O Senhor das Moscas, de Peter Brook

Os meninos aprendem a viver na ilha deserta. A aprendizagem faz com que neguem algumas regras de civilidade. Um deles, o próximo líder, de rosto pintado e vivo para a guerra constante, afirma o que depois se concretiza: “Para o inferno com as regras! Somos fortes! Nós sabemos caçar”. Por algum tempo, viverão para a caça em O Senhor das Moscas.

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O ponto de partida é curioso: as crianças sobrevivem à queda de um avião e terminam na ilha. As roupas logo se tornam trapos, a pele serve à tinta tribal, o místico – criado por eles próprios – não demora a dar as caras: da floresta profunda só poderá sair um monstro, acreditam os jovens isolados.

Da infância há uma distância segura, e não devemos nos enganar: são crianças de verdade. As relações ficam entre a brincadeira de garotos, para não se levar a sério, ou quase não se levar, e a selvageria que aos poucos ganha espaço. Quando os gritos desse bando passam ao insuportável, o sonho – ou o pesadelo – termina.

O filme de Peter Brook, do livro de William Golding, curiosamente faz da molecagem seu trunfo: é o realismo – garotos como garotos – que torna as atitudes finais tão inesperadas; o que há de cruel nessas relações, na luta entre grupos, ao mesmo tempo termina por parecer brincadeira.

É um período, uma passagem, o confinamento no nada como aprendizagem ou, o que mais parece certo, regressão às cavernas. A nova sociedade de crianças parecerá perigosa quando vista aos olhos das crianças, o que não significa que seus atos não sejam horrendos aos olhos adultos. Podem e são. Mas a questão diz respeito ao ponto de vista empregado nesse filme fascinante: entre todos, sentimo-nos como crianças.

Pois os códigos desses pequeninos – de tipos diferentes, com suas tentativas de chegar a um conjunto de regras que favoreça a todos – são característicos e não menos naturais. Brook capta a infância verdadeira, que não deixará de ser assim nem em uma situação-limite como a de O Senhor das Moscas. Muito menos por sua causa.

É nessa possibilidade de tocar o selvagem – por mais paradoxal que pareça – que a infância faz todo o sentido: o homem selvagem, que crê em monstros e vive para guerrear, é, antes, um homem passado, anterior, ou uma figura infantil. Com o surgimento de um grupo radical, a história apresenta sua crítica ao totalitarismo.

Acima de todos, o pequeno déspota faz regras baseado no medo, inclusive no seu. Ao que tudo indica, até mesmo esse pequeno líder, Jack (Tom Chapin), acredita na existência de uma criatura abominável entre a mata, a defender as pedras e a montanha, a ilha que até então não era de ninguém senão da natureza de pouco movimento.

A criação do monstro (o inimigo) possibilita a presença do medo e, por sua influência, o estado de exceção no qual todos os subordinados acabam aceitando a guerra constante, contra a presença de regras que podem tornar a vida e a convivência mais justas. A existência do monstro da montanha possibilita o reinado do tirano.

Abaixo, cada vez com menos poder, situa-se Ralph (James Aubrey), que já tentou ser o líder do grupo e fracassou. Ao pedir sensatez aos demais, além de uma fogueira constantemente acesa para chamar a atenção de navios ou aviões, termina esmagado pelas soluções violentas propostas pelo outro, que insiste em caçar o tal monstro inexistente.

Em outro garoto, chamado por todos de porco, inclusive por Ralph, encontramos maior equilíbrio, alguém capaz de enxergar o que um mundo adulto e civilizado precisa para se manter vivo, e o que os pequenos selvagens com lanças em mãos não conseguem compreender nunca. Para estes, o melhor é não ser encontrado, é viver o prazer desses dias em que, na ilha deserta, em suas “brincadeiras”, foram donos do seu próprio reino.

(Lord of the Flies, Peter Brook, 1963)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
O Jovem Ahmed, de Jean-Pierre e Luc Dardenne

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