Casamento ou Luxo, de Charles Chaplin

A casa, no início de Casamento ou Luxo, apresenta um universo fechado, uma prisão. Para escapar dali, a protagonista tem de pular a janela. Naquela noite, ela planeja fugir com o namorado, seu futuro marido. Ao retornar à sua própria casa, depois, seu pai não a deixa mais entrar e resta apenas a família do amado.

Novas recusas surgem nesse melodrama de Charles Chaplin, caso único em sua carreira, quando o mestre decidiu ficar apenas atrás das câmeras e fazer um filme dramático.

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Casamento ou Luxo passa-se entre o campo e a cidade, entre a inocência e o cinismo, entre os laços da vida e os efeitos do instante. O filme faz uma crítica àquele de tempo de frivolidades parisienses, pois é para Paris que a protagonista vai. Qual outra cidade representaria melhor esse mundo de facilidades?

O diretor tem consciência desses extremos, mas quase sempre é afetado por um olhar em que a cidade grande nada tem de bom a oferecer. É no campo – local em que surgem as personagens, ainda não corrompidas – que vive o homem bom.

Naquela noite inicial, a protagonista Marie (Edna Purviance) é vista de fora, através da janela, e Chaplin logo aponta à sua triste condição: a da mulher aprisionada, que olha para fora para encontrar ou esperar algo.

Ela encara o espectador e se explica: é alguém cujo olhar evidencia o desejo de mudança, como sua prisão. O homem, para a moça da cidade, revela a fuga. Ele é uma saída, uma oportunidade, e logo aparece. Jean (Carl Miller) é alguém correto demais, o moço certo àquela moça ingênua, à espera das novidades.

Na estação de trem, eles tramam a fuga. O rapaz volta para buscar suas coisas e, em um golpe do destino, seu pai morre na despedida. Marie, sozinha na estação, cansa de esperar pelo amado. Sob a luz do trem que não se vê, ela segue para a mudança.

Necessário ao melodrama será o reencontro: Marie vive bem, com dinheiro e criados, tudo bancado por um namorado rico (Adolphe Menjou); Jean aparecerá mais tarde, com a mãe, em um espaço pequeno em Paris, onde trabalha como pintor.

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São mundos diferentes em uma mesma cidade, para pessoas que pareciam iguais. O meio, diz Chaplin, é capaz de moldá-las. Ainda assim, resta um espírito ligado ao passado, ao campo, àquela bondade interiorana – como se o homem, para Chaplin, tivesse mais características boas do que más. Trata-se de um otimista.

Boa parte do que pertence à cidade – festas, jantares, conversas sobre traição – é exagerado e perigoso. No retorno ao campo, ao fim, serão revelados os caminhos contrários, quando Marie e o velho namorado cruzam-se na estrada. Ela segue para um lado, ele para outro. Ela em uma carroça, ele em um carro veloz.

Ao encontrar Jean, na abertura, Marie explica-se em uma frase: “Estou trancada”. Ela seguirá um pouco assim, trancada, mas tomada pela impressão de liberdade naquela Paris de facilidades. Ao fim, será livre: sem o amado, sem o namorado rico, com crianças e à estrada. Faz o que quiser.

Os amantes estão condenados à separação. O culpado não é o homem rico, a sedução das grandes festas e jantares ou simplesmente a mãe que deseja algo melhor ao filho. Segundo Chaplin, o problema está no admirável mundo novo visto na cidade grande e luminosa, indiferente às coisas simples e necessárias à vida.

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