L’air de Paris, de Marcel Carné

A começar pelo título, há um problema com a cidade, Paris. Não necessariamente esta, mas qualquer grande cidade cujo ar consome as pessoas, como se as levasse ao pior. Terão de viver ali, às rinhas, nessa sobrevivência torta que não faz sumir os camaradas: o homem que viveu muito, alguém triste, e o garoto que está vivendo.

À tela, Jean Gabin já respirou todo aquele ar, intoxicou-se, aprendeu a viver sob ele. O rapaz que deve treinar para se tornar um novo campeão de boxe, interpretado por Roland Lesaffre, tem direito ao oxigênio com o qual não sabe lidar, o que o leva a certo sucesso, à paixão de momento, ao estado até então não experimentado.

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Como em outros filmes de Marcel Carné, L’air de Paris traz personagens que levam a tragédia no corpo. A relação entre elas é curiosa: ao público, o cineasta lança, sobretudo, o mais jovem, ainda que se prefira o experiente, o velho, o treinador que, sabe-se, não sairá mais do mesmo lugar. É, no fundo, uma disputa entre comodismo e transformação, ou entre experiência e juventude, entre o que fala pouco e o que explode.

O esquematismo não retira a beleza do filme. Não está à altura de outras obras de Carné. Por outro lado, impossível não se deixar seduzir por sua composição de figuras simples, gente que sempre retorna aos mesmos ambientes. Personagens sob certa acidez, conscientes do lamaçal à frente, do imobilismo, ligadas às pequenas coisas, ao simples.

O Gabin em cena está distante do Gabin de Cais das Sombras, homem desesperado em busca da fuga. Os gestos anteriores – de amor e morte – dão espaço ao conformismo, à aventura que se encontra apenas no ringue, na luta, no confronto com suas regras: a aventura é agora um esporte, seus homens apaixonados vestem luvas.

Pois o Gabin anterior nada transfere a Lesaffre senão esse ar com o qual, como a personagem dos anos 30, não saberá lidar. Toda essa abertura – primeiro ao boxe, depois à descoberta do amor – fará o rapaz perder-se por alguns dias, justo ele, então a promessa de um campeão. A seres assim, que nada tinham, o ar em excesso prejudica.

A sequência inicial é um primor de controle e representação. Funcionário da ferrovia, André Ménard (Lesaffre) e outros funcionários abrem espaço para a passagem do trem. Na mesma tela, homens apequenam-se, aos cantos, à medida que a máquina avança, ganha espaço no quadro. O trem para. Da janela sai uma bela mulher, talvez sufocada, talvez em busca do ar de Paris. O rapaz, sujo dos pés à cabeça, observa-a com admiração.

Ao que parece, os mundos que se cruzam no início são inconciliáveis, ainda que sob o mesmo oxigênio. E isso explica por que precisam se encontrar, mais tarde, a exemplo do que se viu no clássico Um Lugar ao Sol. À estrada, nos instantes iniciais, o rapaz pobre pede carona quando vê passar o carro branco de sua futura amada.

No caso de L’air de Paris, a constatação da inconciliação é curiosa, já que a menina amada (Marie Daëms) é nada mais que embuste, composta às falsidades, antes tão pobre quanto o moço com quem se envolve, depois alimentada pelo dinheiro de um homem rico.

As mulheres são estranhas, soturnas, sem a humanidade que jorra nos homens. Mais realistas, dirão alguns. A maneira como trata essas damas – tentativa de embutir o mistério típico dos tempos do realismo poético – coloca Carné sob suspeita. Os homens lutam, avançam, sonham; as mulheres, ao contrário, sempre atrapalham os planos.

Uma delas, companheira da personagem de Gabin, é interpretada justamente por Arletty. Como em seus famosos papéis para o mesmo Carné, em décadas passadas, a atriz não precisa mais que presença, em curta expressão, para demonstrar toda a desilusão à qual o filme lançará o público. Basta encará-la para compreender.

(Idem, Marcel Carné, 1954)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Sedução da Carne, de Luchino Visconti

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