A Favorita, de Yorgos Lanthimos

O poder, em tempos mais ou menos democráticos, carrega habilidade e jogo. Nos bastidores, é construído com cinismo, golpes, promessas, mentiras, não sem sexo se necessário. No reino de A Favorita, o poder é representado pela relação de três mulheres diferentes.

A briga dá-se entre duas, e a terceira, a rainha, às vezes se intromete, sem muito a fazer; mais e mais terminará nas mãos das companheiras. A rainha é Anne (Olivia Colman), figura odiosa, de expressões moles, boçal, conectada, em grande aposento, aos seres da pureza perdida no filme do grego Yorgos Lanthimos: os coelhos.

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Pequenos seres submissos, os bichinhos são os únicos que não se erguem à mãe que tem tudo e nada, à rainha que depende dos outros e está sobre um reino que não existe sem ela. Pelo roteiro afiado de Deborah Davis e Tony McNamara, o poder, em determinada circunstância, emana curiosamente da figura mais fraca e infantil.

Nesse sentido, a comédia ácida de Lanthimos volta suas atenções não apenas à monarquia, mas ao poder construído pela manipulação dos bastidores, ao passo que o rei – ou a rainha, como é o caso – nada mais é – e não esconde que é, como é o caso – que uma marionete movida aos sussurros dos verdadeiros atores desse palco. Ou desse jogo.

Às aparências, Lady Sarah (Rachel Weisz) deveria servir a rainha; na verdade, utiliza sua posição para se servir do prazer do poder. A certa altura, o espectador questionar-se-á o que move essa mulher além desse desejo, pois o resultado não será visto para além do jogo ao qual o filme transporta, sem consequências nítidas para fora do palácio.

O poder como espírito, principalmente, na figura de Sarah e, aos poucos, na de sua principal oponente, a lourinha e pequena Abigail (Emma Stone). A primeira recebe a segunda, sua prima, nas dependências do castelo; cansada das raízes pobres, a recém-chegada passa a conspirar para subir ao quarto da rainha e, logo, deitar em sua cama.

O sexo, pelas duas combatentes em torno do trono, ou da cama, é a chave para chegar lá. Inconstante, explosiva, grotesca, a rainha é manipulada com facilidade; falam o que quer ouvir, para que acredite no poder que não tem; como uma criança cuja cadeira de rodas é feita à maneira de um brinquedo, e cuja biblioteca é o espaço para encontros com a amante e conselheira, ela dá ordens apenas para confirmar que pode mandar.

Abigail sabe o destino comum às mulheres de sua classe. Chegar à rainha é ter acesso ao outro lado: é perfurar um espaço em que conspirações políticas existem como casos de alcova, ou como ações típicas de crianças que arremessam frutas umas nas outras porque parece divertido. É quando a sujeira contrasta a aparente beleza dos homens de perucas brancas, maquiagem pesada, que vibram com uma corrida de patos.

Abigail está pronta para “brincar”. É a pior delas. Chega ao reino suja de lama, com cheiro de fezes. Disposta a subir, será capaz de tudo. À frente, contra Sarah, transita pelos largos corredores entre a boa menina angelical e a mulher formada, ambiciosa, pronta para esmagar pessoas como coelhos, ou como pássaros abatidos por balas.

A moça aprende a atirar. Sua oponente, pelo caminho, ganha um envenenamento, uma cicatriz, algumas noites em um bordel no qual “deus”, seu salvador, vive para fazer sexo com mulheres que não tiveram o destino da adversária: tornaram-se prostitutas. Para se manter no poder, ou apenas para desfrutar do jogo que produz, Sarah será capaz até mesmo de manipular a rainha para que seu marido vá para a guerra.

Nesses grandes cômodos, com pouca saída ao mundo externo senão aos jardins e às florestas aos arredores, Lanthimos tenta fazer todo o espaço caber no quadro. Seu diretor de fotografia, Robbie Ryan, abusa da lente grande angular. O resultado não está apenas ligado à possibilidade de tudo caber ali, mas, sobretudo, de se encontrar um universo claramente deformado, de beleza esgarçada, reflexo das personagens.

(The Favourite, Yorgos Lanthimos, 2018)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
O Lagosta, de Yorgos Lanthimos

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