Vidas em Jogo, de David Fincher

O banqueiro vive sozinho. Todos os dias, toma seu carro lustrado e, pelas ruas um pouco desertas e com pouco sol de São Francisco, segue ao escritório. Ao lado, a bela secretária comunica-lhe convites e afazeres. A televisão está sempre ligada em canais de negócios, sobre compra e venda de ações. Ele, descobrimos, é um jogador.

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O que mais alguém com tanto dinheiro, com vida aparentemente confortável, poderia comprar? Em seu aniversário, no dia que abre Vidas em Jogo, o questionamento é feito por seu irmão. O presente não poderia ser mais diferente: uma experiência em que o banqueiro é feito alvo das mais variadas intempéries, no centro de um jogo perigoso.

A questão envolve interpretação, cenários, figurantes, peças posicionadas para levar Nicholas Van Orton (Michael Douglas) a uma aventura louca que o dinheiro – nesse mundo moderno em que tudo está à venda – agora pode comprar, a sensação de se correr riscos, ser vigiado, ser o centro de uma trapaça que lhe faz pobre da noite para o dia.

À primeira vista, o filme de David Fincher lida com algo insustentável: a ideia de que todas as peças postas para confrontar Van Orton são dadas de antemão, de que todas as suas reações e avanços podem ser previstos, de que um estudo psicológico – a empresa submete-lhe a exames – pode despi-lo, moldá-lo, para que mate e até para que tente se matar.

Inverossímil, sem dúvida, mas atraente enquanto representação desses tempos de jogadores engravatados acostumados a demitir, a vencer, nunca a ser descartados. A experiência dada pelo irmão (Sean Penn) como presente é o confronto ao mundo real que, para Van Orton, só é possível existir nos limites da farsa – por isso um paradoxo.

O jeito inabalável aos poucos dá lugar à carne e ao osso. Esse homem – espécie de Gordon Gekko um pouco amaciado – é o tubarão que não se deixa ver, que dá as cartas, faz perguntas e, em uma roda com desconhecidos na qual paga a bebida, quer saber do que trata o comentado jogo. Um deles não titubeia ao dizer que é fascinante.

Nessa experiência-limite, nesse teatro, o jogador é provido ao invés de provir, ainda que acredite ter algum poder e liberdade para mudar o resultado. Perfeito para o papel, Douglas vai do vencedor americano ao homem pobre em uma vila mexicana, enterrado vivo, com apenas o relógio de ouro para vender e retornar ao seu país.

O jogo tem início quando ele encontra um boneco de palhaço jogado no quintal de sua mansão, justamente no local em que seu pai foi encontrado morto após se suicidar. As memórias retornam, os filmetes do passado nos fazem lembrar de A Tortura do Medo, de Powell, no qual o cotidiano captado de maneira amadora assume tom assustador.

O palhaço liga o protagonista ao seu pai, talvez o único ator verdadeiro, na única interpretação verdadeira inclusa nesse jogo: a morte. O que nos faz pensar no encerramento: a experiência-limite, comprada, terá de levar, no clímax, o presenteado a esse mesmo lugar, ao desejo pela morte que talvez o torne alguém mais humano.

Há sequências emocionantes. Ficamos entre o medo e o prazer, no lugar desse homem agora fragilizado, que só pode chegar a um lugar comum (o México pobre, no terreno dos miseráveis que o sistema global ajuda a alimentar) quando embarca no jogo. O filme de Fincher é sobre perder as rédeas, descobrir-se projetado à farsa, em uma sequência de acidentes que aparentemente não fazem qualquer sentido.

Pensamos no próprio cinema na cena em que Van Orton é colocado em uma sala para assistir filmes caseiros, com imagens reais, de situações supostamente desconexas a não ser ao nosso próprio poder de uni-las e lhes dar significado. Em seu não entendimento, o banqueiro levanta-se e toca a luz do projetor, como se quisesse uma resposta a todo custo.

Ao ser convidado a uma festa de casamento, ainda no início, ele afirma saber o necessário sobre esses ambientes. Diz o que pensa, faz o que quer. O dinheiro possibilita-lhe tudo. “Se não conhece a sociedade, não pode ter a satisfação de evitá-la”, diz à secretária. O presente de aniversário é justamente o que ele não pode evitar: aquilo que nunca viveu.

(The Game, David Fincher, 1997)

Nota: ★★★★☆

Veja também: David Fincher: do pior ao melhor

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