Dogs Don’t Wear Pants, de J.-P. Valkeapää

O cão é o homem dominado, o protagonista, cirurgião cardíaco que perdeu a mulher e até então vivia uma vida sem graça. Sua casa não deixa mentir: tudo no lugar certo, formas metalizadas e pouca cor. Vida sem sentido até colocar os pés – a alma – na redoma da dominatrix, sala vermelha em que pede para ser torturado, campo do masoquismo.

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Por algum motivo que mesmo ele não entende, a vida volta a fazer sentido, ganha novo começo e algum prazer em Dogs Don’t Wear Pants. O diretor finlandês J.-P. Valkeapää revela esse homem culpado por se sentir atraído pela dor, pela morte, sobretudo pela mulher morta; ainda passa o perfume da falecida, masturba-se com sua roupa na face.

O protagonista é Juha (Pekka Strang). Em momento aparentemente passageiro, ele encara o coração batendo na mesa de cirurgia; seus olhos são ampliados através da lente que usa para operar o órgão, a vida em estado físico, escancarada, carne e sangue que passam pelo filme todo.

Juha precisa assumir seu desejo oculto. A dominatrix, Mona (Krista Kosonen), põe tudo à tona, pouco a pouco, quando ele, em um dia qualquer, termina em seus domínios, dia em que sua filha colocava um piercing na língua. Na sala vermelha, o homem deixa-se levar pela posição do cão, posto de joelhos, obrigado a lamber as botas da mulher.

Mais: é preso a uma cadeira de tortura, sufocado por um saco plástico e, na segunda investida nesse prazer perigoso, quase encontra a morte – ou o máximo de seu prazer, ou de sua revelação. Retorna ao fundo do lago no qual sua mulher morreu afogada, encara o corpo da mesma – nu, insinuante – em momento de transgressão.

Morte e prazer, lado a lado, na carne açoitada, no chicote, no couro preto do traje que cerca seu tronco e as partes íntimas. O médico de figurinos previsíveis de repente se vê lançado a um universo em que apenas a dor faz-lhe viver. Do outro lado, Mona encontra nele um quebra-cabeças disposto a desafiá-la, para que chegue ao máximo de sua performance.

Há ainda uma questão interessante a ser explorada no caso da personagem feminina: estar no figurino da dominadora é, para ela, o equivalente ao papel do dominado para Juha. Não se trata apenas de trabalho. O limite é atravessado no ponto em que a moça, com seu estranho prazer, percebe ter sua vida ligada à dele, e vice-versa.

Não se trata de vestir personagens, mas de se despir. O casal revela-se pelo oposto, ao mesmo tempo pela fusão, inevitável encontro que, mais tarde, dá vez à cena mais forte da obra, momento em que ela arranca um dente do companheiro. Ele, entregue às suas forças, aceita quem é, enxerga enfim sua carne frágil, retira a unha apodrecida.

Dogs Don’t Wear Pants choca pela dependência entre seres, não por aquilo que fazem. Sequer chegam a ser amantes. Na relação que desenvolvem, deixam algo como a cumplicidade, sentimento comunicado pelos olhos que tem sua melhor definição nos momentos finais: ele dança livre e ela, um pouco distante, compreende-o.

Em suas “outras vidas”, soam um tanto automáticos, tristes, falsos: ele um médico, ela uma fisioterapeuta em dias que se repetem, próximos a corações que batem e pessoas que lutam para se movimentar melhor. Precisam escapar. À luz vermelha, ele é o cão, ela a adestradora má, dona do animal que, ali, não pode usar calças. Não faria sentido.

(Koirat eivät käytä housuja, J.-P. Valkeapää, 2019)

Nota: ★★★★☆

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