. “Na escuridão, descobrimos a luz”, diz o cineasta interpretado por Léaud. “O que surge na luz… é o eco do que à noite submerge.”

Esse pequeno grande filme de Godard mostra figuras típicas do cinema, no interior da produtora, pela estética do vídeo, pelo quadro da televisão (não custa lembrar que Grandeza e Decadência faz parte da Série Noire). Um filme que, em certo sentido, mata o cinema em seu nascedouro, com sua crueza e visual “pobre”, ou “feio”, ou “real”.

Filme leve que se faz pesado. Como se a televisão fosse a forma direta, primeira, aqui a engolir o cinema e seus clichês, toda sua vida de seres de ombros pesados, de damas angelicais, de olhares às estrelas. Há, por exemplo, o cineasta que compara a nova atriz à mítica Dita Parlo de A Grande Ilusão, e o diretor que leva o nome de Jean Vigo, Jean Almereyda, interpretado pelo também diretor Jean-Pierre Mocky.

Na tela, a certa altura, piscam as barras de cores. Lê-se “acidente técnico”. Ao mesmo tempo, um homem diz quantos animais um caçador matou em safári no Quênia. Não seria o caso de pensar essa junção de som e imagem como uma crítica de Godard às facilidades do entretenimento da televisão e do vídeo, sendo o ato de gravar tão simples e à mão quanto o de matar seres inocentes? Godard questiona a ideia de entretenimento.

A atriz vivida por Marie Valera pergunta à personagem de Léaud se é verdade que o cinema mata a vida. Pergunta curiosa se exposto o contexto: em Grandeza e Decadência, em certo sentido o cinema é a própria vida. Godard, em cena, é ele mesmo. Mitos do passado cortam a tela, pedem passagem, estão nas paredes. Fazer e ser como uma só coisa.

(Grandeur et décadence d’un petit commerce de cinéma, Jean-Luc Godard, 1985)

Nota: ★★★★☆

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A Chinesa, de Jean-Luc Godard

A Trama, de Laurent Cantet

Estimulados a criar uma história de ficção, os adolescentes não conseguem escapar à realidade – à deles, à do país em que vivem e, ainda mais, à do momento, com os ataques terroristas promovidos por radicais islâmicos. A roda jovem, por sinal, levanta discussões que passam do diálogo saudável a ânimos exaltados, à quase violência.

O diretor Laurent Cantet outra vez aposta no diálogo. Ou em sua dificuldade, nas palavras que se cruzam e nem sempre deixam entender. Fica a impressão – como em alguns momentos importantes de A Trama – do contraditório. Aos jovens em cena, nem sempre é possível sustentar uma ideia sem parecer um pouco radical.

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O jovem protagonista não será explicado com facilidade. À maioria dos espectadores, é provável que Antoine (Matthieu Lucci) seja presa fácil ao discurso político nacionalista que visa defender territórios e expulsar “estrangeiros” – mesmo quando este conceito, em um país tão miscigenado como a França, escape da definição fácil.

Cantet lança Antoine primeiro ao olhar do público, depois ao da professora à frente desses encontros entre jovens, em uma oficina voltada à criação literária. Ela, escritora, chama-se Olivia Dejazet (Marina Foïs), tem alguns livros no currículo e chama a atenção de Antoine. Ambos tentam se descobrir, quebrar a barreira que os separa.

Os adolescentes constroem juntos o que pode ser uma trama de assassinato, o início de um livro. Surgem sugestões: um corpo em um iate de luxo, um assassino cruel, árabes e franceses, o sentimento de rancor que migra da realidade em que vivem àquela suposta ficção que ganha tons políticos para além das voltas policialescas.

As ideias de Antoine assustam: o jovem sugere que o assassino deve ser árabe, a vítima um típico francês. Poderia, claro. Mas, no caso do garoto, a escolha revela um sentimento de ódio, o que alguns atos, aos olhos de Olivia, só confirmam: os vídeos que posta em uma rede social, com amigos, com arma à mão, com o rosto sujo de lama.

Impressiona, em A Trama, o que cerca as personagens, todas as diferenças que dão espaço a uma curiosa semelhança: o desejo por contar histórias. O que mais confronta Olivia talvez seja a qualidade dos textos de Antoine, seus detalhes, a delicadeza apesar do conteúdo, como o sangue que indica pelas palavras, e que gera repulsa nos outros adolescentes.

Correm por ali os restos da história da cidade em que vivem, fincada em rochas, tocada pelo oceano. A história que retorna em filmes antigos, quando, em La Ciotat, a crise de desemprego levou muitos trabalhadores à desgraça – ao suicídio, ao alcoolismo, ao drama de não se ter nada, como recorda um homem que serve de guia pelo mesmo estaleiro.

Do que restou dele, ainda com suas estruturas, com sua torre que pode ser vista de longe pelos mesmos jovens inclinados a pensar o tempo em que vivem, não o tempo passado. A grandeza desse filme de Cantet reside justamente nesse conflito entre tempos, na nova direita que se projeta no espaço de resistência dos trabalhadores, de passado não tão distante.

Em qualquer caso, na ficção de diálogos ásperos ou nas antigas filmagens da vida à sombra do estaleiro, a realidade pulsa no cinema de Cantet. Parte dela, das relações possíveis mas nem sempre prováveis, o olhar da professora ao aluno, do aluno à professora. Da intelectual e escritora ao jovem que pode ser mais um entre tantos a se fundir às fileiras do extremismo que visa fechar barreiras, de discurso totalitário.

A atração dela pelo menino reserva-se à ideia que o mesmo parece emitir, pela constatação do mal que representa – tão perto, tão verdadeiro. Ele, por sua vez, vê-se atraído pela mulher formada, pelas palavras de seu livro, pela vida distante e confortável que projeta. Tentar invadir a realidade do outro, para ambas as personagens, pode ser traumático.

(L’atelier, Laurent Cantet, 2017)

Nota: ★★★★☆

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Custódia, de Xavier Legrand

A família está aos cacos, assiste ao próprio fim: a mãe não consegue abraçar o homem que antes chamava de marido, o filho pequeno coloca-se ao lado do pai à força, a filha adolescente acredita que fugir seja o melhor a fazer. A família ainda luta para se manter, ainda que isso, em Custódia, de Xavier Legrand, seja quase impossível.

Começa na sala da juíza, à meia-luz, entre créditos, onde tem início mais um dia de trabalho, outro caso. Em seguida, em novo espaço, os rostos impassíveis e os argumentos que se chocam, dos advogados, inviabilizam a escolha de um lado. O espectador assiste ao teatro dos bons modos, das mentiras, não sabe ao certo em que ponto reside a verdade.

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O que torna difícil, por sinal, a continuidade: ao não entender ao certo essas pessoas, na impossibilidade de penetrá-las, o público, em algum limite, pode esperar por qualquer coisa. Será assim até certa altura do filme: um jogo de olhar distanciado.

O drama aposta, antes, em suposições, em pistas, em relatos que se cruzam: a história começa quando muito já ocorreu, no ponto em que o público fixa-se como o juiz, obrigado a ver de fora, a tentar analisar os lados sem saber, ainda, o que ocorre nos encontros exteriores, nas visitas do pai, nas saídas do filho, até mesmo nas intenções da adolescente.

Dói porque revela, pouco a pouco, o que não se quer: talvez o pai fosse mais humano, sob a forma avantajada de Denis Ménochet, mas talvez seja justamente o que se espera. Ou não. Resta respingos de dúvida, esse “benefício” que mais maltrata do que adula. O homem migra do gigante às lágrimas ao monstro que, em doses parcas, toma forma.

A mãe, interpretada por Léa Drucker, é ainda mais distante. Ela não quer o filho com o pai. O menino também não quer passar o fim de semana com o homem. A decisão judicial é outra, baseia-se na impressão que o pai transmite no encontro a portas fechadas com as autoridades: antes do gigante que cai em lágrimas ou cresce como monstro existe um homem contido, que ama o filho, que ainda não aceitou o fim da família.

Custódia é sobre peças que não se encaixam senão à força, à base das pequenas mentiras do menino (nem sempre funcionam, ou nunca), aos gestos silenciosos, aos movimentos sob o escuro do quarto, no dia seguinte, momento em que o terror retorna, e ainda pior – momento em que o pai, agressivo, armado, bate à porta do apartamento.

Talvez funcione como alerta à cegueira da Justiça: grita, e cada vez mais alto, sobre a necessidade de enxergar a vida como é, do lado de fora, longe das paredes frias do tribunal, da sala pouca iluminada da juíza, das falas prontas e aparentemente assertivas dos advogados. É preciso chegar – e aí reside o grande desafio – à vida como ela é.

E à frente se constata o pior: nem mesmo os buracos de bala, na porta de madeira, dão conta de revelar quem realmente são essas pessoas. Não se chega aos piores, aos monstros, ainda que seja tentador – ao som do choro de mãe e filho, na banheira – acusar o homem de louco e encarcerá-lo. Nele há desespero, descontrole, e amor.

Há ainda o menino, o ponto fraco, a vítima maior. Entre o fogo cruzado, a criança tenta evitar mais problemas para a mãe e aceita o fim de semana com o pai. A qualquer sinal de mentira, o homem enfurece, e o garoto, lentamente, comprime a musculatura da face, deixa ver as lágrimas, ainda que em silêncio. A proximidade de seu rosto, no interior do carro, remete às personagens infantis dos irmãos Dardenne, àquele cinema físico banhado por detalhes, suspiros, pequenos movimentos em que o drama é iluminado sem exagero.

Destaque para o pequeno Thomas Gioria, de cabelo louro lançado aos olhos, às vezes tomando o protagonismo de Custódia. Está por ali desde o início, quando sua carta é lida pela juíza, e termina ao fundo do corredor criado entre um apartamento e outro, à mira da vizinha que acionou a polícia para conter o pai enfurecido e armado. Mãe e filho, observados, não serão mais os mesmos.

(Jusqu’à la garde, Xavier Legrand, 2017)

Nota: ★★★★☆

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