cinema francês

A Chinesa, de Jean-Luc Godard

Mais que antecipar os conflitos do Maio de 68, Jean-Luc Godard capta o sentimento de certa juventude, o espírito de uma época com A Chinesa. A impressão é a de prisão, não a de fuga: em cena, jovens confinados em um apartamento – dos pais ricos e ausentes de uma personagem – discursam sobre transformação e revolução.

O resumo é difícil. Complicado entender o que desejavam jovens mais ou menos como aqueles, de palavras políticas à ponta do lábio, pouco depois nas barricadas de 68, contra a polícia, o Estado, contra tudo e todos. Godard não oferece saídas. Deixa mesmo, ao fim, um sentimento de perda mesclado à possibilidade de levante.

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Desses jovens trancados ao apartamento, após o verão de 67, chega-se à realidade: o que daí brota é o que a História conta, o que as ruas provam, o que explica o culto em torno desse filme estranho e não raro complexo. O próprio Godard recusa o cinema de bases convencionais. Não esconde que está fazendo um filme de discursos, cujas palavras de força e renovação – tão importantes aqui – confrontam o espaço fechado.

Fala-se em transformação, mas a tal não ultrapassa as paredes cercadas por madeira, convertidas em lousas para a fixação das mesmas palavras como lemas desses amigos, ou amantes, ou desconhecidos que conjugavam ideias. Soam os ecos.

Nos primeiros instantes, rapaz e garota tentam se descobrir. Godard revela então o sentido desse confinamento. No plano, a mão está sobre a madeira. Primeiro a dela, depois a dele. “O que é uma palavra?”, ela questiona. “Uma palavra é o que não é dito”, responde. Mas ela quer saber o que ele é. “Nós somos as palavras dos outros.” Ambos concordam, as mãos enlaçam-se no único momento do filme em que o amor entre um casal convence.

É difícil penetrar A Chinesa sem pensar na realidade da época, já que tudo aponta para tal, para além do apartamento. O filme tem algo teatral, de propósito. Obriga o espectador a se prender às palavras, ao abstrato, aos discursos – sem que o cineasta seja mero ventríloquo dos maoistas desse tempo, radicais que desejavam reinventar o mundo.

E se as palavras imprimem discursos de força, as imagens reproduzem o oposto: a forma do filme indica o beco sem saída em que se encontram, o que esbarra nas ideias do professor que conversa com Veronique (Anne Wiazemsky), no trem, na terceira parte. Eles ainda são incapazes de mobilizar muitos, estão distantes do povo.

Mas o filme, de uma das frases estampadas na parede, responde à altura, e antes: a minoria não é mais minoria quando feita de ideias corretas, ou algo do tipo. Quer dizer, naquela temporada de verão, vivendo à base de discursos entre si, no pequeno teatro revolucionário banhado às mensagens da rádio de Pequim, esses jovens talvez tenham se libertado.

Se são as “palavras dos outros”, são os livros que consomem, as ideias que deglutem: não por acaso, enchem as prateleiras com exemplares do Livro Vermelho de Mao Tsé-Tung, como se outros não houvessem. Ao lado, enquanto enfileiram as obras, vê-se a imagem parcialmente destruída de Cristo. A certa altura, uma voz lança a pergunta: “Meu Deus, por que você me abandonou?”. Outra responde: “Porque eu não existo”.

Nessa confrontação de ideias com “imagens claras”, como diz a frase na parede, nem tudo é claro, nem tudo se resolve facilmente: essas personagens confinadas vivem suas contradições, seus embates, no balão de ensaio de um sistema que se sabe imperfeito. Seus meninos e meninas revelam problemas: suicidam-se, confessam ter se prostituído.

Godard, claro, toma partido dos jovens. Por sorte não é cego. Sabe dos problemas, das contradições e conflitos, e lança sua metralhadora de palavras àqueles que não respondem à altura de uma esquerda que deveria transformar ou refundar essa sociedade: o velho Partido Comunista Francês, um dos alvos de suas personagens.

Dessa enxurrada de discursos em imagens diretas, em colagens várias, o filme é assumido, descortinado: os atores voltam-se à câmera, a câmera volta-se à câmera, o que não impede o avisado de se deixar levar. A grandeza de A Chinesa está na rebeldia do corte, na provocação que se faz a cada passagem, na consciência do giro em falso.

À rua, com as revoltas de 1968, Godard encontra momentaneamente o que acreditava ser a porta de saída aos meninos e meninas que retratou. Era o caminho para fora do apartamento de cores fortes, ideias pregadas nas paredes, ocupado por representações teatrais da guerra, pelos livros vermelhos convertidos em armas, sobretudo pelo espírito de um tempo.

(La chinoise, Jean-Luc Godard, 1967)

Nota: ★★★★☆

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O teatro do amor e da morte em duas obras de Marcel Carné

Os amantes sobrevivem como estátuas de coração pulsante em Os Visitantes da Noite. No decorrer dessa história passada no século 15, o Diabo e seus súditos tentam, em vão, duelar com o amor. Pregam peças, como se já soubessem de tudo, e terminam vítimas das mesmas no grande castelo, em seus jardins, nos campos floridos.

O filme de Marcel Carné, lançado em 1942, carece de vida: suas personagens sobrevivem em um teatro sem fim, local de aparentes frases decoradas, palavras que quase nunca soam reais, ou que nunca acompanham as expressões. São, desde o início, estátuas. Nem por isso o prazer esvai-se facilmente: o cinema de Carné não esconde o palco.

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Pouco depois, com seu monumental O Boulevard do Crime, dividido em duas partes, ou em duas épocas, vê-se caminho contrário: os demônios vivem no mundo real, foram criados pela contradição que faz do criminoso também o autor de peças, e todos estão juntos na rua movimentada, no início, naquele magnífico plano geral.

Por ali, a personagem de Jean-Louis Barrault terá sua primeira aparição como espécie de estátua, um “retardado”, como diz o guia do show, ou um “sonâmbulo”: ele interpreta a irrealidade que cabe às personagens da fuga ao mundo teatral, às quais o mesmo Carné mergulha de corpo e alma em seu Os Visitantes da Noite.

São filmes presos a universos distintos, de visuais semelhantes, filmes de poesia na fala, na articulação das personagens, que não escondem a falsidade das figuras em cena, em seus figurinos e cabelos exagerados, em sua maquiagem à vista, em seus rostos angelicais – ou em oposição, claro – para dar vez ao que se cunhou “realismo mágico”.

Pois há em ambos alguma dose de realismo, sobretudo em Boulevard. Analisar esses filmes é perceber a intrusão da mágica entre seres em certa medida palpáveis, de rostos desesperados, na “estátua” que, ao povo e à rua, ganha vida nas formas inesquecíveis do citado Barrault. Todos (ou quase) vivem pelo amor e sofrem por ele em ambos os filmes.

Nem o Diabo escapa. Em Os Visitantes da Noite, seus filhos, dois anjos um pouco malvados, são enviados ao castelo de um barão para devolver o problema – ou o trabalho ao carrasco que se encontra pescando, sem muito a fazer – ao mundo em equilíbrio. A paz reinante incomoda os seres das trevas. A mágica ganha espaço.

Logo esses seres tomam o lugar dos amantes. Entretêm os poderosos, que insistem em lançar moedas aos pobres, aos artistas mambembes. Anões de rostos deformados, de faces escondidas, correm por ali: são os sinais desse mundo endiabrado em que homens confundem-se com crianças, em que a interpretação tem algo infantil.

No fundo, toda essa paixão em excesso tem seu lado inegavelmente bobo: as obras de Carné, com os roteiros de Jacques Prévert, falam de amor no período da ocupação alemã na França, durante a Segunda Guerra, o que reforça a ideia de fuga. A fuga como necessidade. O duelo do amor e da morte, o teatro que resulta desse embate sem que o cinema perca espaço.

Personagem de Boulevard, o criminoso François (Marcel Herrand) declara guerra à sociedade: como deixa claro à personagem de Arletty, cansou de viver ajoelhado. Prefere a forca, como se soubesse seu destino – como algumas personagens trágicas do mesmo Carné, da década anterior, em obras extraordinárias como Cais das Sombras.

Ao contrário da maioria – em Visitantes ou Boulevard -, François diz não amar ninguém. É fruto verdadeiro da massa revelada no início, do real, a mesma massa que esmaga Baptiste (Barrault) à medida que grita pela amada, Garance (Arletty), no encerramento. Antes estátua em apresentação, o mímico triste esconde sentimentos verdadeiros.

Antes de chegar ao teatro o ator estava na rua, frente à multidão. Ali, Garance e o mesmo François espreitam um homem supostamente abastado. Após ter o relógio furtado, esse homem culpa Garance. O espectador sabe quem é o autor do crime. A multidão aglomera-se em volta da mulher. Apenas uma personagem viu o crime, justamente o mímico que, do palco, recorre aos gestos para explicar à polícia o ocorrido.

Dessa sequência Carné oferece o essencial sobre Boulevard, também sobre Visitantes: as personagens recorrem ao palco para explicar o mundo real. O que há de violento e banal e pertence ao plano dos homens será polido – ou transcrito – pelo teatro. Na história dos demônios que descem ao plano físico para desestabilizar o reino dos homens é preciso trocar os atores pelos anjos, a interpretação que traduz pelo truque que bagunça.

São filmes diferentes que se completam pela forma artificial – nem por isso menor – de suas personagens. É fácil invadi-las, entender o que fazem nessa tabuleiro em que homens fingem ser deuses ao público boçal, aos gritos, na mesma medida em que os bastidores não ajudam muito: todos por ali, ao que parece, estão próximos a explodir.

Em Visitantes, as personagens de Carné não resistem aos instintos. Os demônios concedem apenas alguns empurrões. Elas declaram amor até o ponto em que cansam, em que se projetam como protótipos das estátuas que logo serviriam de enfeite ao jardim em que o filme termina, sem expor o lado carnal à vista, felizmente, em Boulevard.

A melhor definição dos traços de Carné pertence ao crítico e historiador Georges Sadoul, ao se referir às obras do diretor lançadas antes de 1948: “O seu universo, tal como o de Prévert, é um teatro onde se defrontam o Bem e o Mal. Os seus heróis, muitas vezes interpretados por Gabin, são gente boa que a sociedade tornou criminosos, e nunca bandidos profissionais, pintados por ele como canalhas. Sonham com a possibilidade de um amor eterno, lutando contra o destino, muitas vezes simbolizado por um dos protagonistas, mas também pelo próprio décor. Esta fatalidade é decididamente uma expressão da ordem social”.

O teatro do Bem e do Mal, em Boulevard, ora ou outra cede espaço ao homem contra a multidão, aos seres desesperados e reais que brigam (de verdade) sobre o palco, aos trapaceiros que fingem ser cegos e, em alguns casos, que recusam o amor e a miséria. Perto deles, o Diabo sorridente é um rascunho fácil e até esquecível.

(Les visiteurs du soir, Marcel Carné, 1942)
(Les enfants du paradis, Marcel Carné, 1945)

Notas:
Os Visitantes da Noite: ★★★☆☆
O Boulevard do Crime: ★★★★★

Foto 1: O Boulevard do Crime
Foto 2: Os Visitantes da Noite

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Dez bons filmes recentes situados no universo feminino

As vidas e dramas de diferentes mulheres ganham destaque nos dez títulos abaixo. A lista volta-se a filmes com grandes personagens femininas e grandes atrizes para vivê-las. Todos recentes, passando pela abordagem do amor profundo pelo homem errado, pelo abuso sexual, pelo rompimento familiar, pelas tentativas de ser livre.

Amor Profundo, de Terence Davies

É provável que Davies tenha se inspirado nas grandes histórias de amor de David Lean, Desencanto e A História de uma Mulher, para esculpir tal obra. Em cena, Rachel Weisz tem uma de suas melhores interpretações como a mulher de um juiz que se envolve com jovem piloto (Tom Hiddleston) e entra em uma espiral de autodestruição.

O Julgamento de Viviane Amsalem, de Ronit Elkabetz e Shlomi Elkabetz

O longo julgamento de uma mulher em busca do divórcio e, por extensão, uma crítica ao sistema jurídico machista e religioso de Israel. À medida que tenta se separar do marido, a mulher – e o espectador, claro – vê-se aprisionada ao tribunal de paredes brancas. Além de dirigir, Elkabetz assume a sofrida personagem central.

Carol, de Todd Haynes

O filme é contado pelo olhar de Therese (Rooney Mara), o olhar de descoberta voltado à personagem-título, vivida por Cate Blanchett. A jovem balconista ao encontro da mulher formada, nessa bela história de amor em que Haynes remete o espectador aos melodramas de Douglas Sirk, com a exposição da hipocrisia.

Um Belo Verão, de Catherine Corsini

A moça do campo (Izïa Higelin) vai viver na cidade e termina apaixonada por outra mulher. A da cidade (Cécile De France) não entende ao certo essa atração estranha, nesse filme ambientado nos anos 70, em meio ao movimento feminista francês. Por aqui, a mulher aparentemente emancipada ainda tem algo a descobrir.

Ninguém Deseja a Noite, de Isabel Coixet

A mulher imponente é Josephine, interpretada por Juliette Binoche, nos confins do planeta, em ambiente gelado, atrás do marido explorador. Ela termina encontrando Allaka (Rinko Kikuchi), grávida do mesmo explorador. À medida que o frio torna-se insuportável e a vida difícil, nasce uma aproximação entre elas.

Elle, de Paul Verhoeven

Mulher estuprada desenvolve uma estranha relação com seu abusador. Verhoeven retorna à grande forma ao apostar mais nos efeitos dessa relação, menos na busca pela identidade do criminoso ou no encerramento esperado. De quebra, oferece a Isabelle Huppert mais uma grande personagem, caso que merecia um Oscar.

Julieta, de Pedro Almodóvar

Passado e presente de uma mulher retornam à tela: da apaixonante Adriana Ugarte à culpada Emma Suárez, o público é levado a uma jornada de redescoberta, ao mesmo tempo em que a protagonista tenta reencontrar a filha. Almodóvar finca os pés outra vez no universo feminino e faz pensar em alguns de seus melhores trabalhos.

O Que Está por Vir, de Mia Hansen-Løve

Huppert de novo. E de novo em grande momento, em um filme que passou despercebido para muita gente e merece destaque. Ao redor de Nathalie (Huppert), tudo se transforma: o marido, os filhos, a mãe. Não dá para lutar contra o tempo, ela descobre, à medida que se aproxima de um ex-aluno e de seu círculo de amigos.

Como Nossos Pais, de Laís Bodanzky

A mulher salva o dia, a família, assume as “broncas” da casa – enquanto o marido sai para fazer sua vida. É um pouco assim, desse drama, que Bodanzky dá vida a um dos filmes brasileiros mais bonitos dos últimos anos, com destaque para a dupla feminina, mãe e filha na tela, as talentosas Clarisse Abujamra e Maria Ribeiro.

A Vida de uma Mulher, de Stéphane Brizé

A triste trajetória de uma mulher que amou demais e sofreu em igual intensidade, vítima das traições do marido, das investidas, mais tarde, do filho interesseiro. De época, é também um filme realista, próximo às personagens, em que sua atriz central, a talentosa Judith Chemla, atravessa décadas da vida de uma mulher, entre altos e baixos.

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Stéphane Audran (1932–2018)

Foi uma presença recorrente na obra de Chabrol, e também na sua vida: foram casados 16 anos, entre 1964 e 1980, mas a relação de amizade e de trabalho estendeu-se bem para lá da data do divórcio. Em termos criativos, foi uma parceria de duração invulgar e singularmente feliz, tanto que é difícil pensar em Chabrol sem Audran, e em Audran sem Chabrol.

(…)

E com o cinema de Chabrol passaria imediatamente a “fazer corpo”, intérprete feita daquele “teatro da crueldade” que era o território do realizador, numa presença onde o “abandono” (Les Bonnes Femmes, 1960) alternava com a “frieza” (Les Biches, 1968; La Femme Infidèle, 1969), e onde a sua beleza – às vezes tratada de modo “esfíngico” – tanto podia ser sinal de vida como manifestação de um destino mais negro.

Luís Miguel Oliveira, crítico de cinema, no Jornal Público (27 de março de 2018; leia o texto aqui). Abaixo, Audran em Os Primos, primeiro filme da atriz com Chabrol e o quarto de sua carreira, em 1959.

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