Clássicos

A história por trás da cena do respiradouro do metrô

A filmagem da cena que fiz com ela [Marilyn Monroe] sobre o respiradouro atraiu a atenção de todo mundo. Havia 20 mil pessoas, o trânsito estava um caos, houve uma crise conjugal [refere-se às brigas da atriz com seu então marido, Joe DiMaggio].

(…)

Joe DiMaggio estava em Nova York quando filmamos a cena do respiradouro na Lexington Avenue e provocamos aquele inimaginável ajuntamento de gente. Ele estava num bar algumas quadras acima, com um amigo, o investidor nova-iorquino George Solitaire. O colunista Walter Winchell os arrastou então para o local da filmagem, onde DiMaggio não somente ouviu os gritos sujos ou encorajadores da multidão, como também viu (teve de ver!) como Marilyn estava gostando daquela exibição pública. Admito que eu também ficaria um pouco preocupado se 20 mil pessoas estivessem observando uma única coisa: o vestido de minha mulher subindo acima de sua cabeça. Quis a ironia que eu tivesse de refilmar uma tomada da cena no estúdio – o respiradouro não trazia ar suficiente, nem mesmo quando instalamos um ventilador suplementar.

Billy Wilder, diretor de O Pecado Mora ao Lado, que contém essa cena, considerada uma das mais icônicas do cinema americano. O relato está na biografia de Wilder, Billy Wilder: E o Resto é Loucura, de Hellmuth Karasek (Editora DBA; pgs. 399 e 400).

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A integridade de James Stewart em dois faroestes de Anthony Mann

Há de se concordar: poucos atores representaram bondade e esperança, no cinema americano, como James Stewart. Para tanto, basta pensar nas comédias idealistas de Frank Capra. Depois, no pós-guerra, o ator teria dificuldade para se manter como antes, às forças do cinema clássico e sua comum bipolaridade, com mocinhos e bandidos.

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Por pouco Stewart não escorrega nos grandes faroestes de Anthony Mann. Em E o Sangue Semeou a Terra o espectador reconhece o tamanho da dificuldade: sabe, desde o início, que o protagonista não é mais um homem mau, menos ainda o herói esperado. É o homem que, ao fim, deixa ver a cicatriz na garganta, marca da forca, de tempos sombrios.

Nesses faroestes, Stewart surge como certeza perdida, a se confiar. Mann, a essa altura, já tinha feito filmes do mesmo gênero entre otimismo e amargor, com toques modernos, psicologia entre relações familiares, como se vê no extraordinário Almas em Fúria, na relação conflituosa entre a filha Barbara Stanwyck e o pai Walter Huston.

Stewart já havia servido o cineasta em Winchester ’73. Pelos anos 1950, poderia fazer o que quisesse, ser quem bem entendesse, ainda que, pela própria natureza, a forma bondosa resistisse – ao contrário do que ocorreria, por exemplo, a Henry Fonda. É do ator o espírito – um tanto falso, é verdade – do colonizador macio e confiável.

Se em E o Sangue Semeou a Terra não resta dúvida sobre sua inclinação à bondade, em O Preço de um Homem quase chega a convencer o público de seu cinismo, de que pode estar do lado errado – mas nem tanto – do jogo. No primeiro, ele interpreta um bom homem de passado amargo; no segundo, um homem amargo com passado de bondade.

Nesse sentido, Mann embaralha as peças para se aproximar da mesma história. Não estranha se alguém disser que os pistoleiros de Stewart são os mesmos, em diferentes aventuras, em busca da tão sonhada boa vida em civilização: em E o Sangue Semeou a Terra, a tentativa de se estabelecer em uma sociedade pacífica; em O Preço de um Homem, o encontro com a mulher que pode ser a companheira ideal para recomeçar.

Os encerramentos abrem espaço ao “romantismo fechado”, embrulham o espectador na continuidade, certeza de dias melhores, na civilização que ganha mais um tijolo fundamental à sua solidificação. Por outro lado, em todo o decorrer há o inverso a essa aproximação do sonho pela sociedade branca e bruta: nos dois filmes, o extermínio dos índios, distantes e não raro vistos como inimigos; em ambos, o preço gerado pela corrida ao ouro, que alimenta a ganância e a traição entre colonizadores.

Todo o gênero pode ser visto em E o Sangue Semeou a Terra, no qual Stewart faz Glyn McLyntock, homem que, a começar por si mesmo, crê nas boas transformações. O filme tem início em um ponto adiantado dessa história, quando o herói já faz parte de uma caravana rumo a um lugar melhor, ao novo distrito, à tranquilidade.

No meio do caminho, Glyn encontra outro homem, primeiro um amigo, depois o algoz; em seguida, ambos, com todos os outros, terminam em uma cidade pacífica que, em questão de meses, transforma-se. Com a descoberta do ouro, o local é invadido por todo tipo de gente, o que não evita também a transformação dos que já estavam ali.

Glyn precisa retornar a essa cidade para recuperar a alimentação de seu grupo, então parada no porto, dia a dia mais valorizada pela nova característica do local – e, sem exagerar, daquela nação: a valorização do produto, cada vez mais caro à medida que a riqueza aumenta. Pelo roteiro de Borden Chase, Mann contrapõe os capitalistas gananciosos, jogadores, aos viajantes conscientes da distribuição dos produtos em sociedade.

E não estranha que, como em O Preço de um Homem, toda ganância é incompatível com a vida do bom homem, rumo ao horizonte, na companhia da nova mulher: ao se render a essa dama e à vida que o aguarda, Howard Kemp (Stewart) precisa deixar o cadáver do bandido que procurava para trás, seus cinco mil dólares de recompensa.

Será assim: o dinheiro pela vida em equilíbrio, na mais pura exposição clássica dos valores americanos. O gênero faroeste pulsa com suas contradições, seus caminhos estranhos, série de mudanças em uma mesma personagem, a de Stewart: do caçador de recompensas determinado ao bom rancheiro – tudo em questão de minutos.

Os que se rendem ao ouro terminam mortos. Ambos os filmes de Mann – nos quais um clima maldito duela com a forma clássica, o que antecipa, por exemplo, Pistoleiros do Entardecer, de Peckinpah – dão espaço ao herói que pode dar certo, que se equilibra para não tombar. Com James Stewart, a integridade é garantida.

(Bend of the River, Anthony Mann, 1952)
(The Naked Spur, Anthony Mann, 1953)

Notas:
E o Sangue Semeou a Terra:
★★★★☆
O Preço de um Homem: ★★★★☆

Foto 1: E o Sangue Semeou a Terra
Foto 2: O Preço de um Homem

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Sombras do Mal, de Jules Dassin

O apostador barato sonha em chegar ao topo do mundo e enriquecer. Segundo sua namorada, ele tem cérebro, ambição e “trabalhou mais que dez homens”. No entanto, nessa Londres às sombras, o protagonista segue como sempre foi, atolado em problemas, dívidas, o mesmo desmiolado nascido para o tombo.

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Difícil compreender por que ela continua a amá-lo, a segui-lo, a apostar nesse competidor fracassado ao longo de Sombras do Mal. “Você não encontrará nenhum dinheiro aí, Harry”, afirma a moça, quando o flagra mexendo em seus pertences, atrás de alguns trocados. Para sobreviver às ruas, vencer as dívidas, subir, será capaz até de agredí-la.

Ela, Mary (Gene Tierney), simplesmente não consegue deixá-lo. Cansou de ouvir seus planos, de fingir que o mesmo poderia ter sucesso, e até permitiu que saísse de seu apartamento com notas no bolso. Harry Fabian (Richard Widmark) usou a força de “dez homens” para se tornar um pequeno trambiqueiro, um golpista.

Trabalha para o mesmo homem que a amada, também para a mesma mulher – o casal Philip (Francis L. Sullivan) e Helen Nosseross (Googie Withers), seres da pior espécie à frente de um bar. Enquanto Mary é treinada para vender qualquer tipo de produto aos frequentadores, Harry encontra caminhos para atrair clientes ao agitado comércio.

A história é dele. Mary serve de alívio, figura honesta no grande filme de Jules Dassin, que foi para a Inglaterra trabalhar após cair na Lista Negra de Hollywood. Harry, em sua tentativa de chegar ao topo, sonha em controlar os espetáculos de luta livre londrinos nos quais impera a falsidade, em aberta comunhão com o universo que conhece bem.

A oportunidade aparece quando ele conhece um velho atleta de luta greco-romana. Vem a ser o pai do chefão dos ringues de luta livre, alguém que ainda crê no esporte como arte e, por isso, algo distante da dissimulação com quedas, saltos e golpes levados ao público. Para o velho lutador, o lucro do filho vale-se do espetáculo de circo.

Para Harry, é necessário aproximar-se do pai (Stanislaus Zbyszko) para ocupar o espaço do filho (Herbert Lom), dono do monopólio dos ringues da cidade em questão: fingir que pode ressuscitar um respiro de arte em um mundo marcado pelo show ordinário, ao público que aceita a mentira a serviço de patrocinadores gatunos.

O universo em questão dá luz a alguém como Harry, que só pode existir em terreno como tal. Que surge à tela correndo, perseguido por alguém cuja identidade não importa; outro, entre tantos, ao qual deve uma quantia de dinheiro, em aventuras de ganhos e perdas, de saltos e quedas, de riscos que não o retiram da sombra dos outros.

Harry reflete os ânimos e a visão de Dassin naquele momento: o filme noir, reino das sombras, é perfeito para o movimento dos pecadores que buscam redenção, para as várias delações em troca de dinheiro, para o espetáculo barato a um público pouco crítico, para um reino de miséria em que ninguém (ou quase) se salva.

Não é difícil pensar no macartismo do qual Dassin foi vítima e em seus efeitos, período vergonhoso da história americana em que suspeitos de colaboração comunista foram perseguidos e proibidos de trabalhar. Nesse meio, a força de vontade de Harry não será suficiente para salvá-lo; seu avanço é freado pelo mundo que o cerca.

Widmark está perfeito como golpista. Pouco depois, em 1953, estrelaria Anjo do Mal, de Samuel Fuller, cineasta acusado de alinhamento à direita. Na trama, os comunistas são vilões que tentam matar o protagonista, o batedor de carteira que acidentalmente rouba planos secretos dos soviéticos. Widmark serve filmes brilhantes que se aproximam e se repelem. Para Dassin, ao contrário de Fuller, a saída ao fim é impossível.

(Night and the City, Jules Dassin, 1950)

Nota: ★★★★★

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