A Tortura do Medo

Silêncio nas Trevas, de Robert Siodmak

Incontáveis vezes as personagens descem as escadas, dos espaços altos da casa ao porão no qual estão guardadas as bebidas e algumas tralhas. Em Silêncio nas Trevas, as personagens revisitam a espiral, a imagem do delírio, como se viu e como se veria em tantos filmes seguintes, entre eles Um Corpo que Cai, de Alfred Hitchcock.

A protagonista também é a vítima, a menina muda interpretada por Dorothy McGuire. Por outro lado, também está ao canto, impotente, alguém cujo olhar – a todos ao redor, por diferentes cômodos – confere forma a esse belo filme noir dos anos 40.

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Seu olhar cruza o do assassino ainda no início. Estão em ambientes diferentes, mas próximos. Ela está no cinema, no interior de um hotel; ele, pouco acima, no quarto da próxima vítima, mulher aleijada. Ela assiste ao filme mudo, observa atentamente à ação na tela; ele esconde-se no armário antes de atacar a outra.

Pela montagem paralela, o diretor Robert Siodmak explora a relação dos voyeurs: o prazer contido na tela do cinema e o prazer de observar a próxima vítima. É o que explica, pela montagem, o olhar cruzado, entre a menina condenada a guiar o público em silêncio e o assassino que deixa ver apenas o olho.

Sobre a menina o espectador supõe saber muito, o que a torna ainda mais frágil. O silêncio aproxima-a da criança, ou do animal indefeso, obrigada a se comunicar apenas pela face de susto, de medo, ou de alegria e amor. É a protagonista perfeita ao vilão sem rosto, em busca de vítimas com algum defeito físico.

Pela inclinação das escadas e seu fundo infinito, como se vê no efeito da espiral, o filme conduz o espectador ao labirinto: a mesma menina é obrigada a circular por pontos diferentes da casa, por personagens que escondem segredos, pela indicação constante – ao espectador – de que alguém entre eles é o assassino procurado pela polícia.

Nesse ambiente de clausura – entre cômodos, pequenos segredos, gente estranha –, o único sinal de pureza chega pela inocente Helen (McGuire). A opção faz parte de um jogo que explora extremos, jogo escancarado que remete, segundo Siodmak, à face da mesma Helen enquanto assiste ao filme dentro do filme, na sala de cinema: o diretor manipula o público para retirar dele toda emoção possível, para lhe amedrontar.

No cinema, diz Siodmak, vale esconder o monstro e expor apenas seu olho, ou apenas seu olhar. O espectador será confrontado assim pelo gesto do criminoso, será levado a ver pelo olho do outro e talvez concordar que as “imperfeições” são sedutoras e dignas de atração. Tal gesto seria levado a filmes seguintes, nos quais os criminosos são também voyeurs, como os extraordinários A Tortura do Medo e Psicose.

A abertura, entre a sala de cinema e o ataque do psicopata, parece inesgotável: contra a imagem do filme mudo, em plano conjunto ou médio, Siodmak joga o plano detalhe (o olho ou as mãos cruzadas), o cinema que mobiliza ao revelar apenas as partes. Em paralelo, o cinema primitivo, talvez o melodrama, a imagem que expõe tudo.

Em cena, a evolução de uma arte, o paralelo entre tempos. As duas mulheres – a do filme e a do quarto do hotel – morrem no mesmo momento. Na sala de cinema, Helen emociona-se com o desfecho, conduzida à dor pela manipulação. Sua apresentação dispensa palavras. Fica apenas a expressão. A essa altura, o espectador compreende que ela é a vítima em potencial, fragilizada justamente pelos efeitos do cinema.

(The Spiral Staircase, Robert Siodmak, 1946)

Nota: ★★★★☆

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12 diferentes fetiches explorados pelo cinema

O cinema é o espaço perfeito para o voyeur. O espaço para explorar o proibido, o íntimo e impenetrável – ou quase isso. Os filmes abaixo apresentam desejos de pessoas ou grupos, em alguns casos divididos apenas com o espectador, seu cúmplice. Obras de diferentes cineastas e épocas, com os mais variados fetiches.

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Atração por pés (podolatria) – O Alucinado

No início dessa grande obra de Luis Buñuel, seu protagonista, um obsessivo, observa os pés das mulheres no interior da igreja – justamente quando o padre lava os pés dos frequentadores, durante uma cerimônia. É ali que ele atenta-se a uma mulher entre várias, sua desejada e futura esposa. Um filme sobre ciúme e perseguição.

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Atração por deformidades (teratofilia) – A Tortura do Medo

O melhor exemplo do cinema sobre o desejo pela deformação. Esse estranho fetiche vai sendo revelado aos poucos e, a certa altura, o espectador descobre que o protagonista gosta de matar mulheres vendo seus rostos distorcidos no espelho. Em uma cena específica, ele fica deslumbrado por uma prostituta com o lábio deformado.

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Atração por criminosos – Marnie, Confissões de uma Ladra

O marido, vivido por Sean Connery, estuda zoologia e tenta entender a mulher, Marnie (Tippi Hedren), a ladra platinada. O desejo do homem a certa altura fica evidente (e seria confirmado pelo diretor Alfred Hitchcock): ele deseja fazer sexo com ela quando está prestas a cometer seu crime. A saber: ela é uma ladra compulsiva.

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Atração por sujeira ou fezes (coprofilia) – A Bela da Tarde

O mestre Buñuel foi o rei da exploração de fetiches no cinema. Eis outro exemplo famoso: o momento em que Séverine (Catherine Deneuve), amarrada, tem lama lançada contra seu corpo pelo amigo do marido. Trata-se de desejos ocultos divididos apenas com o espectador. Ela torna-se prostituta em um bordel para tentar realizá-los.

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Atração pela monstruosidade – Possessão

O filme mais famoso do grande diretor polonês traz Isabelle Adjani como Anna, que passa a apresentar comportamentos estranhos e é seguida pelo marido, Mark (Sam Neill). O que ele descobre é assustador: a companheira mantém relações sexuais com uma criatura monstruosa. Outro caso de teratofilia, aqui com doses de surrealismo.

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Ser tratado como criança (autonepiofilia) – Veludo Azul

O rapaz (Kyle MacLachlan) está escondido no armário e assiste à sessão de sadismo de Frank Booth (Dennis Hopper), quando este investe contra a frágil Dorothy (Isabella Rossellini). Ele rasteja às suas partes íntimas, cheira gás e, aparentemente dopado, faz-se um bebê em busca de sexo com a representação da mãe. Obra-prima de David Lynch.

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Vestir-se de mulher – Ed Wood

Mais conhecido como “o pior diretor de todos os tempos”, Ed Wood ganha vida na pele de Johnny Depp nesse filme de Tim Burton. Uma das manias do excêntrico diretor – sempre tratado com certa inocência por Burton – era se vestir de mulher. Apesar de cômica e nostálgica, a obra não deixa de ser um retrato triste de artistas à margem.

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Atração por máquinas e acidentes – Crash – Estranhos Prazeres

Obra-prima de David Cronenberg sobre um grupo de fetichistas ligado às máquinas, ao sexo, também ao cinema. Eles excitam-se nos veículos, exploram o desejo pela deformidade gerada por colisões e chegam a reproduzir acidentes que tiraram a vida de figuras famosas como James Dean. Perfeito retrato da busca pelo prazer na era moderna.

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Ouvir histórias eróticas – Ondas do Destino

Feito ainda no período do Dogma 95, época em que Lars von Trier apostava em uma câmera livre, de imagens “imperfeitas”, aqui a tratar de uma moça ingênua (Emily Watson) que se vê obrigada a procurar outros parceiros quando o marido sofre um acidente. Preso à cama, ele deseja ouvir os relatos de suas aventuras sexuais.

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Atração pelo sangue – Desejo e Obsessão

Há também toques de canibalismo nesse trabalho perturbador de Claire Denis, discípula de Jacques Rivette. Um homem recém-casado (Vincent Gallo) está em lua de mel em Paris e tenta resistir a seu desejo por sangue. Em paralelo, o espectador conhece uma mulher (Béatrice Dalle) aprisionada, que mata homens para realizar seus desejos sexuais.

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Masoquismo – A Professora de Piano

Pianista reclusa, aparentemente fria, a protagonista (Isabelle Huppert) sai em busca de excitação quando não está dando aulas. Frequenta cinemas pornográficos e ambientes de perversão. A história dá uma guinada quando ela passa a manter uma estranha relação com um de seus alunos (Benoît Magimel), o que inclui jogos perversos.

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Atração por cadáveres (necrofilia) – Beleza Adormecida

A protagonista (Emily Browning) é uma prostituta que divide seu tempo entre fisgar homens em um bar e servir às perversões de frequentadores de um castelo afastado. Ela aceita dormir nua, sob o efeito de remédio, sem saber o que se passa no quarto. Os clientes, por sua vez, devem respeitar as regras da casa e não fazer sexo com ela.

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Os 40 melhores filmes sobre o cinema

Afinal, o que é o cinema? Pensadores já se debruçaram sobre essa pergunta. Em linhas gerais, é a arte na qual a imagem ganha movimento, em que os sonhos aproximam-se da realidade – ou ganham esse aspecto real, fantástico, que apenas o cinema – a sétima das artes – é capaz de captar. Ou, tecnicamente falando: 24 quadros por segundo.

Às vezes, e de forma brilhante, o cinema fala sobre si mesmo. Mestres de países e estilos variados – de Dziga Vertov a Robert Altman – já se dedicaram a colocar na tela a arte e as particularidades de um meio que conheciam tão bem. Abaixo, uma lista sobre filmes que abordam o cinema – da paixão à realização. Também, vale registrar, uma lista que já nasce apaixonante, de alguém apaixonado. Uma lista que demorou certo tempo para ser feita, com pesquisa e cabeça a pensar. O resultado segue abaixo.

40) Serbis, de Brillante Mendoza

serbis

39) Adaptação, de Spike Jonze

adaptação

38) Salve o Cinema, de Mohsen Makhmalbaf

salvem o cinema

37) Barton Fink – Delírios de Hollywood, de Joel Coen

barton fink

36) A Mulher Pública, de Andrzej Zulawski

a mulher pública

35) Sonhos de um Sedutor, de Herbert Ross

sonhos de um sedutor

34) Um Truque de Luz, de Wim Wenders

um truque de luz

33) Depois da Vida, de Hirokazu Koreeda

depois da vida

32) No Decurso do Tempo, de Wim Wenders

no decurso do tempo

31) O Artista, de Michel Hazanavicius

o artista

30) Na Mira da Morte, de Peter Bogdanovich

na mira da morte

29) A Invenção de Hugo Cabret, de Martin Scorsese

a invenção de hugo cabret

28) The Last Movie, de Dennis Hopper

último filme

27) Dia de Estreia, de George Nichols

dia de estreia

26) Ed Wood, de Tim Burton

ed wood

25) Irma Vep, de Olivier Assayas

irma vep

24) Amador, de Krzysztof Kieslowski

amador

23) Corridas de Automóveis para Meninos, de Henry Lehrman

corrida de automóveis para meninos

22) Belíssima, de Luchino Visconti

belíssima

21) King Kong, de Merian C. Cooper e Ernest B. Schoedsack

king kong

20) Cidade dos Sonhos, de David Lynch

cidade dos sonhos

19) Um Homem com uma Câmera, de Dziga Vertov

um homem com uma câmera

18) No Silêncio da Noite, de Nicholas Ray

no silêncio da noite

17) A Rosa Púrpura do Cairo, de Woody Allen

a roda púrpura

16) O Desprezo, de Jean-Luc Godard

o desprezo

15) Close-Up, de Abbas Kiarostami

close up

14) A Cidade dos Desiludidos, de Vincente Minnelli

a cidade dos desiludidos

13) O Último Magnata, de Elia Kazan

último magnata

12) A Tortura do Medo, de Michael Powell

a tortura do medo

11) Assim Estava Escrito, de Vincente Minnelli

assim estava escrito

10) O Jogador, de Robert Altman

o jogador

9) Através das Oliveiras, de Abbas Kiarostami

atravès das oliveiras

8) Cantando na Chuva, de Gene Kelly e Stanley Donen

cantando na chuva

7) Cabra Marcado para Morrer, de Eduardo Coutinho

cabra marcado para morrer

6) Contrastes Humanos, de Preston Sturges

contrastes humanos

5) A Noite Americana, de François Truffaut

a noite americana

4) O Espírito da Colmeia, de Víctor Erice

o espírito da colmeia

3) O Homem das Novidades, de Edward Sedgwick e Buster Keaton

o homem das novidades

2) Oito e Meio, de Federico Fellini

oito e meio

1) Crepúsculo dos Deuses, de Billy Wilder

crepúsculo dos deuses

Os dez maiores assassinos em série do cinema

Ao longo da história do cinema, os assassinos em série – movidos pelo mero prazer de matar e presos a um jogo – deixaram muita gente sem dormir. Vez ou outra apareciam com sede de sangue, reviviam mitos e serviam aos baldes de pipoca. Nem sempre eram identificados com facilidade. Os assassinos em série mudaram ao longo da história do cinema e, ainda assim, não perderam algo em comum: a matança como esporte. Abaixo, uma lista de dez figuras marcantes, as maiores segundo este blogueiro. Lembrou-se de mais algum? Avise e enriqueça a lista.

10) Mark Lewis (Karlheinz Böhm), em A Tortura do Medo

a tortura do medo

9) Aileen (Charlize Theron), em Monster: Desejo Assassino

monster

8) Anton Chigurh (Javier Bardem), em Onde os Fracos Não Têm Vez

onde os fracos não tem vez

7) Tio Charlie (Joseph Cotten), em A Sombra de uma Dúvida

sombra de uma dúvida

6) John Doe (Kevin Spacey), em Seven: Os Sete Pecados Capitais

seven

5) Paul (Arno Frisch) e Peter (Frank Giering), em Funny Games

funny games

4) Harry Powell (Robert Mitchum), em O Mensageiro do Diabo

o mensageiro do diabo

3) Raymond Lemorne (Bernard-Pierre Donnadieu), em O Silêncio do Lago

o silêncio do lago

2) Norman Bates (Anthony Perkins), em Psicose

psicose

1) Dr. Hannibal Lecter (Anthony Hopkins), em O Silêncio dos Inocentes

silêncio dos inocentes

E, como aperitivo para uma lista cheia de maldades, uma bela assassina:

Thana (Zoë Lund), em Sedução e Vingança

sedução e vingança

Veja aqui informações sobre os filmes da lista.