Divino Amor, de Gabriel Mascaro

O colorido difuso entre a escuridão é o primeiro sinal de medo. O amor a Deus e suas implicações percorrem essa estranha junção, um pouco futurista, um pouco atrasada – em algum ponto, volta o neon típico do cinema dos anos 80. As luzes não provêm mais das boates, becos ou inferninhos, mas das igrejas.

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Futuro em que um casal evangélico – e outros tantos – dedica-se ao amor incondicional. Todo amor enquanto houver um contrato entre partes, enquanto sobreviver a burocracia e suas regras, enquanto um dos lados não soar corrompido no curioso Divino Amor. Para ver o futuro com cara de passado, com características do Brasil atual.

Amor, neste caso, fincado em instituições, não exatamente em sentimentos verdadeiros, ou sentimentos fortes o suficiente para salvar um casamento quando sobre ele recai a desconfiança – ou, como é o caso, a negação de um milagre. É um filme sobre a cegueira evangélica, sobre a inaceitação do divino materializado.

Divino mesmo só o que pode ser vendido segundo as ideias e a fé da igreja: para mantê-la viva, é preciso expor o amor como propaganda, ideal fecundo, para rodas de casais na mesma igreja entre sombras e neon, para sustentar – pelo clichê corrente – que a família é a base da sociedade, como antes, nesse Brasil futurista governado pelos evangélicos.

Para essa história de um casal, primeiro, e de uma mulher, depois, o diretor Gabriel Mascaro não se apressa a apontar armas aos problemas da teocracia. Aposta no tempo, em seus efeitos, na combustão da qual o mal-estar gerado consome o espectador. É o amor em seu contraplano: não mais o sentimento de energia, explosão, para revigorar.

Amor, aqui, em marcha lenta, que só encontra alguma fúria quando canalizado no suposto vale-tudo da entrega entre corpos – quando o casal deita-se com outro casal em nome, veja só, do amor. Que não haja estranhamento, não há contradição – tampouco traição. Serve-se o Amor, que passa a se confundir com o Divino, ou seja, com Deus.

A protagonista é Joana (Dira Paes), dona de duas missões claras: tornar-se mãe e impedir que casais sejam desfeitos. Poderá fracassar em uma das duas, ou em ambas, o que, em um universo religioso de contradições, apenas lhe faz enxergar melhor. Ela trabalha em um cartório enquanto o marido, Danilo (Julio Machado), vende coroas de flor.

A mulher encontra-se todos os dias com casais em separação. Usa sua posição no trabalho para tentar reatá-los e, claro, levá-los à igreja que dá nome ao filme. Em seu trabalho, outra contradição: futuro e passado convivem em uma arquitetura de concreto à vista, curvas, ao mesmo tempo em espaço organizado, com prateleiras e porões forrados por pastas e processos, símbolos de um Brasil vencido pelo contrato e pela autenticação.

País em que acordos ao papel encontram-se, em algum ponto, com o pensamento religioso e, em outro, com a ciência genética. Nesse futuro frio, os brasileiros foram chipados, são sempre identificados a cada entrada em local público. Uma das informações dadas pelos computadores é a da gravidez, inclusive se o feto está ou não registrado.

O mal-estar criado por Mascaro é enorme: em nome de um Divino Amor (Deus), vale tudo, ou quase. Nesse reino em que fé, burocracia e ciência encontram-se não há motivos para se crer no “impossível”, na mãe grávida do Espírito Santo, neste sinal que mais parece pecado imperdoável, afronta a pastores postados em cabines de drive-thru.

A religião de Joana volta contra ela mesma. A crença em seu amor e fé é abalada quando a ciência – arraigada à religião e ao Estado – não pode explicar sua gravidez. É o golpe certeiro de Mascaro, ao país que preferiu viver para esperar o Messias, incapaz de enxergá-Lo – a ponto de deixá-Lo sem nome quando finalmente aparece. Para a mãe, santificada pelo véu branco, à luz forte, um nome cabe-lhe bem: Divino Amor.

(Idem, Gabriel Mascaro, 2019)

Nota: ★★★★☆

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