Os Garotos Selvagens, de Bertrand Mandico

Os meninos tornam-se meninas na ilha dos prazeres. A aventura envolve a descoberta da sexualidade, ao passo que os descobridores beiram o delírio. Condenados a amadurecer após matarem uma professora por diversão, esses garotos selvagens assistem à queda do próprio pênis, ao crescimento dos seios, à formação do corpo feminino.

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Para o diretor Bertrand Mandico, mais importante é a mistura, o indefinido, a passagem dos jovens inconsequentes à experiência da transgressão ao longo de Os Garotos Selvagens.

Após o crime bárbaro, os envolvidos dizem ao juiz que a culpa era da professora de literatura, que teria seduzido cada um deles; presa a um cavalo, ela é lançada a um precipício. O juiz decide então que os jovens continuam sob o poder de seus pais que, para efeito corretivo, decidem enviá-los a uma viagem de crescimento.

Como manda a tradição conservadora, o crescimento deve vir acompanhado das ações do macho genuíno, por isso mesmo da vida bruta. A tutela dos meninos caberá a um marinheiro e, com este, postos no navio, em águas bravas, serão levados à citada ilha. Tempestade, agressão física e os arroubos do líder barbudo ganham espaço durante a viagem.

O rígido capitão passa da forma esperada – como nas antigas histórias de marinheiros – ao impensável: à frente, ele revela ter apenas um seio. Traz misturas: nem homem nem mulher por completo. Seu pênis – ao qual um dos garotos volta os olhos – é tatuado; parece levar ali o mapa dessa ilha de prazeres, conversões, puro descobrimento.

À medida que se tornam meninas, os viajantes conhecem os prazeres da natureza: bebem o leite – o esperma – dos troncos da vegetação. A seiva alimenta. A selva responde ao erotismo. Uma das plantas – carnívora, claro – cria pernas para enlaçar um(a) dos(as) jovens que a penetra.

Mandico é um nome que merece atenção. Seu cinema esboça delicadeza em meio aos instintos da carne, como se viu no ótimo média-metragem Boro in the Box, sobre a formação do cineasta transgressor Walerian Borowczyk, ou ainda no curta Living Still Life.

Movido à arte do toque, da pele, que responde sempre à aparência do primitivo, Mandico, como Borowczyk, é um provocador. Os Garotos Selvagens é uma fábula subversiva aos ecos do mundo real – como se Peter Pan fosse levado à tela por alguém como David Lynch.

Filme originalíssimo sobre uma aventura que confronta a existência de classificações. Na ilha, com seios brotados, as personagens ainda mantêm calças masculinas e suspensórios. Entre preto e branco e cores, descobrem-se, bebem, lambem a terra, trocam fluidos – à sombra de plantas gigantes, de uma máscara com pedras incrustadas.

Os meninos são interpretados por atrizes. Não é fácil perceber. Em algum ponto, são andrógenos, retos, presos – por isso mesmo, pela natureza de tantas formas, definidos. Um deles, Tanguy (Anaël Snoek), fica com apenas um seio, a vagar pela ilha à busca de si próprio, para se encontrar, enxergar-se, para além do garoto selvagem.

(Les garçons sauvages, Bertrand Mandico, 2017)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
O Senhor das Moscas, de Peter Brook

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