O Submundo, de Jean Renoir

O cenário é um cortiço. Seus espaços internos trazem uma longa escada, camas de diferentes lados, pessoas que falam alto, jogam, pobres sem paredes e divididos por tecidos. Para fora, um rio corre perto, um pátio serve à diversão das crianças e é cercado por outras moradias, sem que se possa ver com clareza o que há do outro lado.

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Os miseráveis esperam o tempo. Um deles, a certa altura, anuncia a morte de uma velha senhora que pouco antes reclamava da vida, esperava pelo fim para então descansar. Como que agraciada, deixa os outros; vem o recado sem alarde, sem choro. Como algo comum, esperado, os outros descem para se despedir do corpo.

Nem tudo é tragédia em O Submundo, de Jean Renoir, a partir da obra de Maxim Gorki. Em momentos, vê-se mesmo algum efeito engraçado, e que não escapa aos problemas, à sujeira, a toda a imundice que cerca essas pessoas enredadas ao cortiço, à madeira em cacos, àqueles seres que contam mentiras para dar ao outro alguma ilusão.

André Bazin tem uma definição interessante para esse grande filme de Renoir: “Este inverossímil jogo de esconde-esconde entre o vaudeville e a tragédia, o realismo e a paródia, Gorki e Renoir, resulta, entretanto, numa obra que é pouco dizer que é atraente. Somente o autor de A Regra do Jogo poderia se permitir, com tanta desenvoltura, nos obrigar à emoção beirando o ridículo”. O filme de 1939 não é citado à toa.

O Submundo é também sobre um grupo. Aqui, os miseráveis ocupam outro castelo, a saber, de fragilidade extrema; no outro caso, em riqueza, ainda assim as personagens não escaparão às inconstâncias, à bagunça, aos efeitos da infantilização. A começar pela proposta do título, o jogo não leva mais que acaso, que acidentes, ainda que todos – o que vale para as caricaturas mais ou menos salientes de O Submundo – resolvam apostar. Sabichões encontram vantagens, pessoas continuam à venda.

O homem de Jean Gabin, sabichão mas trágico, Pepel, destina-se à derrota: envolve-se com a mulher errada, apaixona-se pela bela honesta, termina amigo de um barão falido, alguém que só poderá servi-lo com metade de uma estátua de cavalos, justamente o que restou da mobília de sua casa, pouco antes de as autoridades confiscarem tudo.

Ao aspecto russo há apenas um aceno. Na abertura, o Barão (Louis Jouvet) veste-se como militar. Ouve outro homem, ainda mais poderoso, enquanto encara a câmera. Perde seu título, suas posses. Não terá dinheiro para pagar o mordomo, o que não impede que este continue por ali, fiel, servindo o patrão em seus últimos dias de riqueza.

Pepel tentará roubar a casa do Barão, que não se opõe: o bandido, diz ele, pode levar o que quiser. Terminam no jogo, na bebida, viram a noite às gargalhadas. Tornam-se amigos. Logo, o Barão encontra o caminho do cortiço, passa a viver como um homem pobre e experimenta o prazer de dormir sobre a grama. Será identificado. “A nobreza é como a sífilis: alguma coisa sempre permanece”, diz um senhor entre os perdidos.

Os miseráveis aglomeram-se em torno do dono do cortiço (Vladimir Sokoloff) quando este resolve espancar a companheira de Pepel. Não é o protagonista seu assassino, nem um ou outro por ali: as mãos de todos estão sujas de sangue. Foi o grupo, a escória, as pessoas que se abrem para a polícia entrar, que tentam defender a personagem de Gabin.

Ninguém salva-se por aqui, diz Renoir. Ou quase ninguém. Às almas livres, pouquíssimas, resta a estrada – como em um filme de Chaplin. Do alto da escada, o dono do cortiço anuncia quem está abaixo, seus hóspedes: “Ovelhas negras! Inúteis! Crianças perdidas”. Não estranha que uma delas, declamante de versos de Shakespeare, prefira a forca.

(Les bas-fonds, Jean Renoir, 1936)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
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