Baile Perfumado, de Paulo Caldas e Lírio Ferreira

Os poderosos só entendem o tamanho de Lampião após sua impressão em película. Antes talvez fosse apenas um agitador dos rincões, da terra seca, alguém que podia vestir um terno e, entre todos da cidade grande, ir ao cinema na companhia da mulher. Sem ser reconhecido. Ao homem, Virgulino Ferreira da Silva, não será possível se aproximar.

Curta nossa página no Facebook e siga nosso canal no YouTube

Ao barco, o mesmo recebe a música do grupo que se equilibra. Depois, a música rompe com o próprio tempo, com qualquer sinal de que este Lampião, o de Paulo Caldas e Lírio Ferreira, pode ser definido. Em Baile Perfumado, o revolucionário tem na canção seu resumo, sua essência, sua contradição: “Veneno, faz o mundo girar”.

Ao mesmo tempo o mal, ao mesmo tempo a necessidade dessa presença do herói para alguns, matador para outros. Alguém contra a ordem, a impor a sua. Perfeito para a câmera – a de Caldas e Ferreira, a das antigas imagens feitas pelo sírio-libanês Benjamin Abrahão, mais empresário que artista, que ousou registrar o líder.

O Lampião em questão sai da tela do cinema. Desde o início, sem as roupas pelas quais é lembrado, mas de terno branco como outro homem qualquer, integrado à sociedade, assiste a um filme no cinema, A Filha do Advogado, de 1926. Mais que o filme, importa a tela, o ritual de troca, de deslumbre: Lampião reflete a imagem, que depois o reflete.

Como se os cineastas dissessem que nasceu para o ecrã, enquanto, acertadamente, não se ousa investigá-lo. Quem conduz essa narrativa cheia de cruzamentos e intromissões – nunca de viés histórico em excesso, nunca ficcional ao extremo – é o cineasta estrangeiro. Seu sotaque deixa ver alguém malicioso e bom negociador.

Pois Abrahão, próximo do espectador, é o rascunho de quem observa, de quem decidiu explorar o país exótico atrás dos guerreiros do sertão contra as autoridades. Não estranha que a foto de Getúlio Vargas paire ao fundo. Menos ainda que o encontro de Lampião com padre Cícero (Jofre Soares) mais pareça sonho que realidade.

Se o olhar estrangeiro distorce, por que Baile Perfumado ater-se-ia ao real? Eis a raiz complexa que liga o grande filme de Caldas e Ferreira à poética raivosa de Glauber Rocha. Mas não se trata de dizer que são cinemas semelhantes. O que os une é a renúncia ao aspecto real em nome dos mitos perpetuados pela literatura de cordel ou pelo cinema.

Sem o interesse de compreender o Brasil, resta ao estrangeiro o registro, a direção dos “atores” nos quais os cangaceiros em algum momento se convertem. A câmera coloca-os de cabeça para baixo, o que só escancara a impossibilidade de se dar ao retratado seus verdadeiros traços. Mesmo quando se lida com a foto posada.

Em algum momento, a imagem do homem Lampião converte-se na do homem simples, possível, a ser tocado. O empírico reveste-se do onírico, para lembrar Edgar Morin, e a relação passa à esfera interior. Depois da imagem, Lampião torna-se objeto de ódio ainda maior, cuja morte é questão de honra aos soldados do governo.

O filme de Caldas e Ferreira é sobre o cinema sem nunca sê-lo por completo. Na mira do diretor (Duda Mamberti), Lampião (Luiz Carlos Vasconcelos) e seus homens são figuras brutas demais ao jogo de interpretação. Assustam porque são verdadeiros, aos quais o avanço da câmera chega a ser engraçado. O filme do sírio-libanês sobre o revolucionário não por acaso termina censurado, prova maior de seu poder sobre olhos e mentes.

(Idem, Paulo Caldas e Lírio Ferreira, 1997)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Bacurau, de Juliano Dornelles e Kleber Mendonça Filho

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s