A Árvore dos Frutos Selvagens, de Nuri Bilge Ceylan

O espaço ao redor, terra natal, não faz mais sentido ao protagonista, jovem recém-chegado de uma temporada fora, para estudos. Basta reparar em suas primeiras voltas ao lado, olhar sem rumo, para perceber o quanto se faz deslocado – o que continua ao longo das três horas de A Árvore dos Frutos Selvagens. Vive para pensar no que vem depois.

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A saída é ir embora. Conseguir trabalho. Antes, contudo, esse rapaz, Sinan (Dogu Demirkol), quer ter seu livro publicado. É sua missão, maneira, ao que parece, de provar algo a si mesmo: falar do homem simples, das pessoas de sua terra, das questões da vida, não necessariamente de um fato ou um momento histórico.

Sinan, como a mãe e outros de sua cidade, tem problemas com o pai (Murat Cemcir), professor chegado a apostas em cavalos de corrida. Às aparências, o protagonista representa o oposto ao progenitor: despreza a forma como o mesmo se comporta, com malícia, com sorriso cínico do qual o diretor Nuri Bilge Ceylan não retira certezas.

Ao negar o reflexo, ou ao invertê-lo, Sinan leva o espectador a uma jornada estranha em que é peça imprecisa, de quem se espera qualquer coisa, ou quase. Suas aventuras trazem um pouco do sonho, a insistência – no mergulho às palavras, nas voltas em falso – torna-o irritante. Alguém indesejado, que sobrou, que ficou para sofrer em meio ao nada.

Ceylan leva ao sentimento de não chegar a lugar algum, enquanto a figura do pai cumpre a função de representar o pior, ainda assim a de alguém a se agarrar, de estranha atração. O mesmo diz que só não é julgado por seu cão, animal dócil, incapaz de cuidar das ovelhas contra os lobos que espreitam, animal que adora.

Outro ponto que certamente intriga o filho – o qual, nas profundezas de A Árvore dos Frutos Selvagens, inquieta o espectador. Aquele, o pai, certamente não é o pior dos homens.

Ceylan investiga a natureza desses seres a partir do filho errático, sonhador, perturbado pela ideia de alguém que consegue dormir e se deixar tomar, corpo todo, pelas formigas. Como é possível? Isso leva a outra passagem, forte, incômoda, possivelmente fruto de outro sonho de Sinan: um bebê pendurado em um cesto, coberto por formigas.

O bebê é ele, parte daquele pai que se deixou ligar aos insetos, que se fundiu à natureza sem que se deixasse perturbar. O pai é imbatível a ponto de rir da vida, sem nunca se abalar, o que também explica a confissão de sua mulher ao filho, a certa altura da obra. Segundo ela, mesmo se soubesse dos tantos defeitos do companheiro, ainda assim se casaria com ele, faria tudo de novo, para o desprezo de Sinan, que escuta as confissões.

Pela cidade, sem caminho, em pequenos trabalhos com o pai e com o avô, o protagonista tenta encontrar patrocinador para o lançamento de seu livro, que levará o nome deste grande filme. Fala, pelas páginas, das pereiras selvagens, as belas árvores de frutos perigosos – talvez nem tanto – com os quais o pai confessa se alimentar.

A câmera circula em torno de Sian, segue-o, em momentos parece estar escondida, a flagrar suas pequenas corridas, seus gestos de insistência. Em suas bobeiras, a câmera está lá; em suas amostras de fraqueza, sobretudo. Ao perceber o quanto se enganou sobre o pai, vaga, de novo em sonho, ao poço cavado pelo outro, para terminar enforcado.

O livro é sua fuga e deve responder a questões sobre a arte, sobre a importância da forma ou a dependência ao conteúdo. Aos outros, páginas emboloradas, objetos por meses sem vender em uma prateleira, na livraria da cidade. Com alguém pouco agradável à frente, a obra de Ceylan dá uma boa ideia da necessidade de ser alguém ao mesmo tempo em que se receia não ser nada, partícula perdida, sem história e sentido.

(Ahlat Agaci, Nuri Bilge Ceylan, 2018)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Baile Perfumado, de Paulo Caldas e Lírio Ferreira

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