França

A Professora de Piano, segundo Isabelle Huppert

No caso de A Professora de Piano, não sou de bancar a falsa modesta, sei que tenho a capacidade de interpretar algo bastante opaco e, ao mesmo tempo, muito frágil. Muito do sucesso obtido pelo filme se deve à opacidade, à hipótese de uma violência, de uma brutalidade, mesmo de uma monstruosidade. Se interpreto Medeia ou A Professora de Piano, não faço nunca economia de monstruosidade, da maldade que há nesses personagens, e sei onde colocar a fragilidade, onde está o ponto de ruptura no qual podemos nos reconhecer. Isso é o essencial.

(…)

É a história de alguém que de nenhuma maneira quer ser considerado como objeto sexual, que quer ser mestre de seu desejo, de seus sentimentos, de seu amor. Como atriz me senti bastante protegida por tudo isso. Não me sentia como um brinquedo, nem do diretor, do ator com quem contracenava ou mesmo do tema do filme. Foi um papel adulto para mim. Não era simplesmente um sofrimento mudo, era algo bastante ativo.

(…)

A personagem de A Professora de Piano é alguém que reflete, calcula, e que habita seu cálculo. É um filme sobre o controle e a perda de controle. Num certo momento, ela perde o controle de algo que quer evitar, mas não consegue.

Isabelle Huppert, atriz e protagonista de A Professora de Piano, de 2001, dirigido por Michael Haneke, em entrevista ao jornalista Fernando Eichenberg no livro Entre Aspas volume 1 (L± pgs. 322, 323 e 324).

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Eu, Pierre Rivière, Que Degolei Minha Mãe, Minha Irmã e Meu Irmão, de René Allio

Algum ponto distante, impalpável, deixa ver algo humano no filme de René Allio. Não um, é certo, mas pontos espalhados pelas passagens, de canto a canto, ao passo que o público acompanha a história da personagem-título, Pierre Rivière, e por que teria matado a mãe, a irmã e o irmão. Em cena, uma investigação, mergulho direto, frio.

Por esse relato, o espectador depara-se com o assassino entre familiares, à mesa, com a mão elevada ao queixo; pensa, em silêncio, e é certo que sente ódio da mãe que faz dívidas para atingir o pai. Mas não se sabe ao certo o que se passa com o menino. Será assim o filme todo, curioso paradoxo de Eu, Pierre Rivière, Que Degolei Minha Mãe, Minha Irmã e Meu Irmão: o narrador não se deixa ver enquanto conta a própria história.

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Nas lembranças de Pierre (Claude Hébert), a mãe quer destruir o pai. Ele não entende o motivo, nem o espectador. A distância impede a compreensão. É como se Allio, a partir de obra de Michel Foucault, dissesse que as coisas “são como são”. Sobra a história que ainda se pode palpar, corredor estreito, desconfortável. “Por que ela quer minha ruína? Trabalhei tanto para meus filhos”, questiona o pai, na mesma mesa, à luz da vela, aos olhos do filho impassível e futuro parricida.

“São como são” devido à imagem, à reprodução bruta deste cinema próximo ao registro. A vida como relato, observação, sem dramatizar, perto de um documentário sobre um tempo perdido. Eis uma obra um pouco impessoal em que reina a mais sincera das histórias e, por isso, outra vez, o paradoxo: humano apesar de distante.

O filme tem início com a descoberta do crime. A câmera corre sobre os corpos das vítimas; vai e retorna, busca o detalhe, enquanto os homens da lei descrevem a cena brutal. Desde a abertura, é clara a distância adotada por Allio. Se o recuo abre possibilidade de preenchimento pelo público, a narração evita que se crie em demasia.

Eu, Pierre Rivière é sobre a destruição da família, mal inexplicável que consome a todos, devagar, incluindo a personagem-título. Por sinal, é em Deus que ela busca, inicialmente, sua resposta à questão posta pelo juiz: por que ele matou a mãe e os irmãos mais novos? Segundo Pierre, a pedido de Deus, como em outras histórias da Bíblia.

O crime de Pierre abre a janela para sua história, ou para parte dela: é a saída para se ver o quanto foi consumido pela família irregular, ainda que isso não seja capaz de inocentá-lo. Pelo registro, narrações e declarações de terceiros, Allio concede aberturas, tentativas de explicar o inexplicável, ver o humano por trás do monstro.

Curiosamente, em filme feito de paradoxos, o espectador encontra humanidade no impensável, nos movimentos desse menino descrito como deslocado, estranho, que chegou a correr atrás de uma criança com foice e riu da queda de seu cavalo, levado pelo peso da charrete. Tais ações apenas confirmam a dificuldade de enxergá-lo.

A mãe pode ser tão má quanto o pai. Pierre assiste a essa briga constante entre seus superiores, sem os sinais de Deus. Ao contrário, o filme é físico em excesso. A certa altura, a mãe engravida novamente e o pai duvida da gestação. Antes, o pai tentou fazer sexo à força com a mulher, à noite, na cama, enquanto a filha assistia ao ato na cama ao lado.

A família é um reino de problemas e conflitos, violência e desentendimento. A família em questão sobrevive aos trancos, em brigas e gestos inesperados de humanismo e até lágrimas. Alguém anuncia o suicídio, outro diz que não vale a pena viver e espera um lago para se afogar. Pierre decide matar, talvez para chegar a alguma calmaria.

No desenrolar do drama da família, as coisas não “são como são”. Tudo é resultado, consequência, para pensar em que momento nascem os monstros e como é difícil – para não dizer impossível – compreendê-los. De qualquer forma, não se pode perder a humanidade que tudo recobre, a despeito de tanta frieza, indiferença e ódio.

A soma da imagem à narração dá vida a um filme único, estudo que prefere perguntas, que não nega a culpa e tampouco a reduz a um único ser. O garoto, embebido pela Bíblia, pela Justiça, por Napoleão e pelos exemplos históricos tentou encontrar algo maior em seu ato horrendo, em seu crime, em seu jeito de agarrar o poder.

(Moi, Pierre Rivière, ayant égorgé ma mère,
ma soeur et mon frère…
, René Allio
, 1976)

Nota: ★★★★★

Veja aqui:
Léon Morin – O Padre, de Jean-Pierre Melville

L’air de Paris, de Marcel Carné

A começar pelo título, há um problema com a cidade, Paris. Não necessariamente esta, mas qualquer grande cidade cujo ar consome as pessoas, como se as levasse ao pior. Terão de viver ali, às rinhas, nessa sobrevivência torta que não faz sumir os camaradas: o homem que viveu muito, alguém triste, e o garoto que está vivendo.

À tela, Jean Gabin já respirou todo aquele ar, intoxicou-se, aprendeu a viver sob ele. O rapaz que deve treinar para se tornar um novo campeão de boxe, interpretado por Roland Lesaffre, tem direito ao oxigênio com o qual não sabe lidar, o que o leva a certo sucesso, à paixão de momento, ao estado até então não experimentado.

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Como em outros filmes de Marcel Carné, L’air de Paris traz personagens que levam a tragédia no corpo. A relação entre elas é curiosa: ao público, o cineasta lança, sobretudo, o mais jovem, ainda que se prefira o experiente, o velho, o treinador que, sabe-se, não sairá mais do mesmo lugar. É, no fundo, uma disputa entre comodismo e transformação, ou entre experiência e juventude, entre o que fala pouco e o que explode.

O esquematismo não retira a beleza do filme. Não está à altura de outras obras de Carné. Por outro lado, impossível não se deixar seduzir por sua composição de figuras simples, gente que sempre retorna aos mesmos ambientes. Personagens sob certa acidez, conscientes do lamaçal à frente, do imobilismo, ligadas às pequenas coisas, ao simples.

O Gabin em cena está distante do Gabin de Cais das Sombras, homem desesperado em busca da fuga. Os gestos anteriores – de amor e morte – dão espaço ao conformismo, à aventura que se encontra apenas no ringue, na luta, no confronto com suas regras: a aventura é agora um esporte, seus homens apaixonados vestem luvas.

Pois o Gabin anterior nada transfere a Lesaffre senão esse ar com o qual, como a personagem dos anos 30, não saberá lidar. Toda essa abertura – primeiro ao boxe, depois à descoberta do amor – fará o rapaz perder-se por alguns dias, justo ele, então a promessa de um campeão. A seres assim, que nada tinham, o ar em excesso prejudica.

A sequência inicial é um primor de controle e representação. Funcionário da ferrovia, André Ménard (Lesaffre) e outros funcionários abrem espaço para a passagem do trem. Na mesma tela, homens apequenam-se, aos cantos, à medida que a máquina avança, ganha espaço no quadro. O trem para. Da janela sai uma bela mulher, talvez sufocada, talvez em busca do ar de Paris. O rapaz, sujo dos pés à cabeça, observa-a com admiração.

Ao que parece, os mundos que se cruzam no início são inconciliáveis, ainda que sob o mesmo oxigênio. E isso explica por que precisam se encontrar, mais tarde, a exemplo do que se viu no clássico Um Lugar ao Sol. À estrada, nos instantes iniciais, o rapaz pobre pede carona quando vê passar o carro branco de sua futura amada.

No caso de L’air de Paris, a constatação da inconciliação é curiosa, já que a menina amada (Marie Daëms) é nada mais que embuste, composta às falsidades, antes tão pobre quanto o moço com quem se envolve, depois alimentada pelo dinheiro de um homem rico.

As mulheres são estranhas, soturnas, sem a humanidade que jorra nos homens. Mais realistas, dirão alguns. A maneira como trata essas damas – tentativa de embutir o mistério típico dos tempos do realismo poético – coloca Carné sob suspeita. Os homens lutam, avançam, sonham; as mulheres, ao contrário, sempre atrapalham os planos.

Uma delas, companheira da personagem de Gabin, é interpretada justamente por Arletty. Como em seus famosos papéis para o mesmo Carné, em décadas passadas, a atriz não precisa mais que presença, em curta expressão, para demonstrar toda a desilusão à qual o filme lançará o público. Basta encará-la para compreender.

(Idem, Marcel Carné, 1954)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Sedução da Carne, de Luchino Visconti

Diva – Paixão Perigosa, de Jean-Jacques Beineix

A soprano não quer ter sua voz gravada. É, para ela, um insulto, a tentativa de encapsular a arte, reproduzir o que cabe apenas ao instante, à apresentação. Por outro lado, uma prostituta – em universo, às aparências, longínquo – tem como arma contra o inimigo, seu cafetão, uma confissão gravada em fita, para levar à polícia.

A tecnologia embrenha-se, entre extremos, na trama do divertido Diva – Paixão Perigosa, de Jean-Jacques Beineix: a conjugação do que há de mais puro àquilo que há de mais sórdido, da arte à bandidagem, em um clima moderno em que tudo cabe no mesmo espaço. A tecnologia – as gravações, a parafernália – fica ao meio.

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O protagonista é o carteiro magro interpretado por Frédéric Andréi, Jules. No início, ele ousa cometer um crime artístico, ou quase isso: grava a apresentação da já citada soprano (Wilhelmenia Fernandez). Fã da mulher, Jules leva a gravação para casa, seu galpão, cenário em que carros arrebentados dividem espaço com a tecnologia.

É ali que ele refugia-se para ouvir sua diva quando bem quiser: o futuro, agora com cara de passado, diz Beineix, reduz-se à capacidade dos homens em criar seus próprios refúgios, onde encapsulam o mundo como é lá fora. Podem gravar, arquivar a experiência para viverem em paz, talvez, em seus espaços particulares.

Ao que parece, o filme aponta ao início da morte da arte como experiência coletiva, ao mesmo tempo em que Beineix lança essas pessoas a uma aventura cômica, às vezes estranha, para não se levar a sério: é como se as personagens tivessem de “viver lá fora”, a vida como ficção barata, como velocidade, a pensar no filme policial clássico.

A história envolve um rapaz apaixonado que, por acidente, vê-se no meio de uma trama de fitas trocadas, mortes misteriosas, bandidos com insígnias policiais, capangas engraçados, além de uma adolescente oriental (Thuy An Luu) chamada por Pauline Kael, em análise entusiasmada do filme, de “namoradinha pós-godardiana”.

Difícil não pensar na nouvelle vague. Alguns dos cineastas que surgiram na França nos anos 80 – como Beineix, Luc Besson e Leos Carax – beberam na fórmula de Godard e dos jovens turcos: o casamento do erudito com o popular, a imposição de histórias que resgatam o clássico e seus clichês, concentradas em uma forma mais realista.

Por outro lado, como se vê em Diva, o real às vezes perde espaço para o onírico, com passagens compostas por luzes neon e um estofo em que tudo induz à mentira. Todo um velho cinema clássico será remontado, resumido, como na geração de Godard.

A situação de Jules assemelha-se à de outras personagens que gravaram o que não deveriam gravar, como o protagonista de Blow-Up ou, mais tarde, de Um Tiro na Noite. No fundo, e com suas diferenças claras, essas personagens, por acaso, aproximam-se do filme noir, do espaço proibido, à penumbra, em que todas estão submetidas a forças superiores.

Blow-Up é sobre um fotógrafo atrevido que acredita ter registrado um crime; Um Tiro na Noite, sobre um sonoplasta que, acidentalmente, capta o som de um assassinato; Diva, ambicioso, vai um pouco além: é sobre um amante da música que acredita poder controlar o que grava, extrair um universo todo para dentro de suas fitas, para compor seu templo à parte – ainda que outra fita obrigue-o a voltar para fora.

(Diva, Jean-Jacques Beineix, 1981)

Nota: ★★★★☆

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Os filmes de Leos Carax